quarta-feira, 29 de junho de 2011

P.E.C. Nº 74: Quanto tempo demora fabricar uma lenda? 35m:15s...




Há dois anos Walter Rohrl esteve em Portugal, se a memória não nos atraiçoa para participar numa ação promocional da Porsche.

Sempre que o alemão se desloca ao nosso país, vem à liça, de forma quase incontornável, o episódio que protagonizou com Christian Geistdorfer em 1980 nos montes e vales de Arganil.

O passar dos anos transmutou a realidade, guindando aqueles momentos à condição de semi-lenda: hoje, eles são conhecidos à escala planetária.

Nuno Branco, num trabalho excecional [«Arganil e o Rallye de Portugal (1967-1986)»] elaborado para a revista AutoSport há cerca de dois anos e meio [vd. texto integral em: http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=as.stories/48581], descreveu de forma superior, como é seu timbre, o que se passou na Serra do Açor nesse dia:

"No álbum de memórias da passagem do Rallye de Portugal por Arganil, o ano de 1980 tem certamente direito a uma página especial. Contando com uma dupla passagem pela versão mais utilizada nos anos anteriores, a edição deste ano tinha 42 Km, começando obviamente perto de Vale de Maceira e terminando em Folques. Na madrugada daquele dia 7 de Março, um senhor chamado Walter Rohrl completava 33 anos e estava disposto a oferecer uma inesquecível prenda a si próprio. Algumas horas antes, no hotel e antes de adormecer, percorreu mentalmente os 42km de Arganil. 
Quando o Fiat 131 se aproximou do início do troço para disputar a primeira passagem, um horrível nevoeiro não permitia ver mais do que 5 metros de distância. Então, o piloto alemão, valendo-se do "reconhecimento virtual" que havia feito no hotel, partiu para o troço disposto a correr todos os riscos para decidir ali o rallye a seu favor. Quando o seu navegador Geistdorfer começou a cantar notas, Rohrl apercebeu-se que era impossível seguir qualquer referência visual. Então, decidiu usar um sistema alternativo. Sempre que o seu navegador cantava "curva a 60 metros", Rohrl contava 1, 2, 3 segundos e virava "às cegas". Quando ouvia "100 metros", contava 1,2,3,4,5 segundos e assim sucessivamente. Este método não só lhe permitiu chegar ao final do troço com um tempo de 35m,15s, como ainda ganhou, pasme-se, 3m48s a Waldegaard e 4m40s ao seu companheiro de equipa e principal adversário Markku Alen. Visivelmente exausto, Rohrl haveria ainda de ganhar mais 1m55s a Alen, na segunda passagem (33m,13s), decidindo o rallye a seu favor."

Compreender a transcendência de fazer aquele trajeto a todo o gás com um campo de visão quase nulo, implica conhecer-se as características dos 42 quilómetros entre Vale de Maceira e Folques.

Naquele ano, 1980, a direção do Rali de Portugal apostava mais uma vez na lendária dureza da ronda de Arganil, cujas classificativas eram um exame de aferição exigentíssimo para máquinas e pilotos que só os melhores conseguiam superar sem contratempos de maior.

O troço com os clássicos 42 quilómetros, imutável desde 1977, era percorrido duas vezes num esquema competitivo capaz de, como viria a suceder, ser decisivo nas contas finais da prova.

Fazer aquele percurso implicava, à época, para a dupla de pilotos realizar cerca de 40 quilómetros seguidos na mais absoluta das solidões.

Vestígios de civilização eram nulos: não havia o 'aconchego' de percecionar um mero poste de eletricidade ou a 'visão reconfortante' de uma casa à beira da estrada.

Nada.

Quando muito, de forma fugaz, os concorrentes deparavam-se com público nas zonas mais emblemáticas da classificativa.

Num tempo em que as comunicações eram incipientes, iniciar a classificativa no cemitério em Vale de Maceira era um pouco como partir para uma expedição rumo a locais agrestes e com o seu 'quê' de inexpugnável.

No beirado dos terraços naturais do Açor, os pilotos tinham de fazer o seu trabalho de equilibrismo alheando-se das múltiplas ravinas que faziam questão de os acompanhar durante boa parte do troço.

O espetro de Arganil fazer valer a rudeza da sua lei, provocando uma desistência, era grande.

Pilotar naquelas paragens sem receio, só estava ao alcance de alguém que acreditasse numa crença superior à segurança terrena [ténue, também...] dos roll-bar.

Por tudo isto, naquele dia a capacidade de superação de Rohrl e Geistdorfer adquiriu um estatuto quase mitológico.

Em declarações à revista AutoFoco [edição nº 502, de 5 a 11 de Setembro de 2009], o próprio campeão do mundo de 1980 e 1982 não resistiu, na primeira pessoa, a dar mais umas achegas ao episódio:

"Primeiro pensei: todos os anos há nevoeiro em Arganil, vamos tentar fazer umas notas especiais. Nos treinos fazia os troços duas ou três vezes mas, naquele ano, decidi fazê-lo cinco vezes. Tinha preparado bem a classificativa... Mas antes do troço, tive um acidente, um dos carros de assistência bateu no meu, o que me deixou furioso! Lembro-me de, muito zangado, gritar ao Christian [Geistdorfer, o navegador]: 'Aperta bem os cintos, agora vou matá-los a todos!'. Foi uma motivação especial, acho que isso fez a diferença..." 
"Aquilo que aconteceu não teve nada a ver com pilotar automóveis, foi outra coisa qualquer... Algo único que nunca aconteceu. Naquele dia, a cada momento, eu tinha a certeza do ponto em que estava, mesmo sem ver nada. As notas falavam em 150 metros e eu podia fechar os olhos e sabia, agora a esquerda com uma pedra, depois a curva com a árvore pequena, etc."
E a revelação quase inacreditável: "Sabe como percebi que conhecia exatamente cada metro daqueles 42 km? Na quinta passagem pelo troço, nos treinos (que cronometrávamos sempre) tinha feito 38 minutos, já de noite. Voltámos para o hotel, deitei-me, fechei os olhos e pensei: 'vamos fazê-lo uma vez mais'. Percorri mentalmente o troço e falhei por quatro segundos o tempo que tinha feito uma hora antes, de carro!"
Depois de todos espantar, as explicações começaram a chover:
"A primeira foi, claro, que tinha atalhado. Felizmente que fizemos o troço de novo, duas horas mais tarde e as nuvens já tinham subido um pouco, melhorando a visibilidade. Como liderava por 8 ou 9 minutos, estava a andar com cuidado e o Markku quase me apanhou, chegou a estar a uns 200 metros. Até que o nevoeiro reapareceu e acabei o troço 2.50m mais rápido que ele. Então, ele veio ter comigo e disse-me: 'tens de fazer um rali só para ti, nós assim não podemos...'".
"Óculos especiais para nevoeiro, sistema de infravermelhos foram outras explicações: 'sim, houve várias, tudo inventado... Na televisão alemã expliquei que nem olhava para a estrada, que contava até seis e virava o volante... (risos). Foi uma enorme polémica! Mas foi um troço normal, sem qualquer susto ou situação complicada. Ok, foi um bocado louco, o Christian disse-me depois que não olhou uma única vez para a estrada.... Foi tudo perfeito, não falhei uma única curva! Mas não me perguntem como funcionaria hoje, não faço ideia!".

