P.E.C. Nº 128: Venha daí à boleia; vamos conhecer António Zanini?... - 3ª parte - [Engordar um palmarés, alimentando-o de glórias...]




[Nota introdutória: A leitura do presente trabalho não dispensa a visita às «P.E.C. Nº 4 e 39» deste blogue, nas quais se indica os links que visitamos para a elaboração do mesmo].
 
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É com o estatuto de campeão no seu palmarés que António Zanini se apresenta à partida para a temporada de 1975, e a sua motivação encontra-se, como sempre, nos píncaros.

O automobilismo do país vizinho em geral e os Ralis em particular viviam nesta altura sob um manto de indefinições.

À crise petrolífera do ano anterior que havia produzido danos colaterais na competição automóvel um pouco por toda a parte, somava-se agora em terras de nuestros hermanos um clima político conturbado pronunciando o estertor do regime franquista.

Neste contexto, com as energias de toda a Espanha a centrar-se nos assuntos de natureza política, o índice de atenção que recaia sobre o desporto necessariamente ressentia-se, não obstante a grande popularidade que os Ralis continuavam a demonstrar.

No seio da equipa Seat há mudanças para esta a nova época.

Não obstante a manutenção de Zanini e Salvador Cañellas como seus pilotos oficiais, a equipa catalã vê partir Pradera para os seus rivais da Renault, para aí colocar a sua sabedoria ao volante do potente Alpine A110 1800.

Mantendo a tradição, a temporada começa com a disputa do «Rally Costa Brava», prova que tem o interesse adicional de contar, também, para o campeonato da Europa de Ralis.

A lista de inscritos é, por isso mesmo, deveras recheada, pontificando nomes como Verini e Bachelli tripulando os Fiat 124 Abarth oficiais, Rohrl ao volante do sempre competitivo Opel Ascona, Jean-Claude Andruet e o seu colega de equipa Ballestrieri nos Alfetta 1800, Claude Haldi aos comandos do Porsche 911, Jaroszewick num Fiat 124 Abarth, Wittman com o BMW 2002, aos quais se junta o contingente espanhol onde sobressai a dupla oficial da Seat constituída por Zanini e Cañellas, Pradera estreando o Alpine 1800, sem esquecer, entre outros, um número elevado de pilotos catalães conduzindo os fiáveis Seat de equipas privadas.

O início do Rali é mercado pelo esperado domínio dos Fiat oficiais, seguidos pelos dois Alfetta, Haldi, Zanini, Pradera, Rohrl e Cañellas.

Na terceira classificativa do Rali, em piso de terra, destaca-se Walter Rohrl que averba o melhor tempo, e na qual Haldi, Ballestrieri e Serviá se vêem irremediavelmente obrigados a desistir.


No final da primeira etapa é Verini quem sem surpresa lidera, na frente, respetivamente, de Andruet, Zanini [a realizar uma prova notável], Rohrl, Pradera e Cañellas.

A segunda etapa é marcada pela desclassificação de Cañellas, no final da qual Verini mantém a sua supremacia, Andruet reforça a sua segunda posição, mas já com Rohrl no terceiro posto [o alemão recuperou o atraso inicial com a chegada dos troços em terra, nos quais fez valer a sua lei], encontrando-se Zanini num auspicioso quarto lugar, logo seguido por Bachelli, Pradera, Jaroszewick, Wittman, Serra, Franquet e Falguera [estes três últimos ao volante dos incontornáveis Seat 1430-1800].

A etapa seguinte vê Pradera, agora mais ambientado à sua nova montada, adotar um andamento verdadeiramente endiabrado que lhe permite superar Zanini e Rohrl, mas não o coloca a salvo de uma pequena saída de estrada que acaba por deitar tudo a perder, continuando apesar de tudo em prova.

Com o aproximar do final da prova e do momento das grandes decisões, Verini gere a seu bel-prazer a vantagem entretanto amealhada averbando o triunfo e Andruet acaba por desistir.

Pradera não esmorece perante o percalço anterior e continua em toada de ataque que o leva a um espetacular segundo lugar final na frente de Zanini, com Walter Rohrl a quedar-se pela quarta posição devido a uma penalização por atraso num controlo horário.

Dado ter sido o melhor de entre os pilotos com carros de fabrico espanhol e conseguido a vitória no Grupo 2, Zanini começa o ano como terminou a temporada anterior, liderando a classificação de pilotos na frente, ainda e sempre, do seu antigo companheiro de equipa Juan Carlos Pradera, num renovado duelo em perspetiva, desta feita com montadas distintas.

A caravana do campeonato de Espanha de Ralis deslocava-se, de seguida, para a quinta edição do «Criterium Montesny-Guillerias», novamente com classificativas catalãs como pano de fundo.

Para esta segunda ronda da competição, a novidade era a estreia de Cañellas aos comandos do novo Seat Proto, mantendo-se António no seu fiável Seat 1430 de Grupo 2.

Juan Fernandez fazia a sua aparição no campeonato socorrendo-se do Porsche 911, com o potente carro alemão a servir de ferramenta de trabalho, também, a Etchebers, Aleix e Navarro, pontificando ainda Estanislao Reverter com o seu Alpinche, Pradera, José Maria Fernandez e Puigdellivol todos com os Alpine A110, sem esquecer os Seat 1430 de Grupo 2 preparados com o selo de qualidade da Escuderia Costa Brava de Salvador Serviá, e as participações de pilotos privados como Eleutério Serra, Cid, Franquet, Rottier, Oliveras, Bonet, destacando-se de igual forma os Alfa Romeo 2000 GTV de Grupo 1 ao serviço de Caba e Vinyes.

