P.E.C. Nº 69: Linhar de Pala...



Dos múltiplos problemas que Portugal enfrenta, um dos principais é seguramente a desertificação do interior, sobretudo nas zonas de matriz mais rural.

A história do Rali de Portugal demonstra que o evento sempre foi mais que uma competição automobilística, constituindo-se, ontem como hoje, como um fator cultural e veículo de promoção de alguns dos locais mais recônditos do nosso país.

Lugarejos e aldeias perdidas nos confins das Serras do Açor, Cabreira ou Agra, durante anos tiveram o seu momento festivo aquando da passagem da prova pelas suas paragens, nos saudosos dias e noites em que o urbano e rural se aculturavam em perfeita comunhão, em que adeptos e populações interagiam de forma formidável.

Esse espírito fraternal ter-se-á diluído nas chuvas de março há dez anos atrás, mas ainda assim o apelo à ruralidade que o Rali de Portugal transporta consigo continua a ser deveras marcante, agora em terras de Baixo Alentejo e Algarve.

Graças à prova, nós, como certamente milhares de outros aficionados, fomos ao longo dos anos conhecendo um pouco melhor alguns verdadeiros tesouros paisagísticos deste país, escondidos no meio de serras, montes e vales, naqueles locais onde o sol se esconde cedo, a sombra e o vento espalham-se ásperos, o último gadget chama-se ainda enxada, o frio se institui por decreto e o crepitar da lareira é o único ruído capaz de abafar o silêncio dos dias.

Um desses lugares chama-se Linhar de Pala.

O nome talvez pouco diga ao caro leitor.

Trata-se de um povoado longe de tudo, perto apenas do mais bucólico silêncio.

Se a metáfora do longínquo existe, ela assemelhar-se-á em quase tudo a Linhar de Pala.

A povoação não terá mais que dez casas: habitantes provavelmente ainda menos.


Nos anos noventa, o empenhativo troço de Mortágua atravessava aquele lugar de ruas inclinadas cravado em plena Serra do Boi, como a foto de Carlos Sainz e Luís Moya no icónico Subaru azul que acima publicamos assim demonstra.

A dupla espanhola, aliás, venceria a prova portuguesa (seria o 16º triunfo de el matador no campeonato do mundo de Ralis) nesse mesmo ano de 1995, após um duelo férreo com Juha Kankkunen e Nicky Grist apenas concluído depois da tomada de tempos da última classificativa.

Dezasseis anos volvidos, um apelo dos domínios do inconsciente gerou-nos uma vontade indómita de aprofundar conhecimentos acerca da especial de Mortágua.

Estudamos percursos, vimos mapas: procuramos documentar-nos colhendo alguma informação.

Linhar de Pala aparecia-nos como incontornável na nossa deslocação.

Após o longo percurso para ali chegar, assente na normal nomenclatura de estradas montanhosas, estreitas e sinuosas como é da praxe, chegamos ao nosso destino.

Descontando as pinceladas de modernidade que a repavimentação em asfalto vai emprestando a alguns antigos aceiros e corta-fogos do nosso país, reforçou-se a nossa convicção que, afinal, o tempo parece não ter passado por aquelas paragens.



A casa verde continua verde: a que está à sua frente continua com o reboco em tosco e sem levar uma demão de pintura.

A nossa ideia passava por colher alguma informação.

Perceber junto daqueles gentes em que medida o Rali de Portugal lhes estava guardado nas memórias.

A meio da tarde, não se via vivalma.

Após algum tempo em que deambulamos por Linhar, da casa verde a páginas tantas saiu um homem.

Vestido de preto, envergando o luto em que faz caminho a solidão.

Idade indefinida.

Talvez octogenário.

Talvez nonagenário.

Talvez… nem ele saiba verdadeiramente ao certo.

Aproximamo-nos da forma mais calorosa e fraternal que conseguimos.

Tentamos ensaiar um diálogo que nos conduzisse a colher informação, opiniões e ideias sobre o Rali de Portugal.

A resposta fez-se de sons monocórdicos e de alguma desconfiança, turvados por um fio de voz ténue, quase impercetível.

Não insistimos.

Demos a pensar connosco próprios que diversos anos após o Rali de Portugal, este homem talvez sinta a ausência do bulício que a prova trazia consigo, do calor e energia vital que legava a estas gentes.

Não o calor dos motores dos carros em alta ebulição: antes o calor humano, de aficionados em clima de peregrinação festiva, ao fim ao cabo a fórmula mais eficaz para combater a solidão de quem está lá longe, nesta e nas outras Linhar de Pala que são cada vez mais comuns neste país.


RALI DE PORTUGAL:

EDIÇÃO: 29ª.
ANO: 1995.
PROVA ESPECIAL DE CLASSIFICAÇÃO: Nº 2.
DATA: 8 de Março de 1995.
DESIGNAÇÃO: Mortágua.
EXTENSÃO: 18,22 quilómetros.

VENCEDORES EX-AEQUO:

PILOTO: Juha Kankkunen.
NAVEGADOR: Nicky Grist.
CARRO: Toyota Celica Gt-Four
TEMPO REALIZADO: 11m:49sgs.
MÉDIA HORÁRIA: 92,51 kms/h.

PILOTO: François Delecour.
NAVEGADOR: Catherine François.
CARRO: Ford Escort RS Cosworth
TEMPO REALIZADO: 11m:49sgs.
MÉDIA HORÁRIA: 92,51 kms/h.



AS FOTOS PUBLICADAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.origens.pt/explorar/doc.php?id=3391 [relativa à deslumbrante foto que encima o presente trabalho, da autoria de António M. Jorge]
- http://zona-espectaculo.blogspot.com/2011/03/pec-n-49-sainz-tirar-nem-por.html [P.E.C. Nº 49 deste blogue].

Comentários

  1. Mais que relatos do belo rally de Portugal, estes tópicos são verdadeiras crónicas que misturam o mundo de desporto automóvel, em particular o rally de Portugal, com a vivências dos dias currentes. Numa palavra só - Fabuloso!

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  2. Esse homen com quen falaram no linhar-de-pala chama-se faustino André e é o meu vis-avô ele tam 98 anos.
    Talvez nao tanha respondido ao que voces lhe perguntaram porque ele tam probelemas de audiçao naõ ouve la muito bam.
    Ele ja naõ habita na casa verde à 20 anos

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  3. Ao Sr. Faustino André, os nossos mais respeitosos cumprimentos. Abraço

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