As montanhas do Açor 'pariam' naquele mesmo dia um ícone dos Ralis.

Ao contrário do que sucede com frequência neste tipo de ocasiões, não foi o passar dos anos que elevou este episódio à condição de lenda.

Nos dias seguintes ao Rali de Portugal desse ano, a imprensa especializada em jeito de rescaldo aludia à prova dando natural destaque à façanha protagonizada por Rohrl nas florestais de Arganil:

"Se dúvidas existissem quanto à capacidade do piloto alemão, elas seriam totalmente dissipadas na primeira passagem por Arganil, onde sob intenso nevoeiro Rohrl deixou os adversários mais próximos a quatro minutos…(..) era a afirmação definitiva a caminho duma vitória inteiramente justa, e uma excelente prenda de aniversário de quem completou 32 anos durante o rali…" [in: AutoSport nº 133, de 13/03/1980].

As imagens que de seguida partilhamos consigo, extraídas do prodigioso documentário «50 Years Sideways By Trackcam» falam por si: do ambiente misterioso e irresistível das noites do Rali de Portugal, ao espírito quase sebastiânico daquele nevoeiro em Arganil [as imagens colhidas dentro do carro são reveladoras das dificuldades que os pilotos encontraram para cumprir o troço], até à narração de Rohrl, em discurso direto, sobre o episódio em causa.

video

Mais acima, salientámos a importância de se conhecer um certo sentido de transcendência inerente à classificativa de 56,5 quilómetros de Arganil [mais não era que a extensão até Lomba - cerca de 14,5 kms - dos 42 quilómetros que terminavam em Folques], iniciada na edição de 1983 do Rali de Portugal.

Perceber todo o mistiscismo das zonas adjacentes à referida vila [Arganil] no contexto dos Ralis, implica compreender a essência daquele percurso.

No final de Julho de 2007, em conjunto com um grupo de amigos entusiastas destas coisas dos Ralis, percorremos na íntegra o antigo troço.

Algum botox em forma de asfalto foi-lhe polindo as rugas e a beleza rígida dos seus traços.

Porém, a sua aura permanece intacta.

O tempo não belisca a sua magnitude e o charme é o mesmo de sempre.

O apelo permanece, pois, imutável.

Na altura, fizemos uma descrição no fórum online da revista AutoSport daquilo que haviam sido as peripécias da caravana que integramos.

Com alterações de cosmética, é esse texto, com ilustrações, que damos de seguida por replicado.


"ROMAGEM DA SAUDADE: 56,5 QUILÓMETROS DE ARGANIL (a revisitação)"

"Relativamente à nossa 'romagem da saudade', aqui venho, então, narrar a minha visão deste dia creio que marcante para todos os que nele se viram embrenhados. 
Sem prejuízo de em breve vir a elaborar um outro texto mais completo, as minhas primeiras palavras terão de ir necessariamente para os companheiros que ousaram partilhar comigo esta aventura. 
A saber: José Pessoa de Amorim; José Ricardo Aguilar; Gonçalo Fernandes; Tony Gomes Costa; Francisco Vasconcelos e João Pedro Breda
Como tive o privilégio de há uns meses atrás [15 de Abril de 2007] ter percorrido o troço em toda a sua extensão, a ideia principal que me levou a deslocar no passado Sábado a Arganil passava essencialmente pelo convívio, pela partilha de histórias e episódios do Rali, e pela fruição da paisagem da Serra do Açor sempre absolutamente deslumbrante e altamente recomendável! 
Nessa perspetiva, a incursão pelo percurso dos famigerados 56,5 quilómetros revelou-se de novo muito bem conseguida. 
Como é bom de ver, o dia começou bem cedo [4.20 da madrugada], quanto mais não fosse para manter intacta a aura de deslocação aos Ralis de Portugal durante a noite. 
Feitos os preparativos para a viagem, a 1ª paragem verificou-se na área de serviço de Pombal da A1 pelas 6.00 horas da manhã para o obrigatório café [na realidade foram dois...], e o encontro com o Zé Amorim
Dois [breves] dedos de conversa e fizemo-nos ao caminho, passando ao largo de Coimbra pelo IP3, ladeando a Barragem da Aguieira [sempre com o seu típico e cerrado nevoeiro matinal] e rumando a Arganil, onde a concentração dos 'romeiros' se encontrava definida para a Ponte das Três Entradas
O dia começava a nascer e os primeiros raios de sol faziam revelar, na linha do horizonte, os recortes da Serra do Açor, remetendo-nos de imediato para um imaginário [já longínquo mas que perdurará para sempre nas memórias de quem o viveu de perto...] dos anos de ouro do nosso Rali. 
A chegada dos demais colegas foi sendo feita com pontualidade britânica, pelo que antes das 8 horas da manhã, à exceção do Francisco Vasconcelos, toda a caravana se fazia à estrada atacando convictamente o encadeado das serrarias do Açor pela encosta norte, rumo à Aldeia das Dez, local onde o troço começava. 
Um café retemperador numa típica tasca, e uma breve partilha de histórias com o dono da mesma [onde nos falou, com a esposa, dos galões que os pilotos bebiam antes de entrar no troço, feitos em cafeteira com a enciclopédica sabedoria das gentes do interior...] foi o mote para, convictamente e sem delongas, nos fazermos ao troço. 
Primeira paragem junto ao cemitério em Vale de Maceira, e eis que desde logo pelo João Breda foi exibido um roadbook da edição de 1982 do Rali, onde constatámos [preciosismos de maníacos por estas coisas...] que o troço afinal começava 200 metros antes do cemitério. 
Iniciamos então os primeiros quilómetros da classificativa, cujo percurso foi por nós dividido em diversas etapas: 



1ª ETAPA - Vale de Maceira/Penedos Altos:


Os primeiros 2 quilómetros, em subida, apresentam-se asfaltados e com bom piso, mas assim que cortamos à esquerda no estradão de terra [hoje impraticável para Ralis], rumo ao Piódão, fomos brindados com um piso absolutamente demolidor a fazer jus à tradição das florestais de Arganil. 



