P.E.C. Nº 103: Competir fora do habitat natural...



Nos anos oitenta, o desporto automóvel viveu um dos períodos mais cintilantes da sua história.

A acompanhar o incremento das transmissões televisivas que contribuíram em larga escala para a popularidade planetária do automobilismo, viviam-se tempos fervilhantes em matéria de inovação, como o advento da tecnologia turbo ou a utilização crescente das quatro rodas motrizes são exemplos paradigmáticos.

A par deste clima, reuniam-se em quase todos os tipos de competição, da F1 aos turismos, dos Ralis às provas de sport-protótipos, um conjunto de pilotos formidável, muitos deles portadores de uma aura e magnetismo decisivos para o enorme interesse que a causa das corridas de carros foi gerando nos quatro cantos do planeta.

A nós, Zona-Espectáculo, que entrámos na difícil fase da adolescência convivendo com monolugares de F1 debitando mais de um milhar de cavalos, ou que nos deixávamos absorver pelos prodigiosos Grupos B nos Ralis, o automobilismo ia moldando o nossa maneira de ser, exercendo em nós um fascínio que confessamente perdura até hoje.

Se nos Ralis não tínhamos ídolos de maior e vibrávamos indiscriminadamente com as façanhas de Markku Alen e demais comparsas, já na F1, por motivos que não sabemos identificar, o nosso ídolo era o improvável Alain Prost.



Improvável, porque ao francês sobrava em racionalidade o que lhe faltava em emoção.

A sua condução era maquinalmente polida.

A precisão de relojoeiro levava-o a fazer voltas sempre iguais, irritantemente iguais, até.

Um ligeiro escorregar de carro era tão raro como encontrar água no deserto.

Um despiste ou acidente tão fortuitos como um dia sem vento no autódromo do Estoril.

Prost parecia explorar com prazer a contradição entre gerir cerebralmente as suas corridas e fazê-las conduzindo com a emotividade de um autómato.



Era avesso a arrebatamentos.

Fazia quase questão em não empolgar.

Reunia, portanto, todas as características do anti-herói.

E no entanto o francês era, sempre foi, tão ou mais rápido que os seus adversários.

Não se alimentava na ilusão de parecer veloz.



Era veloz.

Velocíssimo, como as suas estatísticas pessoais demonstram.

Gostávamos, em suma, do francês e da forma como fazia do córtex um aspeto nuclear das suas corridas.

Em 1982, Alain deixou-se contagiar pela magia dos Ralis.

Naqueles tempos os pilotos não se fechavam na redoma da sua modalidade, nem recusavam o desafio de conduzir pisando territórios desconhecidos.

Iam a todas pelo prazer de experimentar novos carros e medir-se perante adversários diferentes.



Longe da lógica ‘porta USB’ atual, que tudo permite medir e padronizar, não viravam a cara a auscultar as sensações de pilotar outros automóveis.

Desconhecemos, claro, se foram estas as razões pelas quais o gaulês se aventurou a fazer Ralis.

No entanto, à partida du Rallye du Var naquele ano de 1982, a história mostra que Prost constava da lista de inscritos ao volante de um Renault 5 turbo, navegado por Jean-Marc Andrié.

Não rezam as crónicas que a participação tenha sido espetacular ou especialmente brilhante.

Porém, se a ideia de ver Alain Prost a fazer Ralis já encerra em si própria um paradoxo [que advém justamente da forma cientifica e pouco dada ao improviso como guiava], o facto de ver o homem que nunca se despistava acidentado numa ravina é uma ironia que merece ser recordada.



AS FOTOS EXIBIDAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/photo-sport-auto/sujet378913.htm
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/formule-1/sujet378197-280.htm
- http://www.ralisasul.com/forum/viewtopic.php?f=13&t=1158
http://www.5turbo.org/t9007-alain-prost

Comentários

  1. Podia-me enviar os ficheiros google earth dos troços do rally de Portugal 1998? Se for possível envie-me para vitormcribeiro@gmail.com

    Cumprimentos

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