P.E.C. Nº 66: A vida é (Mar)bella!



Era uma vez um conjunto de jovens que queria ser piloto de Ralis.

Estávamos em finais dos anos oitenta e início da década de noventa.

Por essa altura ainda se mantinha bem viva a aura dos lendários 'Grupos B', extintos no campeonato do mundo um par de anos antes.

O Rali de Portugal continuava a viver anos de ouro e o brilho glamoroso de Henri, Timo, Ari, Walter, Markku, Michéle, Juha, Bjorn, Miki, Hannu ou Stig era demasiado intenso para não exercer forte influência nos jovens em questão que começavam agora, dealbada a fasquia da maioridade, a poder experimentar as delícias da condução.

Os Ralis ao mais alto nível eram, pois, um filme sem vilões mas repleto de heróis, capazes de povoar os sonhos de quem pretendia tornar-se conhecido pela destreza e façanhas ao volante.

Nós próprios, como muitos outros jovens à época, secretamente ambicionávamos ser um 'ás do volante'.



Futebolista era uma coisa desprovida de interesse e algo banal, médico ou advogado atividades demasiado formais e entediantes.

Ser piloto é que era!

Era afirmar a diferença e a irreverência, medida exata de tudo aquilo que um adolescente gosta de ser.

Com a entrada na vida adulta, esboroaram-se as nossas veleidades em fazer carreira no automobilismo: esquecemos a bacquet e o volante firmando interesse pela poeirenta berma da classificativa.

Os jovens de que falávamos recusavam, porém, capitular perante os seus propósitos.

Obstinados, teimavam em não fazer os seus sonhos entrar em despiste.



Com pouco dinheiro no bolso, a via de entrada no 'salão de jogos' dos Ralis tinha de ser feita timidamente na rudimentar 'mesa de matrecos', ao invés das 'máquinas de flippers carregadas de eletrónica': o Seat Marbella, espartano aos mais diversos níveis, servia na perfeição para esse objetivo.

As imagens que seguem falam por si.

Vemos desejo de afirmação, alimentado nos excessos próprios da juventude.

Vemos descidas súbitas e incontroláveis de testosterona ao pé direito.

Vemos imperfeições na condução, pura acne no ato de pilotagem.

Percebemos viver-se a curva do momento sem pensar na classificativa de amanhã.

Há inquietude, emoções ao alto.



Voracidade, arrebatamento, sentido de urgência.

A súmula de toda esta adjetivação resume-se no troféu Seat Marbella que, entre 1988 e 1992, foi o ritual de iniciação para vários jovens [homens e mulheres] no mundo dos Ralis.

O tempo e as janelas de oportunidade, como em qualquer escola, foram fazendo uma seleção natural: ficaram pelo caminho alguns, realizaram carreira ao mais alto nível outros.

Todavia o legado dos Marbella perdurou, selado pelo ensinamento segundo o qual o apelo e fascínio dos Ralis não tem de andar necessariamente de mão dada com pilotos consagrados e carros potentes.






NOTA:
Boa parte deste conceito 'low cost' para Ralis foi em boa altura reaproveitado com o atual troféu Fastbravo, competição que dá cor e brilho ao Open de Ralis e se socorre precisamente do modelo Marbella fazendo-o evoluir a preço acessível e controlado nas classificativas nacionais.
A história repete-se!

AS FOTOS QUE ENQUADRAM O PRESENTE TRABALHO, FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.ralisasul.com/forum/viewtopic.php?f=13&t=1563

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