P.E.C. Nº 96: Como o excesso de informação pode 'matar' os Ralis...



O automobilismo é pródigo em exemplos assim: uma só equipa, dois pilotos carregados de ambição, ambos formatados para apenas aceitar a vitória.

Num contexto destes, mais tarde ou mais cedo a sã concórdia esvai-se e a harmonia deteriora-se inexoravelmente.

Na Citroen, adivinhava-se que o verniz estalasse mais tarde ou mais cedo.

Dentro da equipa gaulesa, os condimentos habituais neste tipo de situação [um campeão consagrado e fortemente motivado em manter o seu estatuto, versus um jovem cheio de talento e sequioso de glória, disposto a tudo para tomar de assalto o trono máximo da competição] estavam em processo de efervescência na sequência da troca de galhardetes entre Loeb e Ogier nas últimas semanas, especialmente após as supostas ordens de equipa havidas durante o Rali da Alemanha.

Na Austrália, o clima de conflito latente explodiu: em prejuízo de si próprios e da sua equipa, os dois pilotos franceses protagonizaram saídas da estrada mal o Rali tinha saído do Parque de Assistência.

Um epílogo que não causa surpresa; mas que deve constituir motivos de preocupação para Olivier Quesnel.

Em rigor, na atual temporada já não é a Ford ou os seus pilotos que poderão ganhar os respetivos campeonatos, antes a Citroen e a dupla de franceses ao seu serviço que os poderão perder.

Será interessante perceber, nas próximas semanas, que sequelas poderão advir da coexistência entre Loeb e Ogier no seio da equipa do double chevron.

O Rali da Austrália forneceu-nos, porém, outro dado curioso.

Nas declarações que proferiu após o seu capotanço na quarta especial da prova [as imagens mostram uma classificativa verdadeiramente sublime, repleta de encadeados de curvas a obrigar a permanente condução], Sébastien Loeb referiu ter-se «desconcentrado momentaneamente» por ter «olhado para um "tempo intermédio" não travando o que devia», levando a que «entrasse depressa demais naquela direita, o carro batesse no talude e depois capotássemos…».

Vivemos na era da informação e o automobilismo não escapa a essa lógica.

Nos últimos anos os carros do WRC têm transportado no seu interior um dispositivo chamado Dashboard.

Este mecanismo permite aos pilotos saber, em tempo real, através de sucessivas mensagens que vão passando no seu tablier, que tempos intermédios os principais adversários vão fazendo na classificativa e, sobretudo, quais os cronos finais que os predecessores no troço realizaram.

Quando seria suposto a dupla de pilotos perspetivar um troço no seu todo, adequando o andamento à totalidade da extensão do mesmo, o Dashboard 'dita' variações de andamento consoante a maior ou menor rapidez dos adversários.

Está-se mais rápido que a concorrência? 

Levanta-se o pé na parte final da classificativa! 


Os tempos parciais são piores que os dos rivais diretos? 

Arrisca-se então mais um bocadinho...


Mas o Dashboard faz mais.

Informa, no imediato, a classificação geral do Rali atualizada em função dos tempos realizados pelos adversários que antecedem um piloto na classificativa.

É isso que permite, depois, os sucessivos espetáculos indecorosos a que vamos assistindo nas provas em terra do campeonato do mundo de Ralis, dos quais Ford e Citroen não saem incólumes.

Para não abrir os troços no dia seguinte, cada piloto entra em modo de pausa na fase final da última classificativa do dia anterior, em função daquilo que já sabe serem os tempos totais dos seus rivais no final da etapa.

De acordo com a informação que o Dashboard lhe fornece, interrompe o seu andamento sabendo perfeitamente quantos segundos tem de ficar parado de molde a que, quando recomeça e passa na tomada de tempos, possa não só não ser o primeiro na estrada no dia seguinte, como ainda garantir posicionar-se a poucos segundos de distância para quem o antecede na classificação do Rali.

Somos assumidamente opositores de guiar em Ralis numa lógica de ioiô, subvertendo a filosofia da modalidade.

Conduzir carros potentes em competição deve ser por definição um ato emocional, físico, psicologicamente exigente.

Os melhores pilotos do mundo estão a ser alvo de um processo de robotização, nefasto para um desporto que pretende premiar a coragem, destreza, reflexos e qualidade de condução.

Quando a elite das elites se despista por estar a olhar para o Dashboard, estamos perante um reflexo dos tempos atuais em que assimilar informação se vai tornando mais relevante do que ler a estrada à frente do capô.

Num momento em que tanto se discute a extensão dos Ralis e parece haver um certo deslumbramento da FIA em aumentar a quilometragem dos mesmos [erradamente, a nosso ver], continua a parecer-nos que o trabalho a realizar nos Ralis não deve incidir na esquematização das provas, mas antes no controlo da parafernália tecnológica dos carros.

A revitalização da modalidade é aí que tem de encontrar o cerne das questões que, no presente, se lhe vão colocando.



A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TÓPICO FOI OBTIADA EM:
- http://www.redbull.ro/cs/Satellite/ro_RO/Article/Ogier-la-prima-victorie-impotriva-lui-Loeb-021242855433278

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