Ravinas de várias centenas de metros à nossa esquerda iam acompanhando a caravana, abrindo uma vista deslumbrante sobre a vertente sul da Serra da Estrela [com a Torre em fundo...] e, no campo oposto, o Caramulo!... 




A paisagem, inospitamente bela e agreste, ia fazendo perpassar nos nossos espíritos o profundo respeito por quem, como muitos pilotos no passado, fazia esta primeira parte do troço nos limites da estrada e dos carros, numa mescla de destreza e coragem só ao alcance de homens e mulheres fora do comum. 



Com o andar da caravana [que se foi 'alargando', dado o rasto de pó que os jipes deitavam atrás de si...] e o passar dos quilómetros, fomos vislumbrando a aldeia de Piódão à nossa esquerda, lá em baixo, no vale, e terminada a parte de terra do troço, lá estava, então, o Francisco à nossa espera nos ganchos em asfalto que descem para a típica aldeia acima citada.



Feitas as apresentações, e não sem que antes fossem feitas as [muitas] fotografias da praxe, subimos então até aos Penedos Altos pelo asfalto [nos ganchos que foram uma das imagens de marca do Rali de Portugal], aí concluindo a primeira parte do troço.

O balanço feito até então era 100% positivo, com disposição ímpar e uma análise entusiasmada e exaustiva de todas as combinações de troços, quer em asfalto quer em terra, que o local possibilita e análise a mapas, cartas topográficas e roadbooks que vieram para a 'romagem' documentando a história dos Ralis nesta Região. 
Entretanto, importante será frisar que o Zé Amorim, verdadeiramente 'foto-dependente', se embrenhava minutos a fio pelo meio da Serra até o perdermos de vista, apenas para obter o melhor ângulo ou a foto mais conseguida, num trabalho total de cerca de 300 fotos [cujo link abaixo disponibilizamos].
O sol ia fazendo valer a sua lei e, por isso, urgia iniciarmos a segunda fase do troço que compreendia... 


2ª ETAPA - Penedos Altos/cruzamento da casa do PPD:


Uma vez que esta fase do troço se encontra integralmente asfaltada, foi com rapidez que a mesma foi concretizada... 

Como nota especial de reportagem, ainda e sempre o nosso amigo a 'obrigar' a caravana a algumas paragens para as fotos, de todo o género e feitio. 
Chegados à 'casa do PPD', o Francisco fez-nos um breve introito sobre o historial daquela edificação, seguindo-se um desfilar de grandes emoções deste local tão emblemático, recordando várias edições do Rali de Portugal ali vividas, com a comparação de fotos que vários de nós ali tirámos em diferentes alturas e o enquadramento paisagístico dos dias de hoje [felizmente com mais vegetação...]...


Seguramente um dos momentos mais significativos do dia que, claro, viria a merecer um brinde singelo [duas garrafitas de um branco duriense bem fresquinho...] mas muito especial por parte dos romeiros.


Escusado será dizer, como não podia deixar de ser, que o não deixou passar o ensejo sem ilustrar o local com umas largas dezenas de fotos... 
O tempo avançava rápido, pelo que se impunha realizar mais uma 'tranche' do troço que desta vez contemplava... 

3ª ETAPA - casa do PPD/cruzamento do Mosteiro de Folques:

Entramos novamente na zona de terra do troço e, percorridos cerca de 29 quilómetros, tivemos de fazer um breve desvio de rota com a incursão ao Posto de Vigia
Mais um desfraldar de histórias do Francisco [cicerone de luxo] sobre aquele local, onde Carlos Sainz chegou a gravar spots comerciais, e voltamos ao troço, descendo para Alqueve, sempre em terra mas agora com um piso bastante aceitável, enquadrados por uma vegetação absolutamente sensacional. 
Entrada em Alqueve, já de novo em asfalto, com mais uma panóplia de histórias vividas na primeira pessoa pelo Francisco e, sempre em descida [local de muitos testes das equipas de fábrica, onde ele nos ia confidenciando ter andado ao lado de praticamente todos os grandes campeões do passado, sendo que o piloto que mais o impressionou curiosamente foi o Mark Higgins...], a caravana rapidamente chegou ao cruzamento do Mosteiro de Folques
Neste local também ele especialmente emblemático, mas um rol de recordações coletivas vividas com devoção como não podia deixar de ser [e, claro, mas umas dezenas de 'chapas' batidas pelo ...].
No frondoso e verdejante vale de Folques, iniciava-se, então, mais uma 'etapa' do troço... 

4ª ETAPA - Mosteiro de Folques/Salgueiro:

Uma curta tirada, sempre em asfalto, pelas profundezas do vale, até à pitoresca aldeia do Salgueiro, em dia de festividade local. 
Os estômagos ressequidos sentiam, então, a necessidade de líquidos retemperadores, pelo que a caravana irrompeu determinada pela magnífica taberna [sem qualquer carga pejorativa, entenda-se...] da aldeia. 
A hora era, pois então, de degustar uns revigorantes 'copos de três' bem fresquinhos, para contrapor às agruras e inclemência do calor que se fazia sentir, tarefa à qual os 'Romeiros' se dedicaram com denodo e convicção. 
Os joviais 76 anos do Sr. Ilídio, proprietário de tão emblemático estabelecimento, cintilavam de satisfação com o facto de saber os intentos e propósitos que ali nos levavam e, já se sabe, despejadas as primeiras garrafas, a casa lá nos obsequiou com uma série de rodadas, pois via-se bem que todos éramos 'excelente rapaziada'!... 


Um momento absolutamente marcante da romagem, sem sombra de dúvidas!... 
Animados por uma boa disposição inabalável, era tempo de dar continuidade à aventura e começarmos a subir montanha acima, de novo em piso de terra, com muitos ganchos à mistura pois estávamos próximo de... 

