P.E.C. Nº 67: ... nada se perde; tudo se transforma!



A Finlândia é um caso singular na forma como consegue regenerar as suas sucessivas gerações de pilotos de Ralis.

Nos últimos quarenta anos, a linhagem de talentos que soube produzir é sobejamente conhecida – e impressionante - dispensando comentários adicionais.

Naquele país nórdico, sempre que um campeão pendura o capacete logo aparecem, com alguma fluidez, sucessores capazes de lhe repetir façanhas ao mais alto nível.

Esta renovação geracional não sucede por obra do acaso.

Tem causas.

E naturalmente produz efeitos.

Pode-se dizer que aquela nação escandinava até seria, em tese, uma paragem improvável para se afirmar como viveiro excecional de grandes pilotos.

Estamos a falar de um país, como nós, apenas com cerca de dez milhões de habitantes, com um clima agreste, com poucas horas diárias de luz solar, sem a diversidade de troços, quer em asfalto quer em terra, que existe em Portugal.

No entanto a Finlândia demonstra precisamente o contrário, dali brotando muitos pilotos que se afirmam reconhecidamente fora de portas como sobredotados na arte de dominar as manhas de um carro de Ralis em plena classificativa.

Os «flying finns» não são, portanto, obra do acaso nem um somatório de coincidências felizes.



No seu país de origem encontram condições para, desde tenra idade, exponenciar o seu gosto pela condução.

Concluímos, por alguma investigação que fizemos, que na Finlândia, tal como na Noruega e Suécia aliás, o automobilismo interno tem como pedra de toque a prospeção de novos talentos, alimentada na oferta variada de oportunidades que torna a modalidade atrativa por via dos baixos custos.

Naquelas paragens, sem grande dose de exagero pode-se afirmar que tudo o que tenha motor e rodas é passível de gerar uma qualquer competição.

A ideia base não é colocar em ação carros extraordinariamente preformantes mas necessariamente caros e inacessíveis à maioria dos jovens que pretendem iniciar-se no automobilismo.

Pelo contrário, o grosso do automobilismo em geral e os Ralis em particular encontram-se ancorados em regulamentos simples, e viaturas aproximadas aos carros comuns, do dia-a-dia.

Esta filosofia, assente em «democratizar» os Ralis tornando-os acessíveis a quase todos, acaba por trazer novas pessoas para a modalidade.

Quando assim é a base da pirâmide alarga-se, o leque de oferta de novos talentos é incomensuravelmente mais abrangente, facilitando que apareçam com alguma naturalidade os sucedâneos de Alen, Kankkunen, Toivonen, Vatanen, Makkinen, Gronholm, etc…

Tirar a carga elitista que no sul da Europa é associada aos Ralis tem pago dividendos: a modalidade tem na Finlândia popularidade ímpar, alimentada por diversas competições nas quais se destaca a «F-Cup».

Esta campeonato tem como filosofia trazer para as estradas carros que por algum motivo estão no conforto da garagem, mas vai mais longe nas suas ambições procurando colocar na luta contra o cronómetro viaturas que, não sendo construídas geneticamente a pensar na competição, com alterações de pequena monta passam a encontrar-se aptas para fazer Ralis.

É neste contexto que a «F-Cup» resgata para os Ralis uma plêiade de automóveis que hoje seria improvável vermos a engrossar listas de inscritos em provas por essa Europa fora.



A «F-Cup» não olha para os carros de Ralis com o preconceito da idade inscrita nos respetivos «Bilhetes de Identidade»: a ficha de homologação é um meio e não um fim, recusando-se a ideia de funcionar como uma espécie de certidão de óbito competitiva de um automóvel.

É assim que ali aparecem carros para todos os credos, gostos e feitios.

Em 2011, o pelotão comporta Volvos 240, Mercedes 190, VW Golf, Toyotas Starlet e Corola, BMW M3, Honda Civic Type R, Astras e Kadett GSI, entre vários outros modelos ditos «improváveis» na lógica estanque do automobilismo «made by FIA».

Muito do interesse da «F-Cup» - à escala uma competição que tem pontos em comum com o nosso «Open» -, reside nos carros de tração traseira que são a nosso ver, não nos cansamos de o referir, os Ralis na sua aceção mais purista.

Para se escrever páginas de ouro nos Ralis à escala planetária, é muito importante dominar-se os mais básicos fundamentos da condução desportiva.

O melhor «abecedário» nessa área são automóveis de tração posterior, difíceis de controlar, revoltos e nervosos, base primordial para se aprender os mecanismos da pilotagem em Ralis, facilitando o processo de transição para carros com motricidade frontal ou os comuns veículos de tração integral.

O calendário da «F-Cup» é constituído por seis provas por ano, visando a contenção de despesas.

Cumpridas quatro etapas da temporada de 2011 - retratadas nas imagens que em baixo colocamos -, percebe-se bem a ideia que preside à «F-Cup» e a popularidade que a competição grangeia.

Com boas ideias, pragmatismo e sentido das realidades, como se constata consegue-se produzir Ralis pouco dispendiosos e sem concessões à emoção e espetáculo.

Uns - eles - têm: outros - nós - não!











AS FOTOS QUE ENQUADRAM O PRESENTE TRABALHO, FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.motorstv.com/car/rally/finnish-f-cup-rally
- http://www.f-cup.fi/cms/pages/posts/nuorala_jatkoi_voittosarjaa_betoni-lehto_rallissa745.php
- http://www.lansi-savo.fi/urheilu/moottoriurheilu.html

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