segunda-feira, 7 de junho de 2010

P.E.C. Nº 4: Venha daí à boleia; vamos conhecer António Zanini?... - 1ª parte - [Introdução...]



Já há um bom par de anos a esta parte que o automobilismo espanhol, designadamente aquele que se pratica em circuito fechado no âmbito das disciplinas de velocidade, é tido pelos pilotos portugueses como uma alternativa válida e credível para sedimentar carreiras e robustecer palmarés.

Na última década e meia, seja no âmbito dos monolugares, no contexto das corridas de turismos, nas provas de troféus monomarca ou nas corridas de GT, dezenas de pilotos lusitanos, com diferentes graus de sucesso, têm direcionado as suas carreiras desportivas para o país vizinho.

Compreende-se que assim seja.

Portugal, enquanto país automobilístico, tem uma dimensão exígua em termos de projeção e reconhecimento internacional.



Daí que, compreensivelmente, haja a tentação dos nossos mais emblemáticos pilotos medirem forças com os seus congéneres internacionais, pondo-se à prova em competições que lhes permitam revelar as suas aptidões.

Tem sido assim e, acreditamos, vai continuar a ser assim.

Pelo menos no plano do desporto automóvel, por muito que nos custe assumi-lo, uma certa ideia de iberismo é desde há muito uma realidade insofismável, preparando porventura o caminho para uma cada vez mais gradual – e já concreta - miscigenação entre o automobilismo de Portugal e Espanha.

Nomes como Amorim, Gião, Couceiro, Mário Silva, Matos Chaves, Parente, Ramos, Amaral, Carvalho, Freitas, Neto, Saraiva, Neto, Vinagre, Veiga, Bravo, Duarte Félix da Costa, entre vários outros, têm sido os porta-estandartes do automobilismo luso em terras de nuestros hermanos, reais embaixadores da qualidade e talento que indesmentivelmente temos no nosso país.



A nível de equipas, estruturas como a Bastos Sport, António Simões Motorsport, ou Veloso Motorsport, têm dado ao longo dos últimos anos no país vizinho bastos motivos de saber e competência, sendo vistas em diversos quadrantes, com inteira justiça, como organizações referenciais no que respeita à preparação de carros de competição.

No contexto específico do todo-o-terreno, diversas têm sido também as duplas de pilotos portugueses apostadas em competir com regularidade nas Bajas espanholas, dali trazendo vitórias, títulos, honra e glória.



Com alguma perplexidade, os Ralis têm escapado por completo a esta lógica.

Tirando algumas participações com carácter residual que os nossos pilotos vão, a espaços, encetando nas provas de estrada do país vizinho – e que acabam por materializar a exceção que confirma a regra - certo é que no âmbito dos Ralis ainda há hoje entre os países ibéricos uma enorme fronteira, alicerçada porventura na barreira do desconhecimento.

Por ser uma disciplina por definição mais onerosa que as provas de velocidade, encerrando em paralelo maior complexidade logística, compreende-se ser mais fácil ensaiar uma internacionalização nas corridas disputadas em autódromo do que o realizar nas provas de estrada.

Porém, tal realidade não afasta a ideia de que os Ralis entre Portugal e Espanha andam há muito – para não referir que andaram sempre - de costas voltadas, não havendo nenhuns indicadores que nos permitam concluir, pelo menos a prazo, poder vir a operar uma reversão em tal estado de coisas.

E os Ralis em Espanha, designadamente os seus principais campeonatos internos, têm forçosamente de ter qualidade.



Não será certamente um mero acaso que ao longo dos anos, em épocas distintas, nuestros hermanos tenham sabido produzir na sua ‘cantera’ interna diversos campeões do mundo.

Desse acervo de talentos, o nome mais emblemático é evidentemente Carlos Sainz, protagonista de algumas das mais épicas páginas da história dos Ralis.

Tudo já foi dito e redito relativamente ao colossal talento do piloto madrileno, bicampeão mundial de Ralis – possuidor de vários outros galardões que lhe recheiam um currículo imaculado e brilhante -, ainda há meses atrás plasmado em forma de vitória no Argentina/Chile, também denominado ‘Dakar’.



Dani Sordo, ostentando também um título de campeão do mundo - categoria S1600 -, é por seu turno hoje visto como um valor sólido no contexto dos World Rally Cars, perfilando-se a prazo como um dos potenciais sucessores de Sebástien Loeb, relativamente ao qual tem cumprido a contento o papel de lugar-tenente.