5ª ETAPA - Salgueiro/Selada das Eiras:

Selada das Eiras é um 'clássico' dos Ralis em todo o mundo, e um local verdadeiramente intemporal. 
A caravana fruiu dos prazeres desta mítica curva terra-asfalto-terra, num silêncio contemplativo e respeitador, apenas interrompido pelos flashes insistentes de um romeiro de quem me dispenso, por desnecessidade, de citar o nome. 
Mais umas fotos 'do antigamente', dos dias de Rali, foram trazidas a terreiro para a necessária comparação com os dias de hoje. 
Um pedaço de tempo extremamente bem passado, com a partilha conjunta de [muitas...] memórias de Selada das Eiras, mas as horas passavam céleres e havia necessidade de cumprir a última etapa do troço que nos haveria de levar... 

6ª ETAPA - Selada das Eiras/Lomba:

Embrenhámo-nos de novo nos estradões de terra em direção a Lomba, iniciando a descida final e os seus lendários ganchos [hoje em asfalto] até aquela povoação do concelho de Arganil que fica indelevelmente associada a esta mítica classificativa. 
Por tudo o que descrevi, é por demais evidente que foi uma experiência com grande impacto em todos os que nela intervieram, e pena foi que não pudéssemos ter contado com o José Luís Abreu, jornalista da AutoSport [afazeres profissionais de última hora impediram-no de estar presente...], o João Costa [uma enciclopédia viva dos Ralis] e a 4L do Eng. Pinto dos Santos que, desditosa, se recusou a colaborar nesta iniciativa! 
Durante o excelente almoço que se seguiu, junto ao Mosteiro de Mont'Alto, foram pelos romeiros/comensais lamentadas as ausências atrás citadas, que tornaram a caravana um pouco mais 'pobre'
No repasto congeminou-se a hipótese de vir a ser constituída uma 'Associação dos Amigos do Rali de Portugal', destinada a promover e divulgar publicamente o nossa mítica prova através de várias ideias que vieram à liça e que, a breve trecho, irão ser reveladas, pois existe um acervo documental [fotos, roadbooks, mapas, desenhos no google earth, estatísticas e demais documentação] disseminado por muitos adeptos que, reunido e tratado documentalmente, exposto na internet só poderia ser um sucesso colossal!... 

N.L., 29 de Julho de 2007."

A FOTO QUE INICIA O PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://rallydeportugalspecial.wordpress.com/page/8/


LINK COM O PORTFÓLIO DE FOTOS DA «ROMAGEM DA SAUDADE» [DE ONDE RECAIU A SELEÇÃO QUE APRESENTAMOS NESTE TRBALHO], UMAS DA NOSSA AUTORIA, OUTRAS DO COLEGA E AMIGO JOSÉ PESSOA DE AMORIM:
- http://picasaweb.google.com/nuno.lorvao/MTICOTROODEARGANILCOM565KMS?authkey=2d_GXGfQBoQ

domingo, 26 de junho de 2011

P.E.C. Nº 73: «Esperar... o inesperado»...



O filme não é muito extenso: apenas o suficiente para revelar quão caricato pode ser um Rali, com todas as suas metamorfoses e ínfimas possibilidades de suceder o inimaginável.

Participar num Rali é em grande medida como fazer parte do elenco de um filme, do qual se desconhece em absoluto o guião da próxima cena.

É, como enfatiza o narrador destas imagens, assimilar que a lei inexorável da modalidade é saber esperar o inesperado.

Os Ralis raramente são um desporto de 'recinto fechado'.

O ar que respiraram é o da rua.

Há, por isso, um certo instinto libertário que faz a modalidade recusar planificações ou estratégias pré-definidas.

Os Ralis vivem (d)o momento.

Dentro do carro tem de ser transportada a capacidade de gerir o imediato, a sabedoria de improvisar no imprevisto.

A sinopse que apresentamos de seguida são os Ralis na sua faceta mais autêntica.

Há drama, comédia, bons e maus momentos, adversidade, sentido de solidariedade, entreajuda, até mesmo o tão luso desenrascanço.

O 'amanhã' que é a tomada de tempos final de uma classificativa, é relativizado como um horizonte temporal demasiado longínquo.

A cada fração de segundo está associado um sentido de urgência, um arrebatamento que transformam cada prova da modalidade numa realidade tão bela quanto indecifrável.

Neste mundo sublime, «prognósticos», percebe-se pelas imagens que seguem, «nem no fim do troço»...


A FOTO QUE ENQUADRA O PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://amberie.wordpress.com/category/peugeot/

sábado, 25 de junho de 2011

P.E.C. Nº 72: Ypres, Ypres, hurra!



Neste final de semana prosseguiu na Bélgica mais uma edição do Rali de Ypres, prova pontuável em simultâneo para o campeonato da europa de Ralis e para o Intercontinental Rally Challenge.

Remonta a 1965 a vasta história do Rali de Ypres [que durante anos a fio, até 1996, manteve a designação de '24 horas de Ypres'], onde pontificam na galeria de vencedores nomes como Rohrl, Toivonen, Vatanen, Biasion ou Ragnotti.

Ypres é um dos Ralis mais específicos de todo o mundo, com caraterísticas que o tornam ímpar.

Com um percurso desenhado em zonas predominantemente agrícolas e sem desníveis de terreno [a haver similitudes em Portugal, ainda que à distância, elas podem-se encontrar na antiga classificativa de Alcobaça - «Rali Centro de Portugal» - e no troço dos Campos do Lis - «Rali Vidreiro» - ], a ronda belga do europeu e IRC 'obriga' os concorrentes a um conhecimento apuradíssimo do terreno de molde a evitar as inúmeras armadilhas que os troços oferecem.

Para andar com eficácia neste Rali é imperioso possuir-se uma noção muito concreta da enorme quantidade de cruzamentos com que os concorrentes se deparam [característica que lhe confere uma dimensão quase labiríntica], prefigurando mentalmente a necessidade de contrariar a tendência 'natural' de cortar curvas, exercício arriscado e por norma pago bem caro nos troços da Flandres Ocidental.

A todas estas dificuldades acresce ainda a estreiteza das classificativas, que tornam o ato de condução num refinado exercício de precisão e pontaria.

A prova de 2011 [vitória final para Freddy Loix, a 7ª no evento] foi aziaga para a Peugeot Portugal [Bruno Magalhães e Paulo Grave viram-se forçados a desistir no dia de ontem, devido a problemas mecânicos no seu 207 S2000], mas ainda assim, não obstante o amargo de boca, Zona-Espectáculo propõe ao caro visitante entrar na máquina do tempo retrocedendo até à 31ª edição das «24 Horas de Ypres», disputada em 1995, com mais de trinta belíssimos minutos de imagens sobre o desenrolar da mesma.






