domingo, 20 de junho de 2010

P.E.C. Nº 8: Uma outra... «Face Oculta»...




Zona-Espectáculo não é um espaço para tergiversar sobre política, nem para perorar sobre o andamento de processos judiciais.

As únicas 'escutas' que nos motivam são o barulho dos motores a alta rotação em plena classificativa, e quanto a 'negócios com estações televisivas' apenas nos preocupa, claro, as reportagens, os diretos e os diferidos de provas de Ralis.

Questionará o nosso visitante os motivos pelos quais, então, intitulamos o presente trabalho de «Uma outra... Face Oculta».

É possível que o caro leitor desconheça, à primeira vista, quem é o venerável cavalheiro cuja foto enquadra o presente tópico.

Se lhe dissermos que é uma figura de enorme prestígio na história do campeonato do mundo de Ralis, levantando um pouco a ponta do véu e fornecendo-lhe algumas pistas, não subestimando a sua memória e capacidade de análise acreditamos haver fortes hipóteses de, ainda assim, não conseguir identificar de quem afinal se trata.

O homem em causa foi, asseveramos-lhe, um dos melhores navegadores da história dos Ralis.

Ainda assim não o consegue identificar?

É natural.

Aos navegadores de Ralis, num tempo cada vez mais mediatizado e onde se valoriza quase em regime de exclusividade a figura do piloto, vai sendo dado um destaque cada vez mais diminuto aos homens e mulheres que se sentam no lado direito dos carros de Ralis.

É deles, dos navegadores[as] de Ralis, que cuida o presente artigo de opinião.

Os copilotos, na gíria do automobilismo também conhecidos como 'penduras', são uma espécie de «Face Oculta da Lua»: sabemos que 'estão lá', têm uma função tão ou mais relevante no sucesso de uma prova ou de um campeonato do que os pilotos propriamente ditos mas, sobretudo no reconhecimento mediático [o palco privilegiado onde hoje em dia tudo acontece], ninguém os ''.

O desporto automóvel, sobretudo no plano das provas e campeonatos organizados à escala global, é pródigo em produzir heróis e alimentar lendas que, não raras vezes, perduram muito para além do final das respetivas carreiras.

A mediatização exacerbada, para o melhor e para o pior, que hoje envolve os principais campeonatos do mundo ao nível do automobilismo, projeta incessantemente em todo o planeta uma série de nomes e rostos que nos habituamos a admirar e seguir.

Todavia o automobilismo em geral também produz as suas injustiças e é por vezes cruelmente avesso em reconhecer o trabalho de muitas pessoas que, longe do palco dos órgãos de comunicação social, são verdadeiramente decisivas para o êxito de um projeto ou para a construção das vitórias.

Hoje, como referimos anteriormente, quem não aparece com regularidade nos ecrãs das televisões, quem não se publicita pela via da internet, quem não se divulga através dos jornais e revistas, acaba por ser uma personalidade quase inexistente e sem visibilidade neste mundo global.

Tudo isto vem a propósito dos Ralis, e da indiferença a que são votados os copilotos, ou navegadores, como quiserem.

Muitas vezes [quase sempre…], os créditos e os louros de um bom resultado vão para o piloto, tendendo o papel do navegador a passar para segundo plano.

Contudo, dentro de um carro de Ralis há uma verdadeira equipa [conceito manifestamente em perda...] na qual os atores têm um papel bem definido e cada um deles tem a sua quota-parte de responsabilidade nos sucessos e insucessos da mesma.

Não se pode dizer, em rigor, que é mais importante ou decisivo o papel do piloto ou do seu navegador: são missões que se complementam entre si e que dependem uma da outra, unidas por essa espécie de cordão umbilical que é a luta contra o cronómetro.

Se fizermos uma retrospetiva histórica, quer no plano nacional, quer ao nível do campeonato do mundo de Ralis, facilmente recordamos os nomes e rostos dos pilotos que mais se destacaram.

Mas por trás desses pilotos, dos virtuosos do volante que fizeram e fazem as delícias dos adeptos de Ralis em todo o planeta, há outros rostos fundamentais nos sucessos e momentos mágicos que só os Ralis, atrevemo-nos arriscar, podem proporcionar.

Um carro de Ralis, é muito mais do que um carro guiado com talento; a um «ás do volante» nas provas de estrada corresponde um outro «às» que, neste último caso, é em muitas ocasiões o «trunfo» que faz a diferença e garante vitórias.

Perguntará o caro leitor por que motivo, afinal, é o papel do navegador assim tão relevante.

Façamos um exercício de imaginação.

Imagine o caro leitor o que é ter que 'cantar' notas para alguém que vai a seu lado [e que confia em si cegamente, dando-lhe por isso enorme pressão e pouca margem de erro] durante mais de 30 minutos consecutivamente [como ocorre em algumas classificativas de maior extensão].

Repare: não há qualquer margem para falar um segundo mais cedo ou mais tarde, tendo que ser no momento exato.

Não pode engasgar-se, nem tão pouco engolir em seco.

Não pode gaguejar ou hesitar.

O seu tom de voz tem de ser suficientemente claro e impositivo para que seja assimilável pelo piloto em perfeitas condições, mas não pode ser demasiado alto de forma a diminuir a concentração a quem guia.

Aliado a tudo isso, tem de ter 'um olho no burro e outro no cigano', que é como quem diz olhar a estrada que está à sua frente, percecionar a distância para a próxima curva, mas ao mesmo tempo conseguir ler as anotações do seu caderno de notas.

Se o piloto pode corrigir um erro ou excesso de condução com um golpe de volante, o ritmo frenético dos Ralis não perdoa a mínima falha ao copiloto.

