P.E.C. Nº 70: ...cognome, «o fleumático»!...



Há umas semanas, numa aprazível tarde de sábado [daquelas em que o mais despreocupado ócio se transforma em bálsamo de vida], demos connosco a conduzir por uns eucaliptais da região centro deste país.

A estrada, muito encadeada e estreita, apresentava-se com um bom tapete de asfalto convidando a adotar um ritmo vivo [bem vivo diga-se, em bom rigor até talvez vivo demais…].

Perante um cenário ideal para os amantes, como nós, da condução desportiva, lá fomos devorando quilómetros para gaudio do turbo do nosso automóvel, cujo silvo não parava de cantarolar melodiosamente.

Como o caro leitor já terá adivinhado, tal estrada, só por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias, era… uma antiga classificativa do Rali de Portugal!

Apostados em ir fazendo uma imitação tosca de Sebástien Loeb [evitando ao máximo fazer uma imitação demasiado realista de Jari-Matti Latvala] de repente, só por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias deparámo-nos, após uma pronunciada descida, numa direita apertada que nos pareceu familiar.

Interrompemos a nossa marcha de imediato, estacionando o carro da melhor forma possível de molde a não perturbar quem passasse.

Saímos, não sem que antes, à cautela, tivéssemos retirado a ‘arma’ que sempre nos acompanha nestas ocasiões.

A bordejar o asfalto, do lado esquerdo à saída daquela direita apertada, víamos a pique um combro mesclado de terra e pedra com uns 3 metros de altura, com um ameaçador silvedo no seu sopé, junto à estrada.

Por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias, interiorizámos ali, desde logo, o propósito de subir o desnível que tínhamos pela frente.

O que se seguiu não foi bonito de se ver: mãos e antebraços arranhavam-se a cada passo da nossa marcha, calças exibiam rasgões de admirável dimensão, sapatos e meias entupiam-se de pó e a terra invadia-nos desagradavelmente o território entre dedos dos pés.

Para compor o ramalhete, neste cenário pré-apocalíptico, eramos também bafejados pela visita, sempre cortês, desses parceiros incondicionais do aficionado de Ralis, conhecidos na terminologia rural como… carrapatos!

Nada que nos demovesse: afinal de contas, nós até ostentamos galhardamente, na perna direita, uma vistosa cicatriz com sete centímetros, fruto de um salto mal medido que nos levou direitinhos a uma vedação de arame farpado durante o Rali de Portugal de 2009.

Cumprido o descrito processo de ‘ambientação’, tínhamos agora a 'escalada' do referido combro pela frente.

O exercício de equilibrismo prometia!

Onde antes tínhamos imitado ‘toscamente’ Loeb, agora cumpria-nos soltar o João Garcia que havia em nós.

Uma mão ocupada a segurar a ‘arma’ [em alguns meandros também conhecida por máquina fotográfica].

Pontos para fixar mãos e pés nem vê-los.

Iniciamos a ‘escalada’ e, já a meio, um bom par de vezes resvalámos voltando à estaca zero.

A certa altura de tão conturbado processo, encontrando-nos em apurado esforço para não cair de novo nesta nossa aventura na ‘alta montanha’ [3 metros sempre são 3 metros], eis que na estrada aparece um potentíssimo bólide da marca Aixam, pilotado por um agricultor das redondezas.

Com uma expressão algures entre a mais pura incredulidade e a ironia de um sorriso trocista, lá perguntou sonoramente: «vai uma ajudinha?»

Embaraçados pela posição pouco ortodoxa em que nos encontrávamos, lá respondemos da forma mais descontraída que conseguimos com um nada convincente: «não, obrigadinho!».

A alta velocidade, o Aixam retomou a sua marcha pelos eucaliptais fora.

Nós, tentávamos encontrar motivação para atingir o cume do nosso ‘Evereste’.

Com persistência conseguimos.

Objetivo cumprido.

Nesse preciso momento, por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias, estávamos precisamente aqui [foto datada de 11-06-2011]:


[vd: http://www.flashearth.com/?lat=40.447189&lon=-8.277775&z=17.8&r=0&src=msa, por João Costa].

