P.E.C. Nº 17: Rali de Portugal [Participação x Custos = Baixo Alentejo e Algarve?...]


[Nota: foto obtida em http://www.parquecidades-eim.pt/vodafone-rally-de-portugal-2010]

Carlos Barbosa, presidente da direção do Automóvel Clube de Portugal, veio a público justificar a manutenção do centro nevrálgico do Rali de Portugal nas regiões do Baixo Alentejo e Algarve: pelo menos, intui-se, nas próximas edições da prova.

Fê-lo, reforçando a ideia de que tal esquematização vai de encontro às pretensões das equipas concorrentes, por supostamente fazer baixar os respetivos custos de participação no Rali.

Várias notas há a referir sobre o tema.

Como já escalpelizamos com alguma profundidade na «P.E.C. Nº 1» do presente blogue, advogamos sem hesitar que o Rali de Portugal tem, antes de mais e acima de tudo, de se fazer representar no calendário do campeonato do mundo de Ralis em cada temporada, independentemente da localização geográfica onde se realize.

É natural que os protagonistas do evento, da direção de prova aos pilotos, das equipas aos adeptos, dos jornalistas ao staff organizativo, tenham uma ideia pessoal sobre aquilo que gostariam que fosse o evento.

Há, legitimamente, toda uma série de «variações sobre o mesmo tema» e opiniões para os mais díspares gostos e feitios.

Não obstante uma certa tentativa por parte da FIA, talvez mais aparente que real, em liberalizar o formato dos Ralis no sentido de os aproximar do modelo que vigorou até ao início do século XXI, certo é que o cenário de crise generalizada vai obrigando organizadores e equipas a arranjar soluções atrativas em termos financeiros para viabilizar listas expressivas de inscritos nas provas.

Pensamos que será essa ideia, aliás, que esteve na origem do encurtamento do recente Rali da Finlândia para dois dias de prova, modelo que colheu diversos elogios nos mais variados quadrantes e cuja fórmula terá aparentemente continuidade em próximas edições dos «1000 Lagos».

Na nossa assumida e não escondida condição lusa, confessamos que temos saudades, muitas saudades, da ambiência e espetacularidade de troços, entre muitíssimos outros exemplos que poderíamos elencar, como os das regiões de Fafe, Vieira do Minho, Arganil, Lousã ou Sintra.

Porém, os contextos mudaram e os tempos são outros, possivelmente mais complexos.

Será improvável que os Ralis a nível mundial voltem, como desejaríamos, a ter um caráter de itinerância: não nos parece plausível que, pelo menos no futuro imediato, os elevados encargos de participação se coadunem com fazer deslocalizar uma miríade de meios técnicos e humanos em regime de assistências móveis.

Com tanta infinidade de possibilidades e locais dentro do território português, estamos em crer que a Carlos Barbosa e Pedro Almeida coloca-se o mesmo dilema que aos treinadores de futebol cujos plantéis à sua disposição estão recheados de jogadores de grande qualidade: a dificuldade em fazer opções e escolher as classificativas que irão «colocar em campo».

É positivo a direção do Rali de Portugal estar perante esta «boa dor de cabeça», que se calhar muitos outros países, por sinal até com território bem mais vasto que o nosso, gostariam de ter e não têm.

Graças à capacidade persuasiva, talento negocial e prestígio pessoal que tem nas altas instâncias do desporto automóvel internacional, é sem dúvida alguma a Barbosa que todos devemos o regresso do Rali de Portugal às provas integradas no respetivo campeonato do mundo.

Carlos Barbosa, pensamos, não tem de justificar a localização do Rali de Portugal a ninguém a não ser aos patrocinadores, públicos e/ou privados, que viabilizam a cada ano a realização da prova, tal como o treinador de futebol não justifica o seu «onze inicial» em função das pressões ou preferências provindas da bancada.

Porém, espera-se que a organização da prova quando fale o faça com clareza e através de argumentos sólidos.

Muito se tem discutido nos últimos tempos o formato competitivo e a localização do Rali de Portugal.

Há nesta matéria vozes avisadas e outras que pecam por evidente desconhecimento dos factos e das realidades.

Contudo, se o principal motivo que leva o Rali de Portugal a estar centrado no Baixo Alentejo e no Algarve está alavancado nos mais reduzidos custos de participação, pensamos que essa será uma forma de enviesar a questão.

Sabemos que o modelo de Rali que tem vindo a ser apresentado nos últimos anos, reúne virtudes evidentes:

- Existe um aeroporto muito próximo do parque de assistência único do Rali, facilitando toda a operação logística das equipas;

- Há nas imediações capacidade hoteleira mais que suficiente para garantir as necessidades de todos os intervenientes na prova;

- As duas super-especiais estão precisamente junto à zona de assistência, evitando nesta matéria deslocações, gastos de verbas e perda de tempo;

- Dentro da filosofia atual dos Ralis, na zona circundante ao centro nevrálgico da prova existem inúmeras possibilidades para se traçarem classificativas de molde a que o Rali se torne extremamente compacto, sem grandes deslocações em percursos de ligação entre troços e entre estes e o parque de assistência.

Dando de barato que Arganil [a Serra do Açor por si só pode garantir um Rali de Portugal, tamanha é a possibilidade de conjugação de soberbos troços que ali se pode desenhar] está geograficamente afastada de grandes centros, pouco dotada em termos de vias de comunicação e tem uma capacidade de oferta hoteleira quase residual, já na zona norte do país a questão será distinta.

Se centrarmos esta temática em matéria de custos, acreditamos que seria possível edificar a norte do país um Rali cujo centro nevrálgico se situasse de igual forma perto de um aeroporto [recorda-se que há também naquela zona inúmeros estádios de futebol, além de vários outros espaços amplos para o efeito], seguramente com válidas e diversas hipóteses para se montar um parque de assistência capaz de garantir a operacionalidade das equipas concorrentes, além, claro, de todo um conjunto de troços [Serras de Fafe, Agra, Cabreira...] potenciadores de dar corpo a um Rali também compacto em termos da sua extensão total.

Do ponto de vista da legitimação, o A.C.P. tem naturalmente total liberdade de realizar o Rali de Portugal onde entender mais conveniente.

Acreditamos que a sua realização no Algarve prende-se em grande medida com as estratégias comerciais dos principais patrocinadores da prova, além do elã entretanto criado junto das forças vivas da região, de natureza pública e/ou privada.

Como salientamos anteriormente, Carlos Barbosa não tem de justificar as suas opções e filosofia de Rali, senão a quem disponibiliza as verbas necessárias para que a prova seja uma realidade.

Todavia parece-nos que está amplamente por demonstrar que no plano dos encargos de participação no Rali de Portugal, é impossível organizá-lo noutras regiões do país distintas da atual, sem que do ponto de vista financeiro os valores em causa aumentem exponencialmente.

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