A FOTO QUE ENCIMA O PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://uppmotorsports.blogspot.com/2010/06/bruno-magalhaes-em-grande-ritmo-caca-do.html

quinta-feira, 23 de junho de 2011

P.E.C. Nº 71: Novo acordo ortográfico...



Os Ralis têm um código linguístico muito próprio.

Como em qualquer outra realidade viva e dinâmica, o léxico da modalidade não escapa a regenerar-se com a adoção de novos vocábulos.

Nos últimos anos têm emergido diversas expressões, que adquiriram com o tempo e repetição influência decisiva na forma como hoje comunicam todos os atores do grande palco que são os Ralis.

Também aqui a linguagem popular foi condicionando vincadamente os padrões de oralidade.

Queira o caro leitor, então, inteirar-se de algumas expressões ora em voga, aquelas que, mal ou bem, entraram no dicionário das provas de estrada moldando o português corrente de milhares de adeptos em todo o país.

1) EXPRESSÃO "GANCHO DE CORTELHA"
Significado: classificativa de Loulé.
Coordenadas GPS: 37°15'51.10"N - 7°58'45.06"W


2) EXPRESSÃO "SALTO DE OURIQUE"
Significado: classificativa de Ourique.
Coordenadas GPS: 37°26'54.85"N - 8°14'40.28"W



3) EXPRESSÃO "GANCHO DE SANTA CLARA"
Significado: classificativa de Almodôvar.
Coordenadas GPS: 37°29'16.16"N - 8° 8'32.58"W


4) EXPRESSÃO "GANCHO DA SANTINHA"
Significado: classificativa de Santa Clara.
Coordenadas GPS: 37°27'45.78"N - 8°11'9.56"W


5) EXPRESSÃO "MONTE BRANCO DO VASCÃO"
Significado: classificativa do Vascão.
Coordenadas GPS: 37°24'50.61"N - 7°54'28.11"W


6) EXPRESSÃO "GANCHO DE SILVES"
Significado: classificativa de Silves.
Coordenadas GPS: 37°20'52.77"N - 8°15'7.80"W



7) EXPRESSÃO "GANCHO DE SÃO BARNABÉ"
Significado: classificativa de Felizes [anteriormente também denominada Loulé/Almodôvar ou Malhão].
Coordenadas GPS: 37°20'39.87"N - 8° 9'45.60"W



8) EXPRESSÃO "ALCARIA DO CUME"
Significado: classificativa de Tavira.
Coordenadas GPS: 37°14'38.73"N - 7°44'3.52"W

[Nota: os troços da Serra de Tavira não têm sido infelizmente utilizados nas edições mais recentes do Rali de Portugal, mas Alcaria do Cume continua a ser (p)referencial nas múltiplas sessões de testes que as equipas vão realizando a sul do país].


A FOTO QUE ENQUADRA O PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.panoramio.com/photo/32340151

P.E.C. Nº 70: ...cognome, «o fleumático»!...



Há umas semanas, numa aprazível tarde de sábado [daquelas em que o mais despreocupado ócio se transforma em bálsamo de vida], demos connosco a conduzir por uns eucaliptais da região centro deste país.

A estrada, muito encadeada e estreita, apresentava-se com um bom tapete de asfalto convidando a adotar um ritmo vivo [bem vivo diga-se, em bom rigor até talvez vivo demais…].

Perante um cenário ideal para os amantes, como nós, da condução desportiva, lá fomos devorando quilómetros para gaudio do turbo do nosso automóvel, cujo silvo não parava de cantarolar melodiosamente.

Como o caro leitor já terá adivinhado, tal estrada, só por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias, era… uma antiga classificativa do Rali de Portugal!

Apostados em ir fazendo uma imitação tosca de Sebástien Loeb [evitando ao máximo fazer uma imitação demasiado realista de Jari-Matti Latvala] de repente, só por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias deparámo-nos, após uma pronunciada descida, numa direita apertada que nos pareceu familiar.

Interrompemos a nossa marcha de imediato, estacionando o carro da melhor forma possível de molde a não perturbar quem passasse.

Saímos, não sem que antes, à cautela, tivéssemos retirado a ‘arma’ que sempre nos acompanha nestas ocasiões.

A bordejar o asfalto, do lado esquerdo à saída daquela direita apertada, víamos a pique um combro mesclado de terra e pedra com uns 3 metros de altura, com um ameaçador silvedo no seu sopé, junto à estrada.

Por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias, interiorizámos ali, desde logo, o propósito de subir o desnível que tínhamos pela frente.

O que se seguiu não foi bonito de se ver: mãos e antebraços arranhavam-se a cada passo da nossa marcha, calças exibiam rasgões de admirável dimensão, sapatos e meias entupiam-se de pó e a terra invadia-nos desagradavelmente o território entre dedos dos pés.

Para compor o ramalhete, neste cenário pré-apocalíptico, eramos também bafejados pela visita, sempre cortês, desses parceiros incondicionais do aficionado de Ralis, conhecidos na terminologia rural como… carrapatos!

Nada que nos demovesse: afinal de contas, nós até ostentamos galhardamente, na perna direita, uma vistosa cicatriz com sete centímetros, fruto de um salto mal medido que nos levou direitinhos a uma vedação de arame farpado durante o Rali de Portugal de 2009.

Cumprido o descrito processo de ‘ambientação’, tínhamos agora a 'escalada' do referido combro pela frente.

O exercício de equilibrismo prometia!

Onde antes tínhamos imitado ‘toscamente’ Loeb, agora cumpria-nos soltar o João Garcia que havia em nós.

Uma mão ocupada a segurar a ‘arma’ [em alguns meandros também conhecida por máquina fotográfica].

Pontos para fixar mãos e pés nem vê-los.

Iniciamos a ‘escalada’ e, já a meio, um bom par de vezes resvalámos voltando à estaca zero.

A certa altura de tão conturbado processo, encontrando-nos em apurado esforço para não cair de novo nesta nossa aventura na ‘alta montanha’ [3 metros sempre são 3 metros], eis que na estrada aparece um potentíssimo bólide da marca Aixam, pilotado por um agricultor das redondezas.

Com uma expressão algures entre a mais pura incredulidade e a ironia de um sorriso trocista, lá perguntou sonoramente: «vai uma ajudinha?»