Por uns instantes, refeitos das aventuras e desventuras anteriores e após observarmos pachorrentamente a paisagem ao nosso redor, representamos mentalmente a figura de Richard Burns e veio-nos à memória algumas imagens da carreira do saudoso piloto inglês.

Uma delas, por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias, esta [Richard Burns, classificativa de Mortazel, foto datada de 23 ou 24 de Março de 1998]:



Falecido precocemente em 2005, com 34 anos de idade, após doença do foro cancerígeno [talvez Burns, se nos ler, prefira que metaforicamente lhe chamemos antes uma 'avaria mecânica irresolúvel'], o antigo piloto da Mitsubishi, Subaru e Peugeot foi um baluarte do elevado sentido de desportivismo tão típico dos britânicos.

Pela via do seu exemplo, haveria de tornar-se referência.

Tranquilo, sem exaltações de maior, o inglês pilotava a alta velocidade com a bonomia de quem se encontra à hora do lanche a comer scones acompanhando o chá das cinco.

O sustentáculo do seu sucesso sempre assentou nos valores sólidos do trabalho e da humildade com que encarava a sua profissão, reescrevendo nas classificativas de todo o mundo a sua própria «Rule Britannia».

Burns, «o fleumático», acabaria com o tempo por constituir-se no desporto e na vida como um embaixador formidável dos traços de personalidade de toda uma nação.

A sua: a velha Inglaterra.



RICHARD BURNS NO RALI DE PORTUGAL:

PARTICIPAÇÕES: 6 (1995; 1997 a 2001).
VITÓRIAS: 1 (2000).
PÓDIOS: 1 (2000).
VÍTORIAS EM CLASSIFICATIVAS: 20.

a) 1 9 9 5 (Subaru Impreza 555):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 7º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 0.

b) 1 9 9 7 (Mitsubishi Carisma GT Evo 4):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: desistência com problemas de transmissão.
VITÓRIAS EM TROÇOS: 0.

c) 1 9 9 8 (Mitsubishi Carisma GT Evo 4):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 4º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 2.

Mortágua '2':
QUILOMETRAGEM: 17.15 kms.
TEMPO REALIZADO: 11m:48,7segs.
MÉDIA HORÁRIA: 87.12 km/h.

Tábua:
QUILOMETRAGEM: 13.46 kms.
TEMPO REALIZADO: 8m:32,8segs.
MÉDIA HORÁRIA: 94.49 km/h.

d) 1 9 9 9 (Subaru Impreza WRC):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 4º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 4.

Fafe/Luílhas '1':
QUILOMETRAGEM: 10.55 kms.
TEMPO REALIZADO: 7m:51,7segs.
MÉDIA HORÁRIA: 80.52 km/h.
(Nota: vencedor ex-aequo com Colin McRae/Nicky Grist).

Fafe/Luílhas '2':
QUILOMETRAGEM: 10.55 kms.
TEMPO REALIZADO: 7m:45,9segs.
MÉDIA HORÁRIA: 81.52 km/h.

Ladário/Oliveira de Frades:
QUILOMETRAGEM: 11.26 kms.
TEMPO REALIZADO: 7m:43,4segs.
MÉDIA HORÁRIA: 87.48 km/h.

Salgueiro/Góis '1':
QUILOMETRAGEM: 19.70 kms.
TEMPO REALIZADO: 11m:30,6segs.
MÉDIA HORÁRIA: 102.69 km/h.

e) 2 0 0 0 (Subaru Impreza WRC):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 12.

Luílhas '1':
QUILOMETRAGEM: 11.39 kms.
TEMPO REALIZADO: 8m:29,5segs.
MÉDIA HORÁRIA: 80.48 km/h.

Cabreira '1':
QUILOMETRAGEM: 26.68 kms.
TEMPO REALIZADO: 17m:41,3segs.
MÉDIA HORÁRIA: 90.50 km/h.

Luílhas '2':
QUILOMETRAGEM: 11.39 kms.
TEMPO REALIZADO: 8m:24,2segs.
MÉDIA HORÁRIA: 81.32 km/h.

Cabreira '2':
QUILOMETRAGEM: 26.68 kms.
TEMPO REALIZADO: 17m:42,5segs.
MÉDIA HORÁRIA: 90.40 km/h.