Com uma lista de inscritos tão recheada antevia-se uma prova difícil para as hostes da Seat, sobretudo pelo receio que a potencia dos Porsche pudesse fazer vincar a sua lei.


A fase inicial do Rali é disputada debaixo dos maus humores de São Pedro, limitando o favoritismo atribuído aos carros alemães, e desde logo é António Zanini quem faz valer todo o seu virtuosismo acercando-se da liderança, seguido de, por esta ordem, Cañellas, Juan Fernandez, Etchebers e Pradera, com as dificuldades das classificativas a ditarem abandonos em série como os de Reverter, Franquet, Rottier, Bonet, Navarro e Aleix.

Na luta pelo triunfo nos carros de Grupo 1, Caba e Vinyes envolviam-se numa luta intensa com os seus Alfa e relegavam Marcos e Parcerisa, ambos com os incontornáveis Seat 1430, para a discussão do lugar mais baixo do pódio.

A primeira fase do Rali é concluída e Zanini comanda com uma vantagem de 20 segundos para o seu colega de equipa, logo seguidos de Pradera, Etchebers e Puigdellivol.

O reinício da prova é aziago para Pradera que se vê forçado a abandonar na sequência de problemas de diferencial.

A neve faz a sua aparição em abundância e as condições de disputa do Rali agravam-se, levando inclusivamente a que alguns troços se tornem impraticáveis.

Num controlo horário, Zanini solicita a um comissário para trocar um pneu que entretanto se havia furado, mas aproveita a autorização para colocar no seu Seat rodas específicas para neve, facto que desencadeia uma reclamação massiva por parte dos seus principais adversários.

A organização acaba por não dar acolhimento a tal protesto e António conclui esta prova como vencedor, na frente de Puigdellivol e Serviá que também se mostraram hábeis a contornar as tremendas dificuldades que a neve e gelo lhes colocaram.

O campeão de Espanha ampliava desta forma a sua liderança no campeonato, dava nova mostra de todo o seu talento e saia com a moral reforçada para o resto da temporada na tentativa de revalidar o título.

A ronda seguinte do campeonato levava agora os concorrentes ao «Rally Firestone» que, tal como a prova de abertura, integrava o lote dos Ralis pontuáveis para o campeonato da Europa.

Bachelli, Verini, Andruet e Ballestrieri faziam a sua reaparição por terras de nuestros hermanos, juntando-se-lhes nomes como Coleman ao volante de um Ford Escort, Sclater num Datsun Violet, Rouget e Schewe ambos aos comandos de Porsches 911, além, claro está, de todo o contingente espanhol como, entre outros, a dupla oficial da Seat, Etchebers, Reverter, Pradera, Bény Fernandez, Castellanos, Crady, Caba, Oñoro, Bohigas, Garcia Campijo, Rizos Muñoz ou Zorrila.


Pradera abandona com problemas de caixa logo na fase inicial do Rali, pelo que para Zanini se facilitavam as contas do campeonato uma vez que um dos seus principais rivais estava fora de combate.

Cañellas via-se a braços com problemas mecânicos atrasando-se irremediavelmente, enquanto Reverter no seu BMW e Crady eram outros dois contendores que cedo veriam terminar as suas pretensões na prova.

Alheio a todas estas peripécias, Verini seguia imperturbável na liderança secundado pelos dois Alfetta, enquanto Zanini se colava aos carros italianos conduzindo de forma magistral perante concorrência de renome.

Na sequência de uma saída de estrada, Andruet não consegue debelar os danos no seu bólide e também fica pelo caminho, enquanto o seu companheiro Ballestrieri vê-se e deseja-se para suster um endiabrado Zanini que luta com unhas e dentes pelo segundo lugar, chegando a alcançá-lo antes da junta da cabeça do motor ceder e obrigar o homem da Seat ao abandono.

No final do Rali, Verini no seu Fiat 124 triunfaria, secundado nos demais lugares do pódio por Coleman [Ford Escort] e Sclater [Datsun], enquanto a Etchebers, quatro classificado final, restaria a consolação de ter sido o melhor espanhol na prova.

Não obstante a sua desistência, ainda assim António mantinha a liderança na classificação do campeonato mas agora apenas com dois pontos de vantagem sobre Etchebers.

No calendário do campeonato de Espanha seguia-se o já clássico «Rally Vasco-Navarro», marco importante por se tratar, afinal, do regresso de Jorge de Bagration às provas de estrada, logo ao volante de um sempre espetacular Lancia Stratos.

Animado pelo resultado no «Rally Firestone», Etchebers é o mais veloz na classificativa de abertura, seguido por Bagration, domínio que se estenderia a toda a fase inicial do Rali mas desta feita com Pradera e Cañellas a secundarem o piloto do Porsche.

O decurso da prova ficaria marcado, uma vez mais, pela neve e gelo, e Pradera era vítima da sua impetuosidade, despistando-se, facto que o atrasa consideravelmente.

Reverter também não segurava o seu Alpinche dentro do limite dos troços e sofria um aparatoso acidente que o leva a ficar algo contundido, enquanto Bagration se depara com diversos problemas elétricos no seu Lancia que o privam de permanecer em prova.


Neste cenário de dificuldades emerge, claro está, um Zanini algo cuidadoso em virtude do estado traiçoeiro das classificativas, seguindo no terceiro lugar atrás de Etchebers e Cañellas.

A segunda etapa da prova, ainda em sempre debaixo de neve, provoca a desistência de Cañellas com problemas de radiador.