Embaraçados pela posição pouco ortodoxa em que nos encontrávamos, lá respondemos da forma mais descontraída que conseguimos com um nada convincente: «não, obrigadinho!».

A alta velocidade, o Aixam retomou a sua marcha pelos eucaliptais fora.

Nós, tentávamos encontrar motivação para atingir o cume do nosso ‘Evereste’.

Com persistência conseguimos.

Objetivo cumprido.

Nesse preciso momento, por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias, estávamos precisamente aqui [foto datada de 11-06-2011]:


[vd: http://www.flashearth.com/?lat=40.447189&lon=-8.277775&z=17.8&r=0&src=msa, por João Costa].

Por uns instantes, refeitos das aventuras e desventuras anteriores e após observarmos pachorrentamente a paisagem ao nosso redor, representamos mentalmente a figura de Richard Burns e veio-nos à memória algumas imagens da carreira do saudoso piloto inglês.

Uma delas, por um acaso incrivelmente extraordinário, apenas por uma coincidência absolutamente inacreditável, graças ao somatório espantosamente feliz de um sem número de circunstâncias, esta [Richard Burns, classificativa de Mortazel, foto datada de 23 ou 24 de Março de 1998]:



Falecido precocemente em 2005, com 34 anos de idade, após doença do foro cancerígeno [talvez Burns, se nos ler, prefira que metaforicamente lhe chamemos antes uma 'avaria mecânica irresolúvel'], o antigo piloto da Mitsubishi, Subaru e Peugeot foi um baluarte do elevado sentido de desportivismo tão típico dos britânicos.

Pela via do seu exemplo, haveria de tornar-se referência.

Tranquilo, sem exaltações de maior, o inglês pilotava a alta velocidade com a bonomia de quem se encontra à hora do lanche a comer scones acompanhando o chá das cinco.

O sustentáculo do seu sucesso sempre assentou nos valores sólidos do trabalho e da humildade com que encarava a sua profissão, reescrevendo nas classificativas de todo o mundo a sua própria «Rule Britannia».

Burns, «o fleumático», acabaria com o tempo por constituir-se no desporto e na vida como um embaixador formidável dos traços de personalidade de toda uma nação.

A sua: a velha Inglaterra.



RICHARD BURNS NO RALI DE PORTUGAL:

PARTICIPAÇÕES: 6 (1995; 1997 a 2001).
VITÓRIAS: 1 (2000).
PÓDIOS: 1 (2000).
VÍTORIAS EM CLASSIFICATIVAS: 20.

a) 1 9 9 5 (Subaru Impreza 555):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 7º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 0.

b) 1 9 9 7 (Mitsubishi Carisma GT Evo 4):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: desistência com problemas de transmissão.
VITÓRIAS EM TROÇOS: 0.

c) 1 9 9 8 (Mitsubishi Carisma GT Evo 4):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 4º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 2.

Mortágua '2':
QUILOMETRAGEM: 17.15 kms.
TEMPO REALIZADO: 11m:48,7segs.
MÉDIA HORÁRIA: 87.12 km/h.

Tábua:
QUILOMETRAGEM: 13.46 kms.
TEMPO REALIZADO: 8m:32,8segs.
MÉDIA HORÁRIA: 94.49 km/h.

d) 1 9 9 9 (Subaru Impreza WRC):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 4º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 4.

Fafe/Luílhas '1':
QUILOMETRAGEM: 10.55 kms.
TEMPO REALIZADO: 7m:51,7segs.
MÉDIA HORÁRIA: 80.52 km/h.
(Nota: vencedor ex-aequo com Colin McRae/Nicky Grist).

Fafe/Luílhas '2':
QUILOMETRAGEM: 10.55 kms.
TEMPO REALIZADO: 7m:45,9segs.
MÉDIA HORÁRIA: 81.52 km/h.

Ladário/Oliveira de Frades:
QUILOMETRAGEM: 11.26 kms.
TEMPO REALIZADO: 7m:43,4segs.
MÉDIA HORÁRIA: 87.48 km/h.

Salgueiro/Góis '1':
QUILOMETRAGEM: 19.70 kms.
TEMPO REALIZADO: 11m:30,6segs.
MÉDIA HORÁRIA: 102.69 km/h.

e) 2 0 0 0 (Subaru Impreza WRC):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 12.

Luílhas '1':
QUILOMETRAGEM: 11.39 kms.
TEMPO REALIZADO: 8m:29,5segs.
MÉDIA HORÁRIA: 80.48 km/h.

Cabreira '1':
QUILOMETRAGEM: 26.68 kms.
TEMPO REALIZADO: 17m:41,3segs.
MÉDIA HORÁRIA: 90.50 km/h.

Luílhas '2':
QUILOMETRAGEM: 11.39 kms.
TEMPO REALIZADO: 8m:24,2segs.
MÉDIA HORÁRIA: 81.32 km/h.

Cabreira '2':
QUILOMETRAGEM: 26.68 kms.
TEMPO REALIZADO: 17m:42,5segs.
MÉDIA HORÁRIA: 90.40 km/h.

Piódão '1':
QUILOMETRAGEM: 24.78 kms.
TEMPO REALIZADO: 16m:46,0segs.
MÉDIA HORÁRIA: 88.68 km/h.

Arganil '1':
QUILOMETRAGEM: 14.27 kms.
TEMPO REALIZADO: 9m:39,6segs.
MÉDIA HORÁRIA: 88.63 km/h.

Salgueiro/Góis '1':
QUILOMETRAGEM: 19.62 kms.
TEMPO REALIZADO: 11m:24,0segs.
MÉDIA HORÁRIA: 103.26 km/h.

Arganil '2':
QUILOMETRAGEM: 14.27 kms.
TEMPO REALIZADO: 9m:49,9segs.
MÉDIA HORÁRIA: 87.09 km/h.

Salgueiro/Góis '2':
QUILOMETRAGEM: 19.62 kms.
TEMPO REALIZADO: 11m:24,0segs.
MÉDIA HORÁRIA: 103.26 km/h.

Ponte de Lima Este:
QUILOMETRAGEM: 23.49 kms.
TEMPO REALIZADO: 15m:58,9segs.
MÉDIA HORÁRIA: 88.19 km/h.

Ponte de Lima Oeste:
QUILOMETRAGEM: 25.66 kms.
TEMPO REALIZADO: 19m:04,2segs.
MÉDIA HORÁRIA: 80.73 km/h.

