quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

P.E.C. Nº 46: Bilhete de Identidade nº NG-81-41



A belíssima foto que acima reproduzimos, representa mais que uma passagem de testemunho entre dois campeões nacionais de Ralis.

Encerra todo um simbolismo muito especial: a transição entre a 'emoção' da era frenética dos 'Grupos B' e a 'razão' moderada dos anos que se seguiram.

O início da década de oitenta nos Ralis portugueses caracterizou-se pelo aparecimento, marcante e avassalador, do trinómio Joaquim Santos/Miguel Oliveira/Ford Escort RS que rapidamente conquistou uma certa aura de invencibilidade.

O colossal talento do piloto de Penafiel aliado à capacidade planificadora e perfil de liderança do advogado portuense, formavam uma dupla em diversos aspectos de sinal oposto mas que, dentro do carro, se completava na perfeição.

As vitórias sucediam-se, os títulos também.

Como é natural nestas ocasiões, a alta fasquia colocada pela estrutura da Diabolique acabava por se tornar ela própria especialmente motivadora para a concorrência.

Quem lhe pretendesse desafiar o poderio, sabia de antemão ter de se organizar em patamares competivos muito altos, roçando a excelência.

Em meados de 1983, a Renault Portugal apostava em capitalizar o sucesso comercial que o seu modelo utilitário de então tinha no mercado português, transpondo esse elã para o plano desportivo.

A aposta, óbvia, não podia deixar de recair senão no Renault 5 Maxi Turbo, viatura que oferecia em teoria elevadas garantias de competividade, uma vez que era construída de acordo com os mais recentes padrões regulamentares da época.



No entanto, um bom carro poderia não ser suficiente.

Havia necessidade de recrutar alguém que, aliado à experiência, o soubesse conduzir com extrema rapidez e eficácia.

Esse alguém, claro, só podia ser Joaquim Moutinho!



Moutinho [apetece-nos escrever, por dever de justiça, Mestre Joaquim Moutinho...] é o puro piloto nascido no contexto dos anos setenta.

Versátil, competidor feroz, lutador incansável, mas sempre balizado em termos de conduta dentro das duas normas inelutáveis do desporto: ganhar e perder.

O seu elevado sentido de profissionalismo e responsabilidade, os firmes padrões éticos que sempre nortearam a sua presença no automobilismo, encaixavam na perfeição neste desafio, difícil mas estimulante, que a Renault se propunha levar a bom porto.

A temporada de 1984 começava, portanto, sob os melhores auspícios: nada mais, nada menos, que um autêntico duelo de titãs entre Joaquim Santos [vencedor do nacional de Ralis em 1982 e 1983] e Joaquim Moutinho... Santos!...



Os próprios poder-se-ão talvez nunca ter dado conta, mas esta rivalidade intensa trouxe um clima de verdadeiro derby [no bom sentido] para os troços nacionais.

Tal como se era do Benfica ou do Sporting, também se torcia pelo Moutinho ou pelo 'Quinsan'.

A popularidade dos Ralis portugueses incrementava-se em larga escala, na sequência da busca de superação dos dois magistrais pilotos a cada classificativa.

A exposição mediática dos Ralis beneficiava disso.

O decorrer da temporada acabaria por se caracterizar por um grande equilíbrio de prestações, daí que não fosse de estranhar que o título só viesse a decidir-se na fase final do campeonato.



O Rali do Algarve de 1984, última prova do ano, era fulcral para as contas finais de ambos os pilotos e respectivas equipas.

Motivos extra-desportivos viriam porém, lamentavelmente, a fazer desequilibrar o fiel da balança para um dos lados.

A história, triste, conta-se em poucas linhas.

A prova seguia o seu curso esperado: uma luta férrea entre Santos e Moutinho, troço a troço.

