P.E.C. Nº 49: Sainz tirar nem pôr...



Há quem afiance que «de Espanha nem bom vento, nem bom casamento».

Desconhecendo a origem de tal afirmação, acreditamos que ela será uma reminiscência da ancestral rivalidade entre os países ibéricos, provinda talvez dos tempos em que ambos definiam os esboços do mundo.

Portugal e Espanha têm uma relação secular de aproximação e desavença, como ao fim ao cabo só nações irmãs, com muito mais em que comum do que aquilo que as separa, são capazes de ter.

Por via de regra habituámo-nos historicamente a cultivar uma certa antipatia de estimação por tudo aquilo que provém do país vizinho.



Ou melhor, quase tudo.

Carlos Sainz foi (é…) a exceção que nesta matéria contraria a regra.

A relação entre o magistral piloto madrileno e o público português sempre se pautou por uma evidente empatia.

Mútua: bidirecional.



O começo da história é conhecido: autódromo do Estoril, Rali de Portugal/1987, 1ª classificativa da prova.

Sainz, então um ilustre desconhecido na alta-roda dos Ralis, atira uma seta de cupido aos aficionados lusos averbando, sem mais, o melhor tempo na sua estreia absoluta ao mais alto nível.

Inicia-se, então, um enorme interesse dos portugueses em torno do piloto espanhol, fruto, cremos, de uma perfeita fusão genética entre a pásion que o madrileno sempre colocou no seu desempenho em terras lusas, e a paixão que o público português incondicionalmente rendia à prestação desportiva de Sainz nas classificativas nacionais.

Perante países que em vários aspetos viviam de costas voltadas, Carlos conseguiu, durante anos, a insofismável proeza de realizar as mais improváveis 'cimeiras ibéricas', nos lugares mais recônditos, induzindo público português e espanhol a apoiá-lo a uma só voz.



Era assim em Ponte de Lima, Cabreira, Fafe, Viseu ou Arganil.

O piloto da Ford, Toyota, Subaru e Lancia era por aqueles anos um verdadeiro elo de ligação entre nações ibéricas, edificando uma espécie de identidade coletiva em seu torno sem fronteiras ou barreiras de qualquer outra ordem, proveniente do seu empenho e extrema honestidade profissional bem como dos seus gigantescos dotes de condução.

A relação entre Sainz e o público português foi crescendo e amadurecendo pela admiração recíproca e pela fidelidade conjunta.

Ainda hoje o piloto de Madrid é muito acarinhado em solo luso, tanto, porventura, como qualquer outro piloto nascido em Portugal.



A tenacidade, crença e abnegação de Carlos Sainz tornaram-no uma espécie de herói improvável para um povo, como o nosso, que fazia da resignação e do fatalismo maneira de ser e de estar.

Adotámo-lo como um dos nossos, projetando em Sainz o que o automobilismo português daqueles tempos tinha dificuldades em produzir – César Torres à parte -: atitude e excelência.

O bicampeão mundial de Ralis é sem sombra de dúvida um caso curioso, por contrariar uma tendência arreigada durante centenas de anos nas relações luso-espanholas.

Estamos até em crer que se um dia a alegoria de José Saramago se cumprir e a jangada de pedra ibérica se separar do resto da Europa, é de certeza Carlos Sainz quem será recrutado para ir ao leme...















Nota: As fotos que enquadram este trabalho foram obtidas em:
- http://rallymemory.blogspot.com/2010/06/1997-em-imagens.html
- http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=as.stories/64663
- http://www.flickr.com/photos/82806052@N00/294022581/sizes/l/in/photostream/
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/theme40/sujet369276-210.htm
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/theme40/sujet369276-280.htm
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/theme40/sujet369276-315.htm

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