O estado dos troços é deveras complicado para todos os concorrentes e Zanini, primeiro concorrente na estrada, vê-se a certa altura atascado com o seu Seat num banco de neve, obstruindo inadvertidamente a classificativa aos concorrentes que se lhe seguiam.

Chega Etchebers ao local e, numa primeira fase, tenta ajudar Zanini a prosseguir em prova, mas vendo frustrados os seus intentos tenta ele próprio por todos os meios passar pelo inamovível Seat e continuar o Rali: não consegue.

Os concorrentes vão chegando e a barreira para prosseguir em prova é intransponível, originando um congestionamento de todo o pelotão.

Com persistência e à base de toques sucessivos no Seat de Zanini, Etchebers consegue ao fim de algum tempo abrir caminho e continuar o seu Rali, conquistando a vitória, enquanto Zanini era com alguma polémica desclassificado por alegadamente não ter facilitado ultrapassagens ao ser alcançando pelos seus adversários em pleno troço.

Puigdellivol seria o segundo classificado ao passo que Garcia Campijo, num Seat 1430 privado, ocuparia surpreendentemente o lugar mais baixo do pódio, para o que muito contribuiria ter sido o mais veloz na classificativa onde os seus mais diretos adversários ficaram parados.

No campeonato Etchebers era agora o novo líder com 177,6 pontos, relegando Zanini para a segunda posição com 131,2 pontos, enquanto Pradera era terceiro com 118,8 pontos.

No rescaldo da prova e na polémica que se instalou em torno dela, a Federação Espanhola viria sem apelo nem agravo a sancionar António Zanini implacavelmente com quatro meses de suspensão da sua licença desportiva, dando desta forma uma forte machada nas pretensões que o catalão tinha na renovação do ceptro.

Obrigado a ficar de fora em duas provas do campeonato, é na condição de espetador que António assiste à vitória de Reverter no «Criterium Luís de Baviera» e ao triunfo de Etchebers no «Rally de Orense», olhando ainda à distância para o périplo internacional que a sua equipa agora ensaiava com a presença nas «24 horas de Ypres» e no «Rally de Portugal», onde o campeão espanhol em título viria a ser substituído pelo seu compatriota Rizos Muñoz.


Apesar de todas as contrariedades, Zanini não era homem para se resignar.

O seu atraso pontuável era enorme, mas o facto de nada ter a perder colocava os seus índices de motivação em patamares elevadíssimos, confiança que também se reforçava com o trabalho de casa que a Seat realizaria neste período.

A reaparição do homem-forte da Seat seria no «Rally Príncipe de Astúrias», desta feita com a estreia de um revolucionário Seat 1430 Proto de 16 válvulas que introduzia um conceito vanguardista na conceção de motores para automóveis de competição.

Na recuperação do atraso que tinha nas contas do campeonato, a prova não podia começar melhor para o piloto da Seat, já que Etchebers nem sequer consegue sair do parque fechado por avaria mecânica e logo aí consuma a sua desistência.

Logo na primeira classificativa Genito Ortiz aos comandos do Simca 1200 oficial depara-se com problemas de motor e imediatamente fica fora de prova, enquanto Pradera também sofre percalços mecânicos que o impedem de prosseguir e Lucas Sainz, noutro Alpine, sofre uma saída de estrada debatendo-se com problemas elétricos durante as classificativas noturnas.

Zanini permanece incólume a todas estas dificuldades e lidera o Rali cerca de meio minuto na frente do seu companheiro de equipa, denotando grande entrosamento com o seu novo automóvel e relegando o terceiro classificado, Echave, para uns já distantes cinco minutos de diferença.

Com tamanha vantagem, a equipa da Seat dá ordens para que os seus dois pilotos não se ataquem entre si, e por conseguinte é de forma natural que Zanini averba o triunfo na frente Cañellas, numa operação de elevada rentabilidade em termos de campeonato uma vez que este último é agora terceiro da geral com 181 pontos, Zanini quarto com 179,2, mas encurtando significativamente distâncias para Etchebers [líder: 337,6 pontos] e Pradera [segundo: 184,2 pontos] e, mais importante, mantendo incólumes as hipóteses de lutar pela vitória no campeonato.

A nova arma da Seat, o proto de 16 válvulas, revela-se um enorme salto em frente em termos competitivos e é animado pela vitória nas Astúrias que Zanini entra em ação na prova seguinte, o «Rally del Sherry».

Novo triunfo sem contestação para o aríete da Seat, secundado a contento pelo seu companheiro de equipa, com Etchebers a repetir o abandono do Rali anterior, pelo que nas contas do campeonato Zanini recuperava grande parte da desvantagem no campeonato e chegava agora à segunda posição na respetiva tabela classificativa.


Segue-se no calendário o «Rally del Ferrol» que, no papel, premiava os carros mais potentes, sobretudo pelo ótimo piso das classificativas.

Nada que esmorecesse os homens da equipa de Martorell, que partiam animados em contrariar o poderio dos adversários.

A prova foi disputada ao segundo em todas as principais posições da classificação geral, mas Etchebers ao volante do seu Porsche decorado com as cores da Rothmans acabaria por impor a potencia do seu bólide, secundado por Pradera [que no decurso da prova seria confrontado conhecimento da morte do seu chefe de equipa, Polo Villamil, num acidente de trânsito quando seguia as incidências do Rali] e Jorge de Bagration que assim obtinha um resultado condizente com os seus pergaminhos nesta época de regresso aos Ralis.