Ponte de Lima Sul:
QUILOMETRAGEM: 11.15 kms.
TEMPO REALIZADO: 8m:12,9segs.
MÉDIA HORÁRIA: 81.44 km/h.

f) 2 0 0 1 (Subaru Impreza WRC):
CLASSIFICAÇÃO FINAL: 4º.
VITÓRIAS EM CLASSIFICATIVAS: 2.

Góis '1':
QUILOMETRAGEM: 19.62 kms.
TEMPO REALIZADO: 12m:26,1segs.
MÉDIA HORÁRIA: 94.67 km/h.

Oliveira de Hospital '2':
QUILOMETRAGEM: 24.78 kms.
TEMPO REALIZADO: 18m:42,0segs.
MÉDIA HORÁRIA: 79.51 km/h.

(Nota: No trapézio traiçoeiro que sempre foram as classificativas do Rali de Portugal, Richard Burns nas seis ocasiões em que se deslocou ao nosso país optou em todas elas por não fazer concessões à insegurança, apostando invariavelmente em trabalhar com... Reid!).

PALMARÉS:

Campeão Britânico de Ralis: 1993.
Campeão do Mundo de Ralis: 2001.
Vitórias em provas do mundial: 10.
Pódios em provas do mundial: 34.
Vitórias em classificativas de provas do mundial: 277.
Total de pontos em provas do mundial: 351.





"Burns era demasiado humilde para perceber que era bom. Acreditava que o seu sucesso dependia sempre de fatores externos ao seu desempenho. Quando venceu o rali da Nova Zelândia, em 2001, atribuiu a vitória ao copiloto, Robert Reid. "És o melhor do mundo", disse-lhe quando cruzaram a linha da meta".


"A simplicidade de Richard Burns transparecia na forma como conduzia. Era uma extensão do corpo e da personalidade. "A maneira como guiava mostrava muito do seu carácter. Era rápido e eficiente. Não tinha trejeitos de vedeta nem era nada exuberante". (Rui Madeira).


Citações extraídas de:
- http://www.ionline.pt/conteudo/51809-richard-burns-o-rapaz-que-nao-tinha-nome-ganhou-ca-ha-dez-anos

AS FOTOS QUE ENQUADRAM O PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://rallymemory.blogspot.com/2010/07/ainda-2000.html
- http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=as.stories/64732
- http://rallyazores.blogspot.com/2010/05/rally-historia-rally-de-portugal-2001.html

segunda-feira, 13 de junho de 2011

P.E.C. Nº 69: Linhar de Pala...



Dos múltiplos problemas que Portugal enfrenta, um dos principais é seguramente a desertificação do interior, sobretudo nas zonas de matriz mais rural.

A história do Rali de Portugal demonstra que o evento sempre foi mais que uma competição automobilística, constituindo-se, ontem como hoje, como um fator cultural e veículo de promoção de alguns dos locais mais recônditos do nosso país.

Lugarejos e aldeias perdidas nos confins das Serras do Açor, Cabreira ou Agra, durante anos tiveram o seu momento festivo aquando da passagem da prova pelas suas paragens, nos saudosos dias e noites em que o urbano e rural se aculturavam em perfeita comunhão, em que adeptos e populações interagiam de forma formidável.

Esse espírito fraternal ter-se-á diluído nas chuvas de março há dez anos atrás, mas ainda assim o apelo à ruralidade que o Rali de Portugal transporta consigo continua a ser deveras marcante, agora em terras de Baixo Alentejo e Algarve.

Graças à prova, nós, como certamente milhares de outros aficionados, fomos ao longo dos anos conhecendo um pouco melhor alguns verdadeiros tesouros paisagísticos deste país, escondidos no meio de serras, montes e vales, naqueles locais onde o sol se esconde cedo, a sombra e o vento espalham-se ásperos, o último gadget chama-se ainda enxada, o frio se institui por decreto e o crepitar da lareira é o único ruído capaz de abafar o silêncio dos dias.

Um desses lugares chama-se Linhar de Pala.

O nome talvez pouco diga ao caro leitor.

Trata-se de um povoado longe de tudo, perto apenas do mais bucólico silêncio.

Se a metáfora do longínquo existe, ela assemelhar-se-á em quase tudo a Linhar de Pala.

A povoação não terá mais que dez casas: habitantes provavelmente ainda menos.


Nos anos noventa, o empenhativo troço de Mortágua atravessava aquele lugar de ruas inclinadas cravado em plena Serra do Boi, como a foto de Carlos Sainz e Luís Moya no icónico Subaru azul que acima publicamos assim demonstra.

A dupla espanhola, aliás, venceria a prova portuguesa (seria o 16º triunfo de el matador no campeonato do mundo de Ralis) nesse mesmo ano de 1995, após um duelo férreo com Juha Kankkunen e Nicky Grist apenas concluído depois da tomada de tempos da última classificativa.

Dezasseis anos volvidos, um apelo dos domínios do inconsciente gerou-nos uma vontade indómita de aprofundar conhecimentos acerca da especial de Mortágua.

Estudamos percursos, vimos mapas: procuramos documentar-nos colhendo alguma informação.

Linhar de Pala aparecia-nos como incontornável na nossa deslocação.

Após o longo percurso para ali chegar, assente na normal nomenclatura de estradas montanhosas, estreitas e sinuosas como é da praxe, chegamos ao nosso destino.

Descontando as pinceladas de modernidade que a repavimentação em asfalto vai emprestando a alguns antigos aceiros e corta-fogos do nosso país, reforçou-se a nossa convicção que, afinal, o tempo parece não ter passado por aquelas paragens.



A casa verde continua verde: a que está à sua frente continua com o reboco em tosco e sem levar uma demão de pintura.

A nossa ideia passava por colher alguma informação.

Perceber junto daqueles gentes em que medida o Rali de Portugal lhes estava guardado nas memórias.

A meio da tarde, não se via vivalma.

Após algum tempo em que deambulamos por Linhar, da casa verde a páginas tantas saiu um homem.

Vestido de preto, envergando o luto em que faz caminho a solidão.

Idade indefinida.

Talvez octogenário.

Talvez nonagenário.

Talvez… nem ele saiba verdadeiramente ao certo.

Aproximamo-nos da forma mais calorosa e fraternal que conseguimos.

Tentamos ensaiar um diálogo que nos conduzisse a colher informação, opiniões e ideias sobre o Rali de Portugal.

