P.E.C. Nº 6: A janela (in)discreta...


[Nota: Zona-Espectáculo revisita, com alterações de pequena monta, o texto por nós 
publicado em Março do corrente ano no fórum online da revista AutoSport]

Com considerável grau de fortuna e assumido privilégio, os acasos da vida têm-nos conduzido a acompanhar com regularidade e de forma presencial provas de Ralis.

Desde 1984, ano em que pela primeira vez pudemos testemunhar pessoalmente algumas das classificativas do Rali de Portugal, temos seguido várias das provas, nacionais ou internacionais, disputadas em cada temporada no nosso país.

Muito mudaram os Ralis nestes últimos 25 anos.

Os mais saudosistas enfatizam que as provas de estrada perderam brilho, espetacularidade e glamour.

É uma interpretação legítima e respeitável, mas em certo sentido condicionada pelas amarras do tempo.

Os Ralis, hoje, são simplesmente diferentes de outrora, sofrendo uma 'mutação genética' que é, julgamos, antes de mais o reflexo direto dos ditames da época atual, condicionada por fatores económicos e de pendor financeiro.

Não obstante procuramos uma certa ideia de integração no presente paradigma dos Ralis, há aspetos do passado que não podemos esquecer.

Às nossas memórias mais gratificantes, apelam pois, entre outros, fatores como o 'antigo' formato dos Ralis assente na diversidade e no elevado número de classificativas [contrastando com uma certa tendência dos nossos dias, quase obsessiva, em compartimentar claustrofobicamente as provas de estrada], ou o 'cantar' estridente dos motores dos carros que potenciava, à época, o aumento do batimento cardíaco dos espetadores a padrões similares às altas rotações dos bólides.

Há também outra questão que poderá à primeira vista parecer de detalhe, mas que a nós, como acreditamos a muitos outros entusiastas dos Ralis, deixa saudades.

Por motivos que atribuímos à procura de fazer baixar a temperatura no interior dos carros de Rali e, em simultâneo, evitar encadeamentos a piloto e navegador sempre que se deparam com o sol baixo e em posição frontal ao automóvel, desde o final dos anos noventa do século passado as viaturas de competição em provas de estrada vêm apresentando o seu envidraçado em tons espelhados ou escurecidos em fosco.

Um carro de Rali, antes uma janela aberta para o mundo [muitas vezes na sua aceção mais literal], foi-se paulatinamente tornando, em certo sentido, uma redoma fechada sobre si próprio.

Somos do tempo em que a deslocação aos Ralis era, não só mas também, perscrutar os pilotos em ação.

Há, nesta matéria, diversos rostos e imagens que sempre nos ficaram:

- Ver Tommi Makinen em Luílhas com um olhar faiscante enquanto assumia sincopadamente o volante do seu Mitsubishi como se de uma batuta de maestro se tratasse;

- Assistir ao trabalho de puro bandarilheiro de Carlos Sainz em Selada das Eiras, pegando no guiador como quem pega nos ferros para a faena de uma vida;

- Descobrir o saudoso Richard Burns e perceber a precisão cirúrgica e coerente de cada correção de volante que realizava em Ponte de Lima;

- Ou comparar o jogo de contrastes, no Confurco, entre a condução apocalíptica de Colin McRae, impregnada de tensão, e em simultâneo a sua expressão irradiando bonomia, distensão e tranquilidade, são flashes que não queremos nem jamais poderemos esquecer.

Tudo mudou [também] neste aspeto.

Mas não deixa de ser irónico que, quanto mais é vedado ao espectador de Ralis a perceção do que se passa no interior dos carros, mais existem uma miríade de câmeras televisivas, em todos os ângulos possíveis e imaginários, a despertar o sentido voyeurista que há em cada um de nós.

O centro de importância dos Ralis, sem que nos apercebamos, vai-se paulatinamente deslocalizando dos troços para os sofás.

Parece-nos, além de contranatura, uma péssima filosofia...

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