Zanini conseguia um apertado quarto lugar final na frente de Cañellas pela escassa margem de três décimas de segundo, que não evitaria burburinho no parque de assistência quando se soube que ao campeão de 1972 havia sido aplicada no final do Rali uma sanção de… meio segundo!

Com o aproximar do final da época, a 23ª edição do «Rally de España» apresentava-se crucial para o desfecho do campeonato, uma vez que tinha coeficiente máximo em termos pontuais.

Com uma segunda etapa constituída por troços em terra particularmente duros para as mecânicas, Zanini e o seu fiável Seat constavam do lote de favoritos à vitória final.

As características do Rali e a necessidade de pontuar, levavam Etchebers excecionalmente a preterir o habitual 911 substituindo-o por um menos competitivo BMW 2002 TII de Grupo 1, com o qual confiava poder transpor com êxito as anunciadas dificuldades desta etapa do calendário.

Da lista de inscritos constavam nomes como António Borges [que ensaiava aqui mais um passo rumo à internacionalização da sua carreira] no seu Porsche, Bagration pilotando o Stratos, Pradera aos comandos do seu Alpine, Haldi no Porsche, Lezama em Ford Escort, Reverter no BMW 2002 de Grupo 2, Lucas Sainz também em Alpine, além, claro está, da dupla de pilotos oficiais da Seat.

A dureza das classificativas eram o terreno ideal para Zanini fazer jus aos seus dotes, e o catalão não deixaria créditos por mãos alheias averbando perentoriamente a melhor pontuação de toda a época a seguir à conquistada no «Rally Costa Brava», continuando o seu processo de recuperação pontual face a Etchebers.


Faltavam agora 3 provas para o final da temporada: «Rally 2000 Virajes», «Rally Cataluña» e o «Rally Costa del Sol», todas elas com coeficientes distintos.

Uma vitória na Catalunha era imprescindível, mas mesmo nos outros Ralis seria fundamental obter boas classificações uma vez os regulamentos prescreviam que a cada piloto em termos de campeonato só contariam as sete melhores classificações averbadas durante a época, e Etchebers, não nos podemos esquecer, encontrava-se confortavelmente isolado no primeiro lugar da tabela de pilotos.

O «Rally 2000 Virajes» não podia ter começando da pior maneira à dupla Zanini/Adam, desclassificados da prova por alegadamente terem perdido o roadbook da prova, não obstante circular no parque da assistência o rumor, nunca provado, segundo o qual o mesmo lhes teria sido subtraído.

Esta desclassificação consubstanciava um sério revés nas aspirações de António ao título, obrigando-o a triunfar na Catalunha e esperar que o seu rival Etchebers não conseguisse aí um resultado de vulto, ainda para mais quando o homem da Porsche averbaria a vitória no «2000 Virajes» na frente de José Maria Fernandez [também ao volante de um dos carros da marca alemã], encerrando Puigdellivol os lugares do pódio no seu Alpine, enquanto Cañellas se via importunado por diversos problemas mecânicos que não lhe permitiam melhor que o quinto lugar final.

Chegava-se agora ao decisivo «Rally de Cataluña», nesta temporada a completar a sua décima primeira edição.

Uma vitória de Zanini torná-lo-ia campeão, uma vez que até esta altura já tinha obtido seis resultados, todos eles bastante conseguidos em termos pontuais, enquanto Etchebers havia somado dez classificações, embora no global não tão expressivas quanto as do seu adversário da Seat.

O homem da Porsche tinha de descontar os seus quatro piores resultados, o que o deixava com pouca margem pontual face a Zanini, e era neste contexto de ‘tudo ou nada’ que ambos se apresentavam à partida para esta crucial etapa do campeonato.

A equipa de Martorell apostava todas as suas fichas neste Rali, tendo realizado nos dias que antecederam a prova um apurado trabalho de otimização dos seus carros, além de reforçar o quadro de elementos da sua equipa de assistência ao longo das classificativas para que nada falhasse.

Do lado da Porsche, Etchebers punha a fasquia também muito alta ao apresentar-se á partida com um novo e imponente Carrera.


Os dados estavam lançados e as emoções prometiam subir alto.

O desenrolar da prova viria a tornar-se uma magistral demonstração de categoria por parte do principal piloto da Seat.

Rapidíssimo e desconcertante, António puxava dos galões para fazer uma exibição extraordinária conseguindo o triunfo em dez das dezasseis classificativas, deixando para Etchebersapenas’ quatro melhores registos, enquanto Cañellas e José Maria Fernandez conseguiriam, cada um, o protagonismo num único troço.

Etchebers ainda penalizaria num controlo e ver-se-ia suplantando por Cañellas na luta pelo lugar intermédio do pódio, em mais uma dobradinha da equipa de Martorell.

António Zanini sagrava-se novamente campeão de Espanha de Ralis, numa temporada em que revelaria em inúmeras ocasiões um talento tremendo, capaz de o colocar perante a generalidade dos observadores, de forma quase incontestada, como o mais categorizado piloto de Ralis do país vizinho.

A partir daqui, com dois títulos absolutos no bolso e já sem rigorosamente nada a provar, só uma eventual internacionalização da carreira permitiria prosseguir o percurso ascensional da grande estrela dos Ralis em terras de nuestros hermanos

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O tricampeonato era o desiderato pelo qual António se batia à partida da temporada de Ralis neste ano de 1976, reforçado pela motivadora intenção da equipa Seat internacionalizar o seu projeto desportivo, com algumas aparições em várias das mais emblemáticas provas do velho continente europeu.

Para o início de temporada a estrutura de Martorell, ambiciosa e com assumido sentido de risco e aventura, assestava baterias ao «Rali de Monte Carlo».

