P.E.C. Nº 123: Quem Todt quer, Todt perde!...


Algumas notas sobre o Rali de Monte Carlo/2012:

I)

Sexta vitória [recorde absoluto] na prova para Loeb, ampliando para sessenta e oito triunfos o seu pecúlio em provas do mundial.

Nada de espantar.

O francês há muito tornou irrisória a fasquia psicológica das trinta vitórias em Ralis do campeonato do mundo.

A etapa de abertura do mundial de 2012 revelou, pela enésima vez, um Sébastien Loeb igual a si próprio: início de prova com algumas cautelas e sem sprints descontrolados, medindo o pulso à especificidade das classificativas alpinas, para depois aumentar a cadência em função do desenrolar do Rali.

Sabendo-se como é o Monte e conhecendo-se quão ténue é a linha que, nele, extravasa o troço e conduz à saída de estrada, o piloto da Citroen atacou quando o devia fazer, defendendo-se quando a mais elementar definição de prudência assim o ditou.

A lei das probabilidades caiu uma vez mais por terra: Loeb foi mais rápido que todos os outros e nem assim rezam crónicas que tenha colocado rodas fora da estrada.

Com Latvala a persistir em alternar o ótimo com o péssimo e Ogier [ele próprio já vencedor em Monte Carlo] impedido de lutar pelas vitórias face à viatura que lhe está confiada, o homem de Haguenau ameaça transformar a procura do campeão do mundo de 2012 num enorme bocejo.

Loeb, alcandorado há muito à condição de uma espécie de irredutível gaulês, foi neste início de temporada altius, citius e fortius.

E rapidus: muito rapidus!

II)

Monte Carlo adivinhava-se problemático para a dupla portuguesa inscrita na prova.

A somar ao completo desconhecimento do terreno e à personalidade inconstante dos troços do Rali, ao Armindo e ao Miguel juntava-se a falta de testes em praticamente todo o período de defeso que antecedeu a prova, um carro que não conheceu desenvolvimentos de maior após o final da temporada anterior, sem esquecer, também, a enorme inexperiência num evento tão específico capaz, ela própria, de baralhar a escolha adequada dos pneus que, tradicionalmente, é um fator decisivo para um bom desempenho nas classificativas do ‘Monte’.

A todos estes tremendos óbices Armindo Araújo e Miguel Ramalho deram uma resposta de grande realismo [à qual não será alheio também o trabalho de sapa, invisível mas indispensável, levado a cabo por Pedro Leal e Luís Ramalho enquanto batedores], não embarcando nos excessos que concorrência mais qualificada se deixou enredar.

Tirando o ligeiro despiste que no primeiro dia de prova lhes ‘roubou’ mais de quatro minutos [a transição abrupta de asfalto seco para um cenário de gelo na estrada é, dada a sua imprevisibilidade, um dos maiores obstáculos que se podem deparar a quem faz Ralis], a equipa lusa foi pautando o seu andamento por um crescendo ao longo dos cinco dias do Monte Carlo, conquistando brilhantemente os seus primeiros pontos da temporada.

III)

A organização do Rali de Monte Carlo reconheceu ter sido um erro esquematizar a prova em seis dias, com mais de quatrocentos quilómetros de troços cronometrados [ler AQUI].

Esse aspeto terá conduzido a uma lista de inscritos, em termos numéricos, algo aquém das expectativas.

Se um Rali disseminado por um período de tempo tão considerável é, por si só, um fator que pela onerosidade acrescida coloca sérias interrogações a potenciais concorrentes [com especial incidência nas equipas não oficiais], a própria organização vê dessa forma ampliados os custos com o evento, sem garantias de competitividade desportiva que os justifiquem.

O evoluir da prova demonstrou que os dois dias finais, sábado e domingo, não trouxeram desportivamente outros focos de interesse além da mera confirmação dos principais lugares da classificação conquistados nos dias anteriores, à exceção da luta pela nona posição na qual intervieram Armindo Araújo e Miguel Ramalho.

Reservar um dia de prova para realizar apenas uma classificativa com escassos cinco quilómetros, ainda que televisionada, foi uma experiência mal conseguida.

Num enquadramento que recomenda forte contenção de custos, era expectável que a aposta nesta esquematização de prova fosse em sentido contrário às necessidades de quem participou no Rali.

A organização reconheceu-o.

Tardiamente a nosso ver.

IV)

Jean Todt, Presidente da FIA, vê-se por esta altura a braços com um problema de promoção do campeonato do Mundo de Ralis, após ter cessado o vínculo que confiava à North One Sport a responsabilidade de assumir tal missão.

Como qualquer outra disciplina do automobilismo, os Ralis precisam de uma estrutura que estabeleça pontes permanentes e eficazes entre a competição e os media.

A ausência de um promotor é prejudicial para as necessidades promocionais de quem investe neste desporto, sobretudo num tempo em que não aparecer mediaticamente é ser relegado para uma condição de quase inexistência.

O contexto em que hoje se faz Ralis é diverso daquele em que Todt interveio diretamente na modalidade, na qualidade de navegador e de diretor de equipa.

Abrir portas à mediatização do campeonato do mundo não se compadece com visões passadistas, muito menos com a recusa em encarar a realidade tal como ela se nos apresenta.

Fortemente conservador no olhar sobre a modalidade, Jean Todt, em declarações públicas no decurso da prova, não escondeu merecer-lhe pouca simpatia o formato de superally [ler AQUI].

Disse o patrão da FIA que desvirtua as questões de índole desportiva ao possibilitar a quem desista num dos dias de prova poder, depois, regressar, e ainda conseguir averbar uma classificação final nos lugares pontuáveis.

Nestas declarações vislumbra-se o tom saudosista e romântico de quem interveio ativamente na época dourada dos Ralis.

O desporto automóvel, porém, mudou muito nestes últimos trinta anos.

Rege-se agora por padrões e interesses mediáticos, não raras vezes sobrepostos às questões meramente desportivas.

Quem compete e investe forte no desporto automóvel espera retorno.

A democratização do acesso à televisão e às novas tecnologias em todo o mundo ‘obrigam’ a que uma prova tenha interesse desportivo e, sobretudo, tenha carros em ação.

É isso que as televisões pretendem.

É isso que os adeptos esperam.

E, claro está, é isso que as marcas e patrocinadores, que olham para um world rally car como uma montra privilegiada de publicitação dos seus produtos à escala global, querem ou até mesmo exigem.

Neste enquadramento as palavras de Todt surgem deslocadas, quanto mais não seja pela contradição de procurar seduzir potenciais promotores para o campeonato sinalizando-lhes a hipótese de virem a ter, em caso de elevado número de abandonos num qualquer Rali, pouco ou quase nada para promover.






A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://luiscezar.blogspot.com/2011_03_01_archive.html

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