P.E.C. Nº 1: Rali de Portugal, uma nova identidade...




Após 2001, na eclosão de todo o traumático processo que viria a afastar o Rali de Portugal da rota das grandes competições automobilísticas internacionais, a nossa prova perdeu em grande medida a sua identidade própria e, durante alguns anos, tardou em reencontrar-se.

Eram tempos assumidamente erráticos; o Rali parecia à época navegar um pouco ao sabor dos ventos, sem rumo definido e com estratégia incerta.

Refém das suas rotinas - entenda-se por 'rotinas' locais emblemáticos como o Confurco e Salto da Pedra Sentada nos saudosos troços de Fafe ou, mais a sul, Selada das Eiras e Casa do PPD como expressões maiores da lenda de Arganil - e agrilhoado ao anterior formato, o evento tardou em acertar agulhas com a sua própria história.

As edições de 2002, 2003 e 2004, em que a prova se disputou por terras transmontanas, foram uma pálida expressão daquilo que haviam sido os anos de ouro do Rali de Portugal.

Não que as classificativas da zona de Macedo de Cavaleiros não fossem entusiasmantes do ponto de vista da espetacularidade e desafios colocados aos concorrentes; simplesmente o Rali de Portugal estava longe do seu habitat natural e manifestava gritante desconforto com esta sua nova roupagem.

Repensado o conceito e filosofia organizacional, verificadas as insuficiências em deslocalizar o evento para paragens com poucos pergaminhos no âmbito do automobilismo, centrou-se a partir de 2005 a prova no sul do país desenhando-se a mesma em torno das regiões do Baixo Alentejo e interior Algarvio.

O Rali de Portugal paulatinamente foi-se redescobrindo a si próprio, saindo de um moroso período de letargia.

O passo derradeiro e decisivo nesta nova vida e identidade foi dado em 2007, quando após seis anos de ausência a prova portuguesa regressou, de pleno direito, ao restrito lote de Ralis pontuáveis para o campeonato do mundo.

Estamos em crer que o Rali, seguramente orgulhoso do seu passado, se sente todavia confortável nesta sua nova pele.

As 'rotinas' são agora outras e a forma de ser e de estar do Rali de Portugal modificou-se em função dos tempos atuais.

Não haverá ninguém que recusasse um encontro de contas com o passado e fosse indiferente a um regresso do evento a locais como Fafe e Arganil.

Acreditamos que aí, nas serrarias de Fafe ou nas majestáticas varandas de pedra, terra e pó sobranceiras à vila de Arganil, o Rali de Portugal - e por inerência muitos de nós... - foi muito feliz.

A questão, porém, bem se pode referir com toda a propriedade ser mais... terra-a-terra.

O apertado caderno de encargos que a FIA impõe para atribuir a organização de um Rali pontuável para o campeonato do mundo, deixa reduzidíssima margem, pelo menos para já, para que a prova, dentro de Portugal continental, mude para outra zona distinta daquela onde atualmente se disputa.

Daí que tenhamos a necessidade de saber o que pretendemos.

Se queremos cortar as amarras do passado, sabendo preservar e fruir o que temos.

Ou se pretendemos viver de recordações, recusando encarar o presente e abdicando de perspetivar o futuro.

O Rali de Portugal é um vastíssimo património de todo o país, sendo um exercício claramente redutor compartimentá-lo em função de conveniências políticas ou preferências regionais.

A nossa prova está, tem que estar, totalmente acima disso.

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