Na classificativa de Monchique, porém, imediatamente antes da passagem do piloto da Renault alguém colocou na estrada uma barra em ferro crivada de dentes pontiagudos, mais que suficiente para que o carro num ápice furasse os 4 pneus e se visse obrigado a não poder continuar em prova.



A vitória no Rali ficava assim à mercê de Joaquim Santos [jamais acreditamos que tal acto tenha partido ou sido previamente conhecido da estrutura da Diabolique] e as contas do campeonato encerravam-se em definitivo a favor dos homens de Miguel Oliveira.

Este Rali do Algarve perduraria para sempre como um marco temporal: o fim-de-semana em que os Ralis portugueses perdiam em definitivo a inocência dos verdes anos.

Acreditamos que para Moutinho, homem de sólidas convicções éticas, terá sido difícil digerir uma derrota em tais circuunstâncias.

Mas quem conhecia a têmpera do piloto portuense, sabia que este revés teria o condão de o tornar ainda mais determinado.



O tónico motivacional estava, aliás, ali mesmo ao lado: o 'NG-81-41', viatura que por esta altura lhe ia ficando cada vez mais umbilicalmente associada.

As temporadas de 1985 e 1986 acabariam por confirmar as suspeitas: o binómio Moutinho/Renault ia espalhando classe pelas classificativas nacionais, arrebatando vitórias, proporcionando espectáculo.

O piloto sabia perfeitamente os limites do carro, nunca os forçando em demasia.

O carro correspondia fielmente, quase nunca deixando ficar mal o seu condutor.

A parceria e simbiose eram perfeitas.

O fim trágico desta ligação acabaria por ocorrer no Rali dos Açores de 1986: O 'NG' tomava em combate, prostrado na berma da classificativa, esvaíndo-se em chamas!



No final dessa temporada, Moutinho deixava em definitivo o automobilismo para não mais regressar.

Uma perda para muitos irreparável, forçada pelas circunstâncias.

Não temos a grata honra de conhecer pessoalmente Joaquim Moutinho e, por exclusão de partes, nunca ouvimos da sua boca os motivos pelos quais se afastou dos Ralis ainda jovem, com uma larga carreira pela frente que se antevia auspiciosa.

Admitimos que o piloto tenha optado por conceder mais tempo e atenção ao seu núcleo familiar.



É provável que pretendesse abraçar novos desafios profissionais [onde, também nesta área, viria a confirmar grandes talentos tornando-se empresário de muito sucesso].

Quem sabe se a nova nomenclatura dos Ralis, assente em carros menos potentes, tenha sido pouco motivadora para quem tinha feito carreira a conduzir com arte e engenho bólides de elevadas performances.

Ou talvez fossem esses factores que, somados, tenham levado Moutinho a pendurar o capacete antes de tempo.

No entanto, este foi um 'divórcio' que sempre nos pareceu algo sofrido.

Moutinho, homem de sólidas convicções e puro intérprete do jogo pelo jogo, era incapar de competir num tabuleiro onde os dados se apresentavam de antemão viciados.



Acreditamos que os acontecimentos do Algarve em 1984 nunca se tenham desvanecido por completo das suas memórias.

Mas, ainda que inconscientemente, a falta do 'NG' e a carga de dramatismo inerente à maneira como a viatura desapareceu, talvez tenham contribuído em grande medida para a sua decisão, irrevogável, de deixar o automobilismo.

Nunca em Portugal a carreira de um piloto terá ficado tão ligada a um automóvel como a de Moutinho ao seu emblemático Renault.

Há por vezes objectos que marcam trechos de vida e com eles se estabelecem relações afectivas.

Um certo sentimento de perda, um vazio que se terá gerado pela falta do 'NG', podem ter precipitado a tomada de decisão por parte do piloto portuense.



Não tendo mais nada a provar fosse a quem fosse, naquele ponto da sua carreira Moutinho terá intuido que só com o 'NG' o automobilismo faria sentido.

Aquele carro era uma espécie de confidente com quem Moutinho partilhava os segredos da sua excepcional condução.