Era a estreia de António Zanini numa prova de tamanha dimensão, tida à época como o mais difícil Rali em todo o mundo.






A deslocação da equipa comandada por Perez de Vargas até paragens alpinas não seria isenta de peripécias, uma vez que na zona de fronteiras em Andorra se verificou que a documentação dos carros havia ficado na sede da equipa, questão que se ultrapassaria com uma deslocação em tempo recorde desde as oficinas até ao principado andorrenho para a entrega dos livretes em causa.

A viagem prosseguiria sem mais sobressaltos até às tradicionais classificativas alpinas do norte de Itália, para onde estavam aprazados, afinal, os primeiros momentos de competição da temporada.

Ciente das dificuldades e conhecedor das limitações decorrentes de não conhecer as classificativas, António inicia o «Monte» de forma prudente e é décimo oitavo classificado após os primeiros troços cronometrados, na frente precisamente do seu colega de equipa.

Cañellas havia começado a prova em toada de ataque destacando-se do seu companheiro na Seat, mas um excesso acabaria por conduzi-lo a um pião na segunda classificativa que o relegaria nesta altura para a décima nona posição da geral.

Ainda assim, os 'táxis' [como eram depreciativamente apelidados pela grande maioria dos seguidores do «Rali de Monte Carlo» que não esperavam deles mais que um andamento similar aos rudimentares Polski Fiat da Polónia] conquistavam simpatias pelo sua boa prestação, sobretudo se atentarmos a que se travava de uma estreia na prova em torno do principado monegasco.

Num Rali onde a estratégia é decisiva, Perez de Vargas decide num golpe de asa equipar os seus  carros com pneus para gelo o que leva os dois Seat a encerrar a lista dos dez primeiros classificados após a primeira fase do Rali, facto tão ou mais admirável quando se sabia estarem ainda em prova todos os grandes vultos como Alén, Kullang ou Cambiaghi entre outros.

Chega, então, o Burzet com os seus lendários e temíveis 43 quilómetros.

Fazendo jus a sua história, a tradicional classificativa faria mossa, entre outras também nas hostes da Seat.

Cañellas é vítima da sua impetuosidade, não evitando uma saída de estrada que o faz perder cerca de uma hora para retomar o Rali.


Zanini não escapa, também, às armadilhas do Burzet.

Um pequeno toque leva a que o radiador do seu automóvel fique obstruído, obrigando-o a refrear o andamento para evitar o sobreaquecimento do motor.

Os trabalhos de reparação a que o incidente obriga, provocam onze minutos de penalização a Zanini por entrada tardia num controlo horário, relegando-o para a décima quarta posição antes da etapa final.

António é agora o único representante das cores da Seat, uma vez que Cañellas se viu desclassificado por excesso de penalizações devido a sucessivos atrasos na zona de controlos, e decidia apostar numa toada relativamente calma quanto mais não fosse pelo carro dar mostras de a qualquer momento soçobrar mecanicamente, tamanhos os problemas que revelava, sobretudo ao nível de motor e transmissão.

Mais intervenções da equipa de mecânicos conduzem a nova penalização de cinco minutos, e a partir daqui mais não restava ao bicampeão espanhol que conservar o seu décimo segundo posto, dado se mostrar improvável subir mais degraus na classificação e atrás de si não ter ninguém verdadeiramente a importuná-lo.

A estreia numa prova tão difícil tinha sido deveras auspiciosa, validando a aposta da marca espanhola na internacionalização do seu projeto, num «Monte» que viria a ser ganho por Sandro Munari no seu Stratos, na frente de Waldegaard e Darniche em carros idênticos, restando a Rohrl um honroso quarto lugar [primeiro ‘não Lancia’] aos comandos de um Opel Kadett.

A vigésima quarta edição do «Rally Costa Brava» abria as hostilidades em Espanha, e da recheada lista de inscritos avultavam nomes já conhecidos como Cañellas e Zanini em defesa das cores da Seat, Salvador Serviá e ‘Teri’ Serra ao serviço da equipa Seat Juncosa, Lezama no Ford Escort RS, Caba, Hansi Babler, Pedro Bonet, Bohigas, entre vários outros nomes de proa no firmamento dos Ralis do país vizinho, a eles se juntando novamente António Borges, ainda e sempre aos comandos do seu fiel Porsche.

Logo na primeira classificativa Zanini mostra ao que vem, averbando o melhor tempo, mas com a escassa margem de um segundo sobre um aguerrido Lezama.

Este início deveras auspicioso viria a ter continuidade logo na especial seguinte, onde o campeão de Espanha em título volta a averbar o melhor tempo, desta feita empatado com o seu colega de equipa, Salvador Cañellas.


A classificativa seguinte a cumprir pela caravana era ‘Coll de Ravell’, na qual Cañellas não escaparia a uma violenta saída de estrada decorrente de problemas de travões no seu Seat, deixando caminho livre a Zanini para começar a época com o pé direito.

No final da primeira etapa o piloto da Seat dispõe já de um minuto de vantagem sobre Lezama, relegando para os lugares seguintes da classificação Babler, Perejoan, Borges, Trabado, Pedro Bonet, Serra e Eudaldo Bonet, a maioria deles tripulando os populares Seat 1430-1800 de Grupo 4, enquanto no Grupo 1 Caba liderava 21 segundos na frente de Bény Fernandez.

A segunda etapa, em piso de terra, não trazia alterações de maior à classificação geral, à exceção da ascensão de um espetacular Borges ao terceiro lugar da geral, e à notável recuperação que entretanto Serviá encetava, colocando-o provisoriamente como quinto classificado.