Piódão '1':
QUILOMETRAGEM: 24.78 kms.
TEMPO REALIZADO: 16m:46,0segs.
MÉDIA HORÁRIA: 88.68 km/h.

Arganil '1':
QUILOMETRAGEM: 14.27 kms.
TEMPO REALIZADO: 9m:39,6segs.
MÉDIA HORÁRIA: 88.63 km/h.

Salgueiro/Góis '1':
QUILOMETRAGEM: 19.62 kms.
TEMPO REALIZADO: 11m:24,0segs.
MÉDIA HORÁRIA: 103.26 km/h.

Arganil '2':
QUILOMETRAGEM: 14.27 kms.
TEMPO REALIZADO: 9m:49,9segs.
MÉDIA HORÁRIA: 87.09 km/h.

Salgueiro/Góis '2':
QUILOMETRAGEM: 19.62 kms.
TEMPO REALIZADO: 11m:24,0segs.
MÉDIA HORÁRIA: 103.26 km/h.

Ponte de Lima Este:
QUILOMETRAGEM: 23.49 kms.
TEMPO REALIZADO: 15m:58,9segs.
MÉDIA HORÁRIA: 88.19 km/h.

Ponte de Lima Oeste:
QUILOMETRAGEM: 25.66 kms.
TEMPO REALIZADO: 19m:04,2segs.
MÉDIA HORÁRIA: 80.73 km/h.

Ponte de Lima Sul:
QUILOMETRAGEM: 11.15 kms.
TEMPO REALIZADO: 8m:12,9segs.
MÉDIA HORÁRIA: 81.44 km/h.

f) 2 0 0 1 (Subaru Impreza WRC):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 4º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 2.

Góis '1':
QUILOMETRAGEM: 19.62 kms.
TEMPO REALIZADO: 12m:26,1segs.
MÉDIA HORÁRIA: 94.67 km/h.

Oliveira de Hospital '2':
QUILOMETRAGEM: 24.78 kms.
TEMPO REALIZADO: 18m:42,0segs.
MÉDIA HORÁRIA: 79.51 km/h.

(Nota: No trapézio traiçoeiro que sempre foram as classificativas do Rali de Portugal, Richard Burns nas seis ocasiões em que se deslocou ao nosso país optou em todas elas por não fazer concessões à insegurança, apostando invariavelmente em trabalhar com... Reid!).

PALMARÉS:

Campeão Britânico de Ralis: 1993.
Campeão do Mundo de Ralis: 2001.
Vitórias em provas do mundial: 10.
Pódios em provas do mundial: 34.
Vitórias em classificativas de provas do mundial: 277.
Total de pontos em provas do mundial: 351.





"Burns era demasiado humilde para perceber que era bom. Acreditava que o seu sucesso dependia sempre de fatores externos ao seu desempenho. Quando venceu o rali da Nova Zelândia, em 2001, atribuiu a vitória ao copiloto, Robert Reid. "És o melhor do mundo", disse-lhe quando cruzaram a linha da meta".


"A simplicidade de Richard Burns transparecia na forma como conduzia. Era uma extensão do corpo e da personalidade. "A maneira como guiava mostrava muito do seu carácter. Era rápido e eficiente. Não tinha trejeitos de vedeta nem era nada exuberante". (Rui Madeira).


Citações extraídas de:
- http://www.ionline.pt/conteudo/51809-richard-burns-o-rapaz-que-nao-tinha-nome-ganhou-ca-ha-dez-anos

AS FOTOS QUE ENQUADRAM O PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://rallymemory.blogspot.com/2010/07/ainda-2000.html
- http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=as.stories/64732
- http://rallyazores.blogspot.com/2010/05/rally-historia-rally-de-portugal-2001.html

Comentários

  1. Acho que apareço na foto do Burns com o Mitsubishi em Mortazel. Nesse ano não houve um capotanço de um subaru oficial (Bruno Thiry, creio eu) uma ou duas curvas antes desse sitio?
    Grande piloto que por sinal deu nome ao melhor simulador de rallyes de sempre.

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  2. É possível que tenha havido esse capotanço do Thiry. Vou investigar melhor...
    Abraço

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