Caro leitor: já viu ou leu um roadbook oficial de uma prova de Ralis?

São uns livrinhos com centenas de páginas repletos de sinalética, que desde a saída do Hotel [muitas vezes às primeiras horas da madrugada] são a 'bíblia' e ferramenta de trabalho dos navegadores de Ralis.

Saber interpretá-los na perfeição [o que implica horas de estudo prévias], condicionado por vezes pela pressão do tempo que se vai esgotando da saída do parque de assistência para a classificativa [ou entre estas], acaba quase por ser uma arte bem mais complexa do que assimilar para o comum dos condutores as 'meras' sinalizações do Código da Estrada.

Mas há mais.

Antes de cada prova, o caderno de notas [muitas vezes visto, revisto e corrigido antes do Rali propriamente dito, exercício quase sempre repetido entre etapas] tem que ser impecavelmente transcrito, obrigando os navegadores a realizá-lo com perfeccionismo para memória futura.

Tem forçosamente de ser um minucioso e verdadeiro trabalho de paciência, passar para forma de letra e de gráficos 30 ou mais quilómetros de classificativa, ou os mais de 300 quilómetros cronometrados que caracterizam os Ralis pontuáveis para o Campeonato do Mundo.

Se tudo isto já é muito, sublinhamos-lhe ainda, caro leitor, a necessidade de ter uma noção de tempo especialmente apurada.

Ao que tudo se disse atrás, o navegador de Ralis tem de ser obrigatoriamente metódico e organizado para não errar nos controlos de partida e de chegada em cada troço, precisando também de avaliar o exato momento de entrada e saída do parque de assistência.

Quantos e quantos Ralis não se perdem ou ganham por erros dos navegadores nesta questão?

Quem se senta no banco do lado direito de um carro de Ralis, também tem de em plena classificativa, olhando para os tempos parciais dos adversários, percecionar o nível de andamento do seu piloto, incentivando-o se necessário para puxar um pouco mais pelo ritmo de prova, ou tendo de ter a arte e engenho para lhe refrear os ímpetos, de forma subtil ou mais enfática.

O presente tópico, mais não pretende do que promover uma simples humilde homenagem a todos aqueles e aquelas que, de forma abnegada e apaixonada, trocam o reconhecimento mediático e as honrarias daí advenientes, por todo um trabalho de sapa feito longe de holofotes e sem a distinção que lhes é [mais que] merecidamente devida.

Na nossa memória é raro ficar guardada a imagem do rosto de um copiloto de Ralis: a nossa memória é, por vezes, seletiva em excesso.

Se lhe falarmos, a título de exemplo, nos nomes de Miguel Oliveira, Edgar Fortes, Fernando Prata, Carlos Magalhães, Nuno Rodrigues da Silva, Luís Ramalho, Miguel Ramalho, António Manuel, Redwan Cassamo, Mário Castro, Miguel Borges, Ricardo Caldeira, Luís Lisboa, Paulo Grave, Sérgio Paiva, José Janela ou Ornelas Camacho, ou nos de, à escala internacional, Ilkka Kivimaki, Jean Todt, Fabrizia Pons, Marc Marti, Fred Gallagher, Nicky Grist, Michael Park, Luís Moya, Timo Rautiainen, Daniel Elena, Seppo Harjanne, Tiziano Sivieiro, David Richards, Daniel Grataloup, Phil Mills, Sérgio Cresto, Christian Geistdorfer, Arne Hertz, Juha Piironen, Bjorn Cederberg, Ilka Minor, Denis Giraudet, Risto Mannisenmaki ou Robert Reid, o caro leitor pode até não conseguir identificar os seus rostos.

Todavia, a prova insofismável da sua importância reside no facto de, na maioria dos casos, confiarmos que o caro leitor saberá perfeitamente a que piloto(s) os mesmos ficaram indelevelmente associados.

[Nota: o cavalheiro da presente foto chama-se Christian Geistdorfer. Se à primeira vista não conseguir descortinar quem é, dir-lhe-emos que foi navegador do eterno Walter Rohrl durante a maior parte da carreira do campeão do mundo de 1980 e 1982, e é alguém que, há cerca de 30 anos atrás, viria a protagonizar nos míticos troços de Arganil uma espécie de «visão sebastiânica» do melhor Rali do Mundo, ao emergir por entre névoas espessas e densas a toda a velocidade, naquele que é, sem favor, um dos mais episódios mais espetaculares e lendários de sempre da história dos Ralis em todo o mundo].

Para ilustrar com imagens as ideias expressas no presente trabalho, Zona-Espectáculo procura lançar pontes entre passado, presente e futuro, homenageando a carreira do espanhol Luís Moya e revelando em simultâneo o trabalho de Tiago Ferreira, navegador de Pedro Peres, durante o troço Verim/Soengas da edição do Rali Torrié do corrente ano.

HOMENAGEM A LUÍS MOYA:
video

PEDRO PERES/TIAGO FERREIRA NA CLASSIFICATIVA Nº 5 [VERIM/SOENGAS]
DO RALI TORRIÉ, PROVA DE ABERTURA DO CAMPEONATO 
DE PORTUGAL DE RALIS/2010:
video

[O presente tópico, agora objeto de revisão, foi publicado no fórum online da revista AutoSport em Janeiro do corrente ano].

1 comentário:

  1. Não sou nem nunca fui grande (ou sequer pequeno...) apreciador de ralis, mas nunca deixei de nutrir um certo fascínio e admiração secreta pelos homens (e mulheres) que têm a coragem de se sentar no 'lugar do morto' a debitar umas notas que mais parecem saídas de uma qualquer 'cabala' (no sentido original do termo, bem entendido...).

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