P.E.C. Nº 95: O homem que pilotava com o coração



Os dois pequenos excertos de imagens publicados na presente 'P.E.C.' reportam-se ao ‘Rali Iduna Dão/Lafões’, penúltima prova do campeonato nacional de Ralis de 2004.

Após alguns anos de ausência, José Carlos Macedo, sempre acompanhado por Miguel Borges, ainda que esporadicamente voltava a emprestar a sua lendária determinação às provas de estrada nacionais.

Acedendo ao desafio que a SIVA à altura lhe formulou para ajudar a desenvolver o Skoda Fábia RS TDI para Ralis [um projeto interessantíssimo levado à prática pela Opção 04, adequado à realidade dos Ralis portugueses mas que, como muitos outros, capitularia perante o anacronismo regulamentar do automobilismo deste país], o bracarense regressava ao mundo que o fez ícone.

A motivação e profissionalismo estavam [sempre estiveram] lá, completamente intactos, como aliás o próprio piloto frisava nas declarações proferidas antes da prova:

"Guiei o carro em cerca de 120/130 quilómetros de testes e gostei imenso desta minha experiência a diesel. É evidente que não estamos perante um S1600, mas creio que se enquadra perfeitamente no patamar a seguir em termos competitivos. O comportamento é ótimo, a suspensão e os travões são perfeitos, e creio que apenas haverá que melhorar a direção, mas também não é por aqui que o Fábia deixa de ser uma proposta muito aliciante. É já com alguma impaciência que aguardo este regresso com o Miguel Borges e estou convencido de que rapidamente me adaptarei ao estilo de condução que o carro necessita. Trata-se de um regresso esporádico, mas que certamente me irá dar muito prazer."
[in: http://www.supermotores.net/sm/noticia.asp?id=3622]

Macedo tinha uma relação distante e até algo ‘indiferente’ com o travão, ao mesmo tempo que mantinha um sanguíneo pacto de irmandade com o acelerador.

A rija têmpera minhota impunha-lhe a entrega total, sem rendições de qualquer espécie, redefinindo a cada metro de troço a noção de limite.

Antes quebrar, claro, que torcer.

Deixou gravado o seu nome a letras de ouro nos Ralis em Portugal.

Pela sua tenacidade.

Pela recusa em capitular ou ceder, mesmo nas inúmeras ocasiões em que o seu carro era visivelmente menos competitivo que os dos seus adversários diretos.

Pela forma como parecia driblar cada curva com o volante colado nas mãos.

Voltaremos futuramente neste blogue a ‘Nini’ Macedo.

Fica, para já, o simbolismo das imagens que seguem: os troços finais da sua carreira nos Ralis, os últimos cartuchos do seu admirável percurso desportivo.

O bracarense nunca mais regressaria à competição ao mais alto nível.

José Carlos Macedo foi contemporâneo de vários dos melhores pilotos nacionais da história desta modalidade.

Depois da sua passagem pelo automobilismo continuou a haver pilotos extraordinários.

Não embarcamos no jogo volátil de saber se o piloto de Braga era melhor ou pior piloto que os mais importantes nomes do passado e presente dos Ralis em Portugal.

Macedo era diferente: genuíno.

Macedo era Macedo, sem haver alguém que o conseguisse imitar.

Avesso a rigores científicos, será recordado como o piloto que, numa modalidade que exacerba emoções, punha sentimento na condução.

Macedo só assim sabia conduzir.

Só assim os Ralis lhe tinham lógica e razão de ser.

Com a sua partida encerrou-se simbolicamente um capítulo na história dos Ralis lusos.

O empenho profundo, a negação em capitular, a provocação permanente ao limite do carro, da estrada e de si próprio, foi o legado de José Carlos Macedo que, volvidos sete anos, só a espaços foi entretanto recuperado por pilotos como Pedro Leal ou Ricardo Teodósio.

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A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.ralisasul.com/forum/viewtopic.php?f=13&t=1509&start=0

NOTA:
- A hiperligação que reproduzimos acima, do extraordinário fórum 'Ralis a Sul', constitui um documento fotográfico essencial para se compreender na plenitude o percurso desportivo de José Carlos Macedo, quer no âmbito dos Ralis, quer no contexto das provas de velocidade.

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