Regressando ao asfalto para cumprir a terceira e derradeira etapa do Rali, Zanini manteve o domínio já esperado gerindo com sabedoria a vantagem amealhada, relegando para segundo um extraordinário Serviá, seguido no lugar mais baixo do pódio por Lezama, com o português Borges a concluir num excelente quarto lugar final na frente de um esforçado ‘Teri’ Serra, que nesta prova competiu com um Seat 1430 mais adaptado aos circuitos de velocidade que às provas de estrada.

Na luta dos carros de Grupo 1, Caba acabaria por levar a melhor sobre Bohigas.

A temporada começava para Zanini, portanto, da mesmíssima forma que havia terminado a anterior: no lugar mais alto do pódio.

A caravana dos Ralis tinha como destino seguinte o «Criterium Montseny-Guilleries», agora na sua sexta edição.

A dupla de pilotos da Seat apresentava-se à partida desta prova munida dos 1430 de Grupo 4, tendo no seu horizonte como principais rivais Jorge de Bagration no Stratos, bem como a armada Porsche constituída por Marc Etchebers e José Maria Fernandez.

Nas hostes da equipa de Martorell, os sinais de alarme são dados logo nas verificações técnicas iniciais onde o carro de Zanini expele um preocupante fumo.


A equipa decide proceder à mudança de motor, substituindo a unidade danificada por uma outra preparada para o Rali seguinte, que não estava sequer testada.

O vencedor da prova anterior iniciaria, pois, a prova com bastantes cautelas, deixando o protagonismo por conta de Cañellas que não se fazia rogado e saltava para o comando, seguido por Fernandez, Bagration e Etchebers, com Zanini a quedar-se por um pouco usual quinto posto.

Salvador Cañellas não iria, porém, muito longe, e a sua clássica má fortuna voltava a ditar leis levando o homem da Seat a uma saída de estrada que o faria perder 5 minutos, comprometendo irremediavelmente o seu Rali.

Fortemente motivado pela liderança do campeonato e denotando uma perfeita simbiose com o seu carro, Zanini passa a uma toada de ‘maximum attack’ que o leva, perante uma concorrência atónita, à liderança da prova, beneficiando, é certo, da penalização que Fernandez sofre por se ter perdido e ter chegado tardiamente a um controlo horário.

Nos lugares mais baixos do pódio concluem, respetivamente, Bagration [feliz com este resultado após largo tempo de inatividade] e um inconsolável Fernandez que lhe viu fugir um triunfo que já se adivinhava como certo.

António ampliava a sua vantagem nas contas do campeonato e tinha agora 141,4 pontos, seguido pelo regular Cláudio Caba com 84,2 pontos e Marc Etchebers com 62 pontos.

A vantagem era confortável mas nada podia ser dado como adquirido, uma vez que ainda havia muitos quilómetros de classificativas pela frente e a concorrência seguramente não baixaria os braços.

O «Rally Firestone» era o evento seguinte no calendário, pontuável também para o campeonato da europa de Ralis.

A equipa oficial da Ford apostava forte para esta prova fazendo deslocar a Espanha os seus reputadíssimos pilotos que dispensavam apresentações: Timo Makinen e Roger Clark.


Mas os carros da marca da oval azul não se ficariam pela sua representação oficial, uma vez que a John Taylor era confiado também um Escort MK II.

Dos concorrentes ao campeonato de Espanha destacava-se a ausência da lista de inscritos por parte de Jorge de Bagration, compensada pela reaparição de Pradera nas provas do país vizinho ao volante do Alpine 1800.

Na primeira classificativa é Makinen quem impõe a cadência, vencendo na frente de Fernando Lezama com uma margem de 3 segundos, encontrando-se mais atrás Cañellas e Zanini, este empatado com Clark.

Arceniega-Mercadillo’, com 14 quilómetros, é a especial seguinte e Makinen volta a triunfar, mas desta feita com uma escassa e premonitória vantagem de meros dois segundos perante a dupla da Seat.

Os dados estavam lançados e os 'táxis' apresentavam-se subitamente algo ameaçadores à credenciada representação internacional.

António Zanini, motivado pelos nomes dos adversários em compita, começava a colocar em prática todo o seu virtuosismo.

A sua determinação inquebrantável fazia adivinhar o que se podia seguir.

A segunda passagem por ‘Arceniega-Mercadillo’ marca a primeira vitória do piloto da Seat neste Rali, mas para que não restassem quaisquer dúvidas o catalão prosseguiria a sua senda imparável averbando o melhor tempo nos nove troços seguintes, secundado a contento por Cañellas com quatro triunfos em classificativas, números suficientemente expressivos para deixarem profundas marcas nas hostes da Ford que assistiam, incrédulas, à demonstração de arte do campeão espanhol.

Clark abandona a prova e a Makinen era confiada a secreta esperança de na fase de terra procurar pôr cobro à supremacia dos comandados de Perez de Vargas.

Em vão.


Zanini, sobretudo ele, também na gravilha expressava a sua enorme classe e não daria a menor veleidade a Makinen no final da prova, com Cañellas uma vez mais a não conseguir segurar o seu carro nos limites da estrada, vendo-se ultrapassado pelo nórdico ao serviço da Ford no final do Rali.

O nome de António Zanini transpunha os Pirenéus e começava a soar bem forte além-fronteiras, logo agora que à confortável liderança do campeonato de Espanha somava, também, o primeiro lugar na classificação do campeonato da Europa de Ralis.