Era a marca distintiva do piloto da Renault.

Qualquer representação mental que possamos fazer de Joaquim Moutinho, tem-lhe automaticamente associada a imagem do 'NG', amarelo e branco.

O 'NG' era-lhe no fundo uma verdadeira extensão de personalidade.

Uma segunda pele...




As fotos que enquandram o presente trabalho foram obtidas em:
- http://www.ralisasul.com/forum/viewtopic.php?f=13&t=1448
- http://www.facebook.com/photo.php?fbid=181135565239482&set=t.1032706150&theater
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/theme40/sujet369276-140.htm
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/theme40/sujet369276-105.htm
- http://www.ralisasul.com/forum/viewtopic.php?f=13&p=12111
- http://pt-pt.facebook.com/note.php?note_id=120301038010356


Para consulta de algumas notas biográficas sobre a vida e carreira desportiva de Joaquim Moutinho, visitar:
- http://bussola.blogs.sapo.pt/149003.html
- http://o-cousa.blogspot.com/2007/06/joaquim-moutinho.html

2 comentários:

  1. Parabéns pelo artigo, mas permita-me uma ressalva.
    São tecidas demasiadas considerações pessoais e até algumas especulações, que não estão em parte devidamente fundamentadas, nomeadamente sobre o abandono da competição por parte de Joaquim Moutinho.
    Daquilo que é do conhecimento público e que o próprio já confirmou, o motivo que conduziu ao seu abandono da competição, prendeu-se com a vontade de se dedicar mais à vida empresarial, a exemplo do que sucedeu com pilotos como Pequepe ou António Coutinho.
    Naturalmente que o incêndio no R5 Turbo "NG" terá sido um motivo de grande tristeza, mas não foi isso que precipitou o seu abandono. Aliás, a Renault Galp tinha interesse em que Joaquim Moutinho continuasse como piloto da equipa para 1987, só avançando depois para a contratação de Inverno Amaral.

    Cumprimentos,
    João Santos

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  2. Caro João Santos!
    Agradecemos a sua intervenção, acima de tudo pelas achegas que traz a este assunto. Como é natural, não foi o incêndio do 'NG' que se assumiu como fator decisivo para o abandono das competições por parte de Moutinho. Carros há muitos. Apenas nos socorremos dessa figura de estilo, assumidamente 'romanceada', para reforçar a ideia da ligação entre carro e piloto, com Moutinho, pensamos, a ficar com a imagem para sempre indelevelmente ligada ao lindíssimo Renault. Não é fácil encontrar informação sobre Joaquim Moutinho. Relativamente a 'Quinsan' e Carlos Bica (para citar dois dos principais adversários do antigo piloto oficial da Renault) há apesar de tudo mais imagens, fotos, ou textos pela internet (se calhar porque estenderam as respetivas carreiras até mais tarde, até à década de noventa). No que respeita a Moutinho, juízos de valor baseados em dados concretos são mais difíceis de obter. Daí que escrever-se sobre o extraordinário piloto do Porto tenha que, em alguns momentos, levar em linha de conta alguma carga especulativa. Gera-nos alguma perplexidade o facto de Moutinho ter vivido tão intensamente a sua carreira desportiva (é um dos dois portugueses que pode orgulhar-se de ostentar no seu palmarés títulos máximos absolutos nos ralis e na velocidade) e ter cortado tão radicalmente com o automobilismo, a ponto de muito raramente ser visto num troço ou num circuito, a ponto de nunca mais ter testado um carro, a ponto de nunca mais ter feito, cremos, qualquer prova, ainda que daquelas de menor relevo. Como, tanto quanto julgamos saber, Moutinho até teria alguma disponibilidade financeira para o efeito, este divórcio 'radical' com o automobilismo é estranho do ponto de vista de nós, meros aficionados da modalidade. Talvez luz mais clara se faça um dia, caso Joaquim Moutinho decida publicar as suas memórias.

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