sexta-feira, 18 de novembro de 2011

P.E.C. Nº 112: Itinerância...


Durante muitos anos o Rali de Portugal ofereceu aos seus indefetíveis um admirável paradigma de itinerância.

Nesses tempos, em que a prova calcorreava o país sem as amarras estanques dos parques de assistência e propunha um conceito de centro nevrálgico disseminado por vários polos, era frequente os adeptos serem brindados, ao virar de uma curva de qualquer estrada, com as equipas a trabalhar afincadamente na saúde dos respetivos carros.

A foto que acima publicamos foi obtida no dia 3 de março de 1994.

Ali se vê adeptos a seguir atentamente, de perto, a sapiência profissional dos mecânicos e engenheiros da saudosa equipa oficial da Subaru.

À época, o Rali ainda não vestia a farda algo austera do sistema de rounds: a sua indumentária era o equipamento de trekking com que caminhava Portugal fora.

A prova recusava esconder-se atrás dos biombos de um qualquer parque de assistência.

Afirmava-se em campo aberto, como veio ao mundo, aos olhos de todos.

Aos seguidores do Rali era permitido perceber, em suma, como se trabalhava (n)um carro de Ralis.

Em março de 1994, uns quilómetros a norte do Douro, a equipa Subaru World Rally Team dedicou alguns minutos da sua atenção às mazelas dos carros de Carlos Sainz e Colin McRae.

Na planificação prévia ao evento, a opção para esse momento de terapia mecânica que a imagem ilustra, recaiu num pequeno parque contíguo a um prédio em construção, à beira da estrada nacional nº 101 [Amarante > Mesão Frio].

Os seus pilotos vinham da classificativa do Seixoso e, após este hiato, iriam entrar, logo de seguida, na abordagem aos troços de Carvalho de Rei e Aboboreira.

Hoje, o prédio em construção há dezassete anos atrás é um restaurante chamado ‘Varanda da Serra’.


É provável que muitos dos comensais que frequentam este estabelecimento, desconheçam que o local onde hoje estacionam os seus carros já foi palco de assistência mecânica para bólides de Ralis.

Em 1994 servia-se ali ‘alimento’ às emoções dos aficionados deste desporto.

Movidos como sempre pela necessidade de compreender a essência do antigo Rali de Portugal, estivemos, neste novembro de 2011, no sítio em apreço.

Moveu-nos o fito, talvez ilógico, talvez irracional, de tirar uma fotografia em tudo idêntica à que foi colhida há 17 anos.

Em frente ao restaurante, do lado oposto da estrada nacional, há um respeitável declive em terra, a pique, com mais de uma dezena de metros.

Observámos de perto o obstáculo que se nos deparava pela frente, sem locais visíveis para colocar os pés ou agarrar as mãos, mas ainda assim motivados pelo objetivo que nos propúnhamos concretizar.

O que se seguiu foi um espetáculo de contornos trágico-cómicos.

A cada uma das nossas várias investidas para subir aquele desnível, invariavelmente o resultado saldou-se numa escorregadela [felizmente sem 'capotanços'…] desamparada até ao nível da estrada [para gaudio e, desconfiamos, puro gozo dos comensais que se encontravam no restaurante], arrastando connosco um aluimento de quilos e quilos de terra solta para a berma do asfalto.

As nossas fotogénicas 'saídas de estrada' sucediam-se ao ritmo dos títulos ganhos pelo Loeb, provavelmente colocando a clientela do ‘Varanda da Serra’ ao rubro.

A certa altura, interiorizando que a nossa ‘prova’ estava irremediavelmente comprometida, optamos por desistir, regressando a solo firme em regime, diríamos, de 'super rally' onde então, para memória futura, colhemos a foto que se publica no presente trabalho.

O Rali de Portugal ensinava-nos, então, mas uma lição: a de que por vezes é rejuvenescedor rir de nós próprios!

A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.ewrc.cz/ewrc/show.php?id=7479

Nota:
- Sobre a classificativa de Carvalho de Rei, sugerimos a visita à P.E.C. Nº 62 deste blogue.

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