A resposta fez-se de sons monocórdicos e de alguma desconfiança, turvados por um fio de voz ténue, quase impercetível.

Não insistimos.

Demos a pensar connosco próprios que diversos anos após o Rali de Portugal, este homem talvez sinta a ausência do bulício que a prova trazia consigo, do calor e energia vital que legava a estas gentes.

Não o calor dos motores dos carros em alta ebulição: antes o calor humano, de aficionados em clima de peregrinação festiva, ao fim ao cabo a fórmula mais eficaz para combater a solidão de quem está lá longe, nesta e nas outras Linhar de Pala que são cada vez mais comuns neste país.


RALI DE PORTUGAL:

EDIÇÃO: 29ª.
ANO: 1995.
PROVA ESPECIAL DE CLASSIFICAÇÃO: Nº 2.
DATA: 8 de Março de 1995.
DESIGNAÇÃO: Mortágua.
EXTENSÃO: 18,22 quilómetros.

VENCEDORES EX-AEQUO:

PILOTO: Juha Kankkunen.
NAVEGADOR: Nicky Grist.
CARRO: Toyota Celica Gt-Four
TEMPO REALIZADO: 11m:49sgs.
MÉDIA HORÁRIA: 92,51 kms/h.

PILOTO: François Delecour.
NAVEGADOR: Catherine François.
CARRO: Ford Escort RS Cosworth
TEMPO REALIZADO: 11m:49sgs.
MÉDIA HORÁRIA: 92,51 kms/h.



AS FOTOS PUBLICADAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.origens.pt/explorar/doc.php?id=3391 [relativa à deslumbrante foto que encima o presente trabalho, da autoria de António M. Jorge]
- http://zona-espectaculo.blogspot.com/2011/03/pec-n-49-sainz-tirar-nem-por.html [P.E.C. Nº 49 deste blogue].

segunda-feira, 6 de junho de 2011

P.E.C. Nº 68: São Brás de Alportel...



A vida é feita de mudanças e o Rali de Portugal é uma expressão feliz dessa máxima.

Hoje, a nossa prova projeta-se no mundo afirmando a sua condição algarvia.

A sua maneira de ser e traços de personalidade são, por estes anos, vincadamente sulistas.

Pegando nos mais rasgados encómios que Jean Todt lançou recentemente ao anterior formato do nosso Rali – aos quais aderimos sem pestanejar -, há sementes lançadas para a nossa prova voltar a paragens que durante anos a fio foram a sua marca distintiva, como Fafe ou Arganil.

Enquanto não germinarem, o Rali de Portugal irá, esperamos, continuar a fazer modo de vida nas classificativas à volta da Serra do Caldeirão.

No entanto, não obstante a sua indumentária algarvia, certo é que o nosso Rali se tem vindo a aculturar mais para norte no mapa de Portugal.

Debruçando-nos com alguma atenção sobre o seu formato em 2011, verificamos que vai havendo, de mansinho, um progressivo abandono das classificativas sedeadas no Algarve, em detrimento da crescente importância da região do Baixo Alentejo no contexto geral da prova.

Se o abandono das soberbas classificativas da Serra de Tavira – alvo preferencial das equipas do campeonato do mundo para a realização de sessões de testes – já é prova bastante do que anteriormente escrevemos, o ‘esquecimento’ da classificativa de São Brás de Alportel – um certo fiel da balança, estabelecendo uma ideia de continuidade entre sucessivas edições do Rali - no corrente ano constituiu mais uma machadada na separação dos laços entre a prova e o Algarve.

Psicologicamente o Rali parece querer ir de encontro às suas raízes, mais a norte do país.

Se é uma aproximação inconsciente ou efetiva, só o futuro poderá clarificar.

Como nunca nos esquecemos de salientar, não são as diversas roupagens do nosso Rali que nos afastam da prova.

O seu passado e a sua história é para nós um vício: o seu presente, atração fatal e compulsiva.

Cruzando as pernas entre o Minho e o Algarve, o Rali de Portugal continua ao longo de todos estes anos a ser visto por muitos como uma espécie de Sharon Stone transbordante de volúpia.

Em jeito de recordação, ficam de seguida algumas imagens alusivas às duas passagens por São Brás de Alportel, relativas à edição de 2009 do evento maior de automobilismo no nosso país.

RALI DE PORTUGAL/2009:
P.E.C. Nº 15 {SÃO BRÁS DE ALPORTEL '1'} - 16,23 Kms:

ARMINDO ARAÚJO/MIGUEL RAMALHO [Mitsubishi Lancer Evo 9]:
video

DANI SORDO/MARC MARTI [Citroen C4 WRC]:
video

FEDERICO VILLAGRA/JOSÉ DIAZ [Ford Focus RS WRC 08]:
video

KHALID AL QASSIMI/MICHAEL ORR [Ford Focus RS 2008]:
video

MADS OSTBERG/OLE K. UNNERUD [Subaru Impreza WRC 2008]:
video

MATTHEW WILSON/SCOTT MARTIN [Ford Focus RS WRC 08]:
video

MICHAL KOSCIUSZKO/MACIEK SZCZEPANIAK [Suzuki Swift S1600]:
video

MIKKO HIRVONEN/JARNO LEHTINEN [Ford Focus RS WRC 08]:
video

PETTER SOLBERG/PHIL MILLS [Citroen Xsara WRC]:
video

SÉBASTIEN LOEB/DANIEL ELENA [Citroen C4 WRC]:
video

SÉBASTIEN OGIER/JULIEN INGRASSIA [Citroen C4 WRC]:
video

P.E.C. Nº 17 {SÃO BRÁS DE ALPORTEL '2'} - 16,23 Kms:

ARMINDO ARAÚJO/MIGUEL RAMALHO [Mitsubishi Lancer Evo 9]:
video

DANI SORDO/MARC MARTI [Citroen C4 WRC]:
video

FEDERICO VILLAGRA/JOSÉ DIAZ [Ford Focus RS WRC 08]:
video

KHALID AL QASSIMI/MICHAEL ORR: Ford Focus RS 2008]:
video

MADS OSTBERG/OLE K. UNNERUD [Subaru Impreza WRC 2008]:
video

MIKKO HIRVONEN/JARNO LEHTINEN [Ford Focus RS WRC 08]:
video

PETTER SOLBERG/PHIL MILLS [Citroen Xsara WRC]:
video

SÉBASTIEN OGIER/JULIEN INGRASSIA [Citroen C4 WRC]:
video