terça-feira, 7 de dezembro de 2010

P.E.C. Nº 30: Saber ganhar...



«Zona-Espectáculo» não esconde apreciar uma boa polémica.

A controvérsia, quando tem o condão de trazer para o centro do debate assuntos de relevo, revela-se com frequência positiva.

Há, porém, o reverso da medalha.

Polémicas há que se tornam desnecessárias e estéreis, em nada contribuindo para o contexto onde se desenvolvem.

Vem a isto a propósito das declarações proferidas por Bernardo Sousa, logo após o Rali de Mortágua, prova que aliás o viria a consagrar campeão nacional de Ralis na temporada de 2010.



Nessa ocasião, o jovem piloto madeirense, porventura ainda a quente, referiu publicamente que caso tripulasse o Peugeot 207 S2000 com que Víctor Pascoal participou no CPR/2010, triunfaria de igual forma na competição maior dos Ralis nacionais.

Várias notas sobre esta matéria.

Sousa tem, naturalmente, legitimidade para pensar nos termos em que se expressou.

Teria sido muito interessante, diga-se, que esta contenda tivesse tido um desfecho cavalheiresco e à moda antiga: Bernardo desafiava Pascoal para um mano-a-mano, fechava-se um troço em asfalto ou terra, e a partir daí cada um dos pilotos conduziria o carro do adversário para se chegar a conclusões definitivas.

Romantismos à parte, dado isso não ter sido feito o ponto de interrogação manter-se-á indefinidamente.



Víctor Pascoal é, de há muitos anos a esta parte, um homem dos Ralis.

Sabe-se que para montar um projecto que viabilizasse a sua participação na totalidade da temporada de 2010, o piloto de Amarante viu-se e desejou-se para reunir um leque de patrocínios suficiente para o efeito.

O grande óbice nesta matéria não é só a falta de competitividade do Peugeot da equipa «Politejo Amarante Rally Team», viatura que desde 2008 não sofre evoluções de relevo.

Não nos esquecemos, por exemplo, que em algumas provas de 2010 a equipa nortenha competiu com recurso a gasolina comercial.

E sabe-se que em várias ocasiões, as peças de substituição para alguns dos mais vitais órgãos do seu carro pura e simplesmente não existiam por falta de budget.

Todavia, mais que o carro propriamente dito, o grande problema foram as circunstâncias, problemáticas, com que Víctor Pascoal realizou o CPR/2010.

O maior obstáculo à competitividade em provas de estrada é a preocupação em poupar mecânica quando as circunstâncias reivindicam ataque total.



Um dos maiores entraves com que um piloto se pode deparar, é formatar-se mentalmente para não provocar as bermas do troço, ao invés de direccionar o seu trabalho em função do cronómetro e do final da classificativa.

É, no fundo, como se jogássemos bowling preocupados apenas e tão só em não colocar a bola nas calhas que ladeiam a pista, em vez de nos focarmos na essência e objectivo central do jogo que é acertar e derrubar os pinos.

Foram circunstâncias claramente adversas, portanto, aquelas com que Vítor Pascoal se deparou em 2010.

Um orçamento quase irrisório, uma contratualização com patrocinadores para fazer a totalidade do campeonato que poderia ficar em causa com um acidente grave ou avaria mecânica profunda no 207 S2000.

Pensamos que o piloto de Amarante saiu desta questiúncula de forma extremamente digna.

Defendeu-se com a serenidade de quem acredita lhe assistir razão, rebatendo com dados concretos, ponto por ponto, as questões colocadas em cima da mesa, resistindo à tendência de falar alto para se fazer ouvir [vd. declarações em: http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey
=as.stories/91150].

Foi incisivo, claro e factual.

Acreditamos ter creditado para junto de si um considerável capital de simpatia.



Os Ralis nacionais, órfãos de referências, precisam muito de pilotos como Pascoal.

Não está em causa, com o que atrás referimos, a justeza do título conquistado por Bernardo Sousa.

O piloto madeirense tem qualidade e talento de sobra.

É inegavelmente rápido como a categórica vitória no Rali Casinos do Algarve, prova de encerramento de temporada, veio cabalmente demonstrar.

Estas suas declarações, pensamos, são fruto de algum deslumbramento mediático que em consonância com a irreverência da juventude por vezes nos faz, a todos, ter palavras e actos menos conseguidos.

Mas não deixa de ser verdade que na temporada de 2010, Sousa parece não ter aproveitado os ensinamentos que Rui Madeira e Nuno Rodrigues da Silva [indiscutivelmente dois grandes senhores do automobilismo português] lhe poderiam incutir, sobretudo naquilo que, fora do carro, é necessário, também aí, para se ser um grande campeão.

Os vencedores da Taça FIA de Grupo ‘N’ em 1995 parecem estar num discreto mas progressivo afastamento da orla do «Team Quinta do Lorde».

A confirmar-se esta ideia, pensamos que será o actual campeão nacional de Ralis que sairá a perder, delapidando um capital de experiência que o poderia ajudar na aquisição de maturidade desportiva enquanto piloto de Ralis.



As fotos publicados no presente trabalho, foram obtidas nos links que abaixo se discriminam:
- http://formularali.wordpress.com/2010/04/10/cpr-serras-de-fafe-bernardo-sousa-rei-do-minho/
- http://autoandrive.com/2010/03/05/bernardo-sousa-com-epoca-bem-preenchida/
- http://speedsin.com/sportmotores/viewtopic.php?f=8&t=3306&start=560
- http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=as.stories/90776
- http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=as.stories/88701
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/theme38/sujet378445-280.htm

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