P.E.C. Nº 133: Este é um Rali 'mad(s) in Portugal'!...


Após a conclusão da última classificativa do Rali de Portugal de 2012 [‘Sambro 2’], não se colocou, como seria natural, um ponto final na edição da prova.


A polémica prosseguiu após as verificações técnicas, teve o seu momento alto quando a equipa oficial da Citroen ventilou publicamente a hipótese de apelar da desclassificação do seu único piloto que concluiu a prova, e as interrogações, que prometiam fazer o seu curso neste género de situações, só sanaram a partir da altura em que a marca francesa declarou não pretender dar sequência ao protesto que antes havia equacionado, permitindo assim, então, redigir-se a história final do Rali de Portugal do presente ano.


Para a edição finda no passado fim-de-semana, a prova exibiu-se ao público vestindo indumentárias diversas: do smoking formal da tarde de quinta-feira passou a traje de noite nas últimas horas desse dia, deu lugar ao impermeável e às galochas na manhã de sexta-feira, envergou no sábado uns práticos jeans e anorak tipo corta-vento, para recuperar no domingo o guarda-chuva e o pullover acolhedor.


Fazendo jus à sua própria tradição, o Rali de Portugal foi difícil para os concorrentes e fértil em peripécias onde quase todos tiveram a sua própria história para contar.


Deixamos de seguida algumas impressões pessoais sobre a prova:


I)



Para nós, Zona-Espectáculo, o evento este ano tratou-nos com aspereza.


A intempérie que se abateu na sexta-feira em plena Serra de Tavira, não foi apenas madrasta para carros e pilotos.


Enquanto o nosso material de filmagem tinha uma espécie de saída de estrada devido ao frio e à enorme bátega de água, desistindo de prosseguir em prova, já a máquina fotográfica padecia de insolúveis problemas de alimentação ao nível da bateria, que também prematuramente a colocavam irremediavelmente fora de combate.


Por outro lado, os nossos planos de acompanhar o maior número possível de troços capotavam aparatosamente perante as dificuldades de acesso e saída de algumas das classificativas.


Num cenário de tamanhas agruras, valeram-nos então os carros e as suas prestações de eleição, bem como a espetacularidade e excelência de condução de alguns dos melhores pilotos do mundo.


II)



Foi aí, no campo onde tudo conta e tudo afinal se joga, que o prazer de assistir à reabilitação de Daniel Sordo para a alta-roda da modalidade, constatando com indisfarçado voyeurismo as sevícias que o espanhol infligiu impiedosamente ao acelerador do seu Mini durante a totalidade da prova, ou seguir de perto o nocaute com que Petter Solberg brindou Jari-Matti Latvala no combate feroz pelo piloto mais espetacular do Rali, compensaram largamente as pequenas desventuras [faz parte do encanto, assuma-se...] que tivemos neste périplo pelo sul do país.



III)



Os poderes públicos, aproveitando politicamente a tremenda adesão popular que o Rali de Portugal teima em preservar, lançaram uma operação de sedução fazendo-lhe juras de amor eterno.


O evento tem comprovadamente, de há longos anos a esta parte, impactos significativos na economia local das regiões onde se desenrola.


É, mais que um custo, um investimento de retorno e rentabilidade garantida.

Numa altura em que as incógnitas sobre a viabilidade de continuar organizar a prova com caráter mundialista para lá de 2015 aumentam de tom, mais que nunca é indispensável que as entidades estatais sinalizem, sem tibiezas, a sua determinação em assegurar a continuidade do Rali de Portugal.



A isso se convenciona chamar sentido de estado e interesse nacional



IV)



A passagem da dupla Armindo Araújo e Miguel Ramalho pelo Algarve e Baixo Alentejo soube a pouco.


Após o ótimo resultado obtido no México, esperava-se que os nossos embaixadores no WRC, jogando em casa, abordassem o Rali de Portugal como a prova da temporada, e não como (mais) uma prova da temporada.


Esperávamos, em suma, que o discurso por vezes compreensivelmente defensivo, decorrente das vicissitudes que sabemos não serem as ideais, desse agora lugar a uma toada de risco assumido, própria de quem, por uma vez, nada tem a perder.



A prestação dos nossos mais emblemáticos piloto e navegador da atualidade ficou aquém das expetativas gerais, incluindo as deles próprios.


Uma saída de estrada ainda a procissão ia no adro, na noite de quinta-feira, deitou por terra grande parte das ambições projetadas para esta prova, agravada por novo toque na tarde de sábado que irremediavelmente colocou os homens do mini preto fora dos lugares pontuáveis.


Ao contrário das diversas declarações públicas que Armindo Araújo foi proferido ao longo dos quatro dias de competição, sempre um pouco na retranca, ainda que não o confessando é possível que o piloto de Santo Tirso tenha saído para os Jerónimos disposto a beliscar o limite.


A ir à procura do resultado ao invés de cautelosamente esperar que o resultado viesse até si.


As coisas não correram de feição.


Há que desdramatizar e olhar em frente.


Porém, fica a sensação que Armindo Araújo e Miguel Ramalho não souberam esperar pelo Rali: por aquela secção ou conjunto de classificativas que no decurso de uma prova se revelam decisivas e se transformam na chave de acesso aos bons resultados.


E o Rali viria a fazer-se pagar pela mesma moeda, não esperando pela nossa dupla bicampeã do mundo.



Desencontros.



Pagos com um 15º lugar final.

V)



O Rali de Portugal deu corpo à segunda prova do Campeonato de Portugal de Ralis [ou algo aparentado com isso].


Aquela que é, pelo menos em tese, a competição maior das provas em Portugal está em profunda crise.


Falta dinheiro, faltam inscritos, faltam nomes que galvanizem e chamem público às classificativas [sem embargo do maior respeito que nos merece quem investe e compete no CPR, não nos parece, à exceção porventura de Ricardo Moura, que o andamento no geral seja especialmente empolgante], falta promoção, falta acima de tudo aquele elã do qual emergem os momentos de verdadeiro arrebatamento que marcam as grandes competições.



Um campeonato nacional que se destina no papel a premiar a rapidez, não pode permitir-se incluir no seu calendário uma prova como o Rali de Portugal, em que o recurso a andamentos em regime de catenaccio é o tom generalizado.



Faltam demasiadas coisas aos Ralis em Portugal.



Falta sobretudo (re)pensá-los, questão que em tempos de crise nenhum dos agentes em seu redor está dispensado de o realizar.















AS FOTOS EXIBIDAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
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