Não esqueçamos, de igual forma, Gustavo Trelles, pluri-vencedor dos mundiais para viaturas do agrupamento de carros de produção, conhecidos por ‘Grupo N’ – disciplina que dominou entre 1996 e 1999 -, que não obstante ser de origem uruguaia fez carreira nos campeonatos de Ralis em Espanha, ou ainda Enrique Garcia Ojeda, vencedor do Intercontinental Rally Challenge em 2007.

Todos os exemplos citados foram, em dado momento, em asfalto ou em pisos de gravilha, campeões de Espanha de Ralis (ver lista infra).

Há, naturalmente, outros nomes que não tendo tido tanto protagonismo como os atrás citados, contribuíram também eles para o reconhecimento internacional dos pilotos espanhóis de Ralis, como é o caso de Xavi Pons - à data em que publicamos este tópico, líder confortável dos S-WRC no campeonato do mundo - ou Jesus Puras, não afastando deste raciocínio até os sucessos que a Seat conseguiu resgatar na F2, em finais dos anos noventa, com o emblemático modelo Ibiza.



Tantos títulos, são um indelével selo de garantia relativamente à qualidade dos Ralis em Espanha.

Contudo, antes de surgirem na alta-roda do automobilismo todos os nomes que atrás elencamos, houve alguém que em tempos já remotos assumiu foros de pioneirismo podendo considerar-se, sem deferência nem favor, o primeiro grande piloto espanhol de Ralis.

Esse alguém, como já terão adivinhado, chama-se António Zanini

- continua -

CAMPEÕES DE ESPANHA DE RALIS (ASFALTO):

1966 - António Albacete (Mini 1275)
1967 - Bernat Tramont (Alpine Renault)
1968 - Bernat Tramont (Alpine Renault)
1969 - José Maria Palomo (Porsche 911R)
1970 - Ruiz Gimenez (Porsche 911)
1971 - Lucas Sainz (Alpine Renault)
1972 - Salvador Cañellas (Seat 124)
1973 - Jorge Babler (Seat 124)
1974 – António Zanini (Seat 124/1800)
1975 - António Zanini (Seat 124/1800)
1976 - António Zanini (Seat 124/1800)
1977 – António Zanini (Seat 124/1800)
1978 - António Zanini (Seat 124/1800)
1979 - Jorge Bagration (Lancia Stratos)
1980 - António Zanini (Porsche 911)
1981 - Jorge Bagration (Lancia Stratos)
1982 - António Zanini (Talbot Lotus Sunbeam)
1983 - Genito Ortiz (Renault 5 Turbo)
1984 - António Zanini (Ferrari 308 GTB)
1985 - Salvador Servia (Lancia Rally 037)
1986 - Salvador Servia (Lancia Rally 037)
1987 - Carlos Sainz (Ford Sierra Cosworth)
1988 - Carlos Sainz (Ford Sierra Cosworth)
1989 - Pep Bassas (BMW M3)
1990 - Jesus Puras (Lancia Delta Integrale)
1991 - José Mª Ponce (BMW M3)
1992 - Jesus Puras (Lancia Delta Integrale)
1993 - Mia Bardolet (Opel Astra GSI)
1994 - Oriol Gomez (Renault Clio 16V)
1995 - Jesus Puras (Citröen ZX 16V)
1996 - Luís Climent (Citröen ZX 16V)
1997 - Jesus Puras (Citröen ZX Kit Car)
1998 - Jesus Puras (Citröen ZX Kit Car)
1999 - Jesus Puras (Citröen Xsara Kit Car)
2000 - Jesus Puras (Citröen Xsara Kit Car)
2001 - Luís Monzon (Peugeot 206 WRC)
2002 - Jesus Puras (Citröen Xsara WRC)
2003 - Miguel Fuster (Citröen Saxo S1600)
2004 - Alberto Hevia (Renault Clio S1600)
2005 - Daniel Sordo (Citröen C2 S1600)
2006 - Daniel Solá (Citröen C2 S1600)
2007 – Miguel Fuster (Fiat Punto S2000)
2008 – Enrique Garcia Ojeda (Peugeot 207 S2000)
2009 – Sérgio Vallejo (Porsche 911 GT3)

CAMPEÕES DE ESPANHA DE RALIS (TERRA):