O «XVII Rallye Fallas» seguia-se na cronologia do calendário e, dada a sua proximidade com o Rali anterior, anteviam-se dificuldades para a caravana ao longo da etapa valenciana do campeonato, uma vez que o tempo para cuidar das maleitas dos carros entre provas era muito escasso.

Da lista de inscritos constava sem surpresa os nomes de maior protagonismo da temporada, onde além da dupla da Seat diziam presente os incontornáveis Etchebers, Bagration, Bény Fernandez entre diversos outros.

O início da prova ficaria marcado pelos habituais problemas de Salvador Cañellas, desta vez a braços com uma junta da cabeça queimada que o levaria ao abandono.

Etchebers, motivado, entrava com o pé direito e comandava a prova, mas seguido na linha do horizonte por António que rapidamente forçou o andamento aproximando-se do homem da Porsche.

A falta de tempo para revisões mecânicas antes da prova viria afinal a condicionar vários  concorrentes, uma vez que Zanini abandonou com problemas de motor quando atacava a liderança, e Bény e Jorge de Bagration também ficariam pelo caminho escancarando as portas do triunfo a Marc Etchebers, que não se fez rogado vencendo na frente de Cláudio Caba ao volante do Alfa Romeo de Grupo 1.

Não obstante este abandono o campeão de Espanha matinha a liderança do campeonato com 233 pontos, mas via esfumar-se boa parte da vantagem, ainda assim considerável, para Caba e Etchebers, que, por esta ordem, seguiam o piloto da Seat na classificação geral de pilotos.


O «Criterium Alpin» era novo passo na aprendizagem internacional da estrutura da Seat, constituindo novo ensejo para a equipa reforçar a excelente imagem deixada até então [não obstante a sinuosidade e os muitos ganchos das classificativas da prova que eram no papel desfavoráveis aos pesados carros espanhóis], com a motivação adicional de à partida constarem nomes como Darniche em Lancia Stratos, Saby aos comandos de um Alpine A110, Vincent tripulando um Alpine A310 ou Jean-Louis Clark no Opel Kadett.

A prova começaria mal para Zanini que na fase inicial, não obstante se encontrar dentro dos dez primeiros classificados, não evitaria uma saída de estrada, abandonando logo aí, naquela que se viria a revelar uma má operação em termos das contas do campeonato europeu onde o catalão estava em posição de grande destaque.

Regressando ao campeonato de Espanha, no calendário estava assinalado o «Criterium Pub Seis Peniques» como o Rali que se seguia.

As primeiras etapas de asfalto dariam forte protagonismo a Bény Fernandez que no seu BMW 2002 impunha uma cadência muito forte, seguido todavia de perto por Zanini.

Salvador Cañellas, fazendo jus ao infortúnio que o parecia navegar no Seat, abandonaria uma vez mais ainda o Rali na sua fase inicial e Bagration era terceiro, um pouco na expetativa para perceber como seria a luta entre os categorizados adversários à sua frente, seguido por Trabado aos comandos do seu Seat 1430 privado.

Com a chegada dos troços em gravilha, Zanini rapidamente resolve a contenda a seu favor impondo um andamento inalcançável, deixando um conformado Fernandez no lugar intermédio do pódio, seguindo-se-lhes Bagration, Trabado e Rosende.

Porém, nas verificações técnicas após a prova, no Seat do líder do campeonato seriam detetadas irregularidades na embraiagem que conduziriam à sua desclassificação imediata, mas uma vez que nenhum dos adversários diretos na corrida ao título havia pontuado, ainda assim o percalço não se revelaria especialmente problemático na classificação do campeonato, onde Zanini mantinha confortável liderança e Cañellas não conseguia nesta altura melhor que o sexto lugar.

O périplo europeu da equipa de Martorell prosseguia com a participação nas «24 horas d’Ypres», um Rali tradicionalmente muito difícil e no qual o desconhecimento das classificativas se adivinhava  um óbice complicado para os homens da Seat.

Às adversidades, os homens dos 'táxis' respondiam com toda a sua determinação que no final de uma prova soada os levariam a um portentoso resultado conjunto: Cañellas, sem nada a perder, em segundo [deixando a Rohrl no Opel Kadett oficial os louros da vitória] e um cauteloso Zanini em quarto [atrás de Lars Carlsson no outro Kadett oficial], o que conseguia manter o campeão de Espanha em título no segundo lugar da classificação de pilotos do campeonato da Europa.

Da Bélgica os comandados de Perez de Vargas seguiam agora para leste, entrando na disputa do prestigiado «Rali da Polónia».


A prova antevia-se uma vez especialmente difícil dada a valia da concorrência, mas António Zanini e Salvador Cañellas apostavam na fiabilidade dos seus carros e no capital de experiência entretanto adquirido em Ralis anteriores para contrapor aos adversários.

Zanini voltaria ser prodigioso averbando no final do Rali um sensacional segundo lugar, apenas superado pelo piloto local, Jaroszewick, que socorrendo-se de um competitivo Lancia Stratos e beneficiando do amplo conhecimento do terreno conquistaria uma esperada vitória.

O espanhol via-se superado na classificação de pilotos do europeu precisamente pelo polaco Jaroszewick, mas matinha o segundo posto ultrapassando o anterior líder, o credenciadíssimo Bernard Darniche.

Na parte inicial desta etapa polaca do campeonato da Europa, Zanini ainda mostrou todo o seu virtuosismo liderando com autoridade no meio da neve e gelo que tomaram de assalto as classificativas, apenas soçobrando quando as condições atmosféricas normalizaram e Jaroszewick viu reunidas, então, as condições para fazer valer os predicados do seu bólide.

Trinta segundos separariam os dois primeiros classificados no final do «Rali da Polónia», relegando para terceiro, mas já a grande distância, Komornicki ao volante de um Polski Fiat 1600.

A aventura internacional da Seat tinha com destino seguinte o duríssimo «Rali de Chipre», naquele que se adivinhava vir a constituir um teste extremo à robustez e fiabilidade dos carros espanhóis.

A equipa prepararia com mil atenções a prova cipriota, como afinal de contas de uma participação no Safari se tratasse.

Dizer que a edição de 1976 do «Rali do Chipre» foi demolidora é ser benévolo.


Ao final do mesmo apenas chegaram 3 carros, e apenas porque a organização decidiu a certa altura encurtar a distância total da prova para obviar aos sérios riscos de não haver qualquer concorrente no controlo de tempos final.

Da lista de inscritos constavam os três primeiros classificados do campeonato da Europa: Jaroszewick, Zanini e Darniche.

À última hora o francês, avisado das características da prova, optaria por não comparecer deixando as despesas do campeonato para os seus dois rivais.

A fase inicial do Rali mostrou Jaroszewick bastante motivado pela liderança do campeonato, a fazer valer a performance do seu Stratos para se destacar na liderança, mas rapidamente uma falha elétrica o obrigaria ao abandono.

Passava a ser Mehta o senhor que se seguia no lugar mais alto da classificação, mas rapidamente Zanini passava das cautelas ao ataque apossando-se do comando do Rali, enquanto Cañellas somava mais um abandono decorrente de problemas de motor.

A prova ia fazendo das suas provocando imensos abandonos, e a Seat via-se na necessidade de uma ampla intervenção mecânica no seu único carro ainda em prova, obrigando António a uma penalização de vinte e dois minutos.

Mehta, por seu turno, não escaparia a uma penalização num dos controlos horários decorrente de se ter atrasado devido… à satisfação impreterível de necessidades fisiológicas!

Após um forcing fortíssimo para recuperar a segunda posição, Zanini deparar-se-ia com o final prematuro da prova privando-o de levar ainda mais longe os seus intentos, mas ainda assim, concluída a operação internacional da Seat nesta época de 1976, o seu piloto mais cotado encontrava-se no terceiro lugar da classificação dos pilotos do campeonato da Europa, algo quase inimaginável quando a temporada começou.

O ano desportivo avançava a passos largos para o final, e a partir desta altura cada prova tinha um caráter verdadeiramente decisivo.


De volta ao país de origem, a estrutura da Seat tinham agora na disputa do «Rali de Espanha» o desafio seguinte.

Para António adivinhava-se uma árdua batalha, desta feita dividida em duas frentes.

Por um lado as contas do campeonato da Europa, onde mesmo jogando em casa ao piloto da Seat se colocava o tremendo desafio de superar Darniche e Jaroszewick.

Em paralelo jogava-se a cartada decisiva relativamente ao campeonato de Espanha, em que o cenário se adivinhava mais fácil pois concluir o Rali significaria desde logo o tricampeonato.

A prova começava de forma algo inesperada, já que Jorge de Bagration beneficiando do conhecimento do terreno impunha a rapidez do seu Stratos ao carro gémeo do polaco Jaroszewick, aproveitando também uma saída de estrada e problemas no acelerador no bólide de Darniche.

Zanini, a braços com uma caixa de velocidades pouco colaborante, nada mais podia fazer que defender a sua quarta posição e ver a armada Lancia distanciar-se na frente do Rali.

A luta pela vitória no Rali, muito intensa, revelar-se-ia aziaga para Jaroszewick, pois o piloto da Polónia não conseguiu evitar uma saída de estrada na classificativa ‘Ciudad Ducal’ que poria fim imediato às suas aspirações no campeonato da Europa.

O final da prova confirmaria a supremacia de Jorge de Bagration, secundado por Darniche e António Zanini.


O piloto de Viladrau conquistava com indesmentível classe o seu terceiro consecutivo campeonato de Espanha, e beneficiando do abandono de Jaroszewick ascendia à segunda posição na tabela de pilotos do europeu.

Com o título no bolso, a equipa opta por não fazer deslocar o seu mais destacado piloto ao «Rally 2000 Virajes», canalizando o trabalho para a preparação do novo proto de Grupo 5, de injeção e suspensão traseira independente.

É com esta nova arma, confiada às mãos hábeis de Zanini, que a equipa se apresenta à partida para a última etapa da temporada de 1976: o «Rally Cataluña».

Um carro novo numa prova que se sabia muito dura [viriam a conclui-la 37 dos 81 carros que a iniciaram], traduziu-se num Rali sem grande motivos para recordações, não obstante o campeão de Espanha ainda ter vencido das classificativas.

Jorge de Bagration triunfaria novamente, na frente de Cañellas [com um ‘convencional1430-1800] e de José Maria Fernandez no seu habitual Porsche.

António Zanini sagrava-se uma vez campeão de Espanha e culminava uma época de ouro como vice-campeão da Europa de Ralis.

Nos palcos mais difíceis e perante os mais coriáceos adversários, Zanini mostrava a toda a Europa a excelência da sua condução, marcando pontos como piloto versátil e rapidíssimo em todo o tipo de pisos, empolgante quando necessário, estratega quando preciso, extremamente fiável e quase à prova de erros, vincando os seus talentos ao volante de um carro na maioria das ocasiões menos poderoso que o dos adversários diretos.

Três títulos de campeão seria para muitos ótimo, para outros satisfatório.

Para Zanini era simplesmente… nada!

- continua -

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