P.E.C. Nº 146: Números redondos


Loeb sempre transmitiu uma imagem serena, a de quem tem os pés [quase sempre…] bem assentes na terra [em competição, embora em regime de trabalho intenso, assentes nos pedais, claro está].

A sua condução é limpa e suave, orientada em função das necessidades do cronómetro.

Os altíssimos padrões de profissionalismo que sempre impôs a si próprio transportaram o seu palmarés para patamares inimagináveis, guindando Seb-Lo em ‘apenas’ dez anos à condição do mais titulado piloto de todos os tempos.

Pode-se alegar que as circunstâncias o favoreceram.

Que os atuais Ralis são mais fáceis que os de outrora, que a concorrência digna desse nome não abunda, ou que ter uma equipa orientada estritamente em função das suas necessidades ajuda bastante: não sendo inteiramente falso, é uma argumentação que também não é todo inteiramente abrangente.

Analisando o piloto de Haguenau sob os mais diversos ângulos de análise, certo é que a sua imagem enquanto verdadeiro especialista de Ralis passa sem ondas de controvérsia entre fãs e detratores.

Sebastién Loeb, todavia, desde 2006 vem dando sinais claros que o seu interesse pelo automobilismo não se esgota na disciplina que o consagrou: para ele, como nunca o escondeu, há, do ponto de vista competitivo, vida para além da condução do seu Citroen DS3 WRC.

Experimentou, com alguma dose de sucesso, as exigentes 24 horas de Le Mans, fez incursões nos campeonatos franceses para carros de GT, sucumbiu em várias ocasiões ao apelo da Fórmula 1 realizando pequenos testes [direcionados acima de tudo a aspetos de marketing, como é norma nestas situações] para várias equipas, não escondendo sequer a ambição de cunhar no seu palmarés a participação em pelo menos um Grande Prémio da disciplina [realizou testes na GP2 em 2009, no intuito de lhe ser concedida a respetiva superlicença].

No dificílimo circuito citadino de Pau, o pluricampeão do mundo de Ralis voltou recentemente a fazer uma perninha nas corridas de velocidade ao participar na etapa da Porsche Carrera Cup/França ali disputada, rezando os relatos que não deixou os seus créditos por mãos alheias ao obter uma pole-position e duas vitórias sem mácula, perante concorrência cotada e mais experiente.

Na última meia-dúzia de anos as facadinhas que Sebastién vem dando no seu longo casamento com os Ralis, vão alimentando uma série de especulações em torno da sua carreira.

Há quem anuncie o final da sua participação na alta-roda do campeonato do mundo, e posterior gozo das delícias de uma reforma dourada.

Alguns quadrantes vaticinam para breve um virar de página, que o leve a direcionar os seus talentos a tempo inteiro para o automobilismo de pista.

Há também quem aposte [talvez um desejo mascarado de prognóstico] que Seb-Lo está de pedra e cal no campeonato do mundo de Ralis, não estando na linha do horizonte o fim da sua presença na modalidade.

No meio de todos estes exercícios de adivinhação, Loeb vai fazendo o seu caminho profissional envergando um luxo a que poucos têm acesso: o de quem adquiriu um estatuto de tal forma respeitável que lhe permite não fazer planificações a longo prazo, encarando o futuro da carreira ao sabor de cada momento.

Apesar destas interrogações, fica porém a certeza que aos 38 anos não perdeu faculdades: o apuro na condução é o mesmo de sempre, o instituto e capacidade de gerir uma prova ou campeonato mantêm-se intactos, e a sua motivação não dá mostras de esmorecer.

Na hipótese do octacampeão mundial ver na ampliação dos seus [] inacreditáveis números estatísticos um sólido argumento para continuar no campeonato do mundo de Ralis, seria interessante saber se pretende, por exemplo, dar um boost decimal ao palmarés, sentando um novo dígito ao lado dos registos entretanto