1983 - Ricardo Muñóz (Citroen Visa)
1984 – António Zanini (Talbot Samba)
1985 - Guillermo Barreras (Renault 5 Maxi turbo)
1986 - J.C. Oñoro (Opel Manta 400)
1987 - J.C. Oñoro (Lancia Delta S4)
1988 – Gustavo Trelles (Lancia Delta S4)
1989 – Gustavo Trelles (Lancia Delta S4)
1990 – Gustavo Trelles (Lancia Delta S4)
1991 - Mia Bardolet (Ford Sierra Cosworth 4x4)
1992 - Gustavo Trelles (Lancia Delta HF Integrale)
1993 - Enric Burrul (Citroen AX 4x4)
1994 - Cláudio Aldecoa (Ford Escort Cosworth)
1995 - Gabriel Mendez (Lancia Delta HF Integrale)
1996 - Pedro Javier Diego (Lancia Delta HF Integrale)
1997 – Pedro Javier Diego (Subaru Impreza e Ford Escort Cosworth)
1998 – Pedro Javier Diego (Toyota Celica)
1999 – Pedro Javier Diego (Toyota Celica e Ford Escort Cosworth)
2000 - Carlos Solé (Mitsubishi Lancer Evo 6)
2001 - Marc Blazquez (Seat Cordoba WRC)
2002 - Txus Jaio (Ford Focus WRC)
2003 - Txus Jaio (Ford Focus WRC)
2004 - Flávio Alonso (Seat Ibiza 4x4)
2005 - Samuel Lemes (Mitsubishi Lancer Evo 8)
2006 - Alex Villanueva (Mitsubishi Evo 8)
2007 – Daniel Solá (Mitsubishi Evo 9)
2008 – Xevi Pons (Mitsubishi Evo 9)
2009 - Yeray Lemes (Mitsubishi Evo 9)

FONTES:
- http://www.motorsportsresults.com/rally/Rallyes.europe.pdf 
http://www.rallyeracing.net/index.php/bpa-con-antonio-zanini-en-el-%E2%80%9C19-capitales%E2%80%9D-historico
- http://www.rallybuzz.com/rare-group-b-rally/
- http://www.seat.com/com/generator/su/com/SEAT/site/company/SEATSport/main.html- http://www.portimaoturis.pt/?v=1&id_noticia=95
- http://www.ralisasul.com/forum/viewtopic.php?f=13&t=1862
- http://driverphoto.foroactivo.com/historia-history-f4/antonio-zanini-su-trayectoria-en-fotos-t12.htm
- http://seatcientotreintayuno.mundoforo.com/1-vt112.html?start=0
- http://www.motorsportforums.com/forums/showthread.php?t=128974&page=2
- http://www.rallyeracing.net/noticias/otras/bpa-con-antonio-zanini-en-el-%E2%80%9C19-capitales%E2%80%9D-historico
- http://www.antoniozanini.com/
- http://es.wikipedia.org/wiki/SEAT_Sport
- http://images.google.pt/images?um=1&hl=pt-&tbs=isch:1&q=aNTONIO+zANINI+
PHOTOS&sa=N&start=100&ndsp=20
- http://slotadictos.mforos.com/720352/5204312-donde-se-puede-ver-el-palmares-de-los-campeones-de-espana-de-rallies/
- http://www.rallybase.nl/index.php?type=profile&driverid=3543
- http://seatcientotreintayuno.mundoforo.com/antonio-zanini-el-pionero-vt112.html
- http://golden-sands.rally-club.net/zlatni_en.html
- http://www.as.com/motor-mercado/foto/tandem-ganador-veterano-piloto-antonio/20100721dasdasmme_1/Ies
- http://rallymemory.blogspot.pt/2011_11_01_archive.html

2 comentários:

  1. Olá Nuno

    Desde já parabéns pelo blog. Aproveito este comentário só para umas correcções factuais dentro do espírito pedagógico de que se revestiu este post. É que o Gustavo Trelles não é espanhol, é uruguaio. E é Pep Bassas, não Basas.

    Mas isto são meros pormenores...

    Um abraço

    Pedro

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  2. Caro Pedro!...

    Queremos começar por agradecer a tua participação neste Blogue, esperando [re]ver-te por cá com a maior frequência possível.

    No que concerne às questões que elencas, poderás constatar que relativamente ao Gustavo Trelles escrevemos que ele é de origem uruguaia, não obstante ter consolidado parte da sua carreira desportiva competindo em Espanha.

    Quanto ao malogrado Pep Bassas tens toda a reparação no reparo que fazes [que agradecemos, claro está], pelo que desde já procederemos à respectiva rectificação.

    Já agora, quanto a Bassas, não queremos deixar passar a oportunidade para fornecer a todos os nossos visitantes o link de um tributo/homenagem que lhe foi muito justamente realizado no youtube:

    http://www.youtube.com/watch?v=L0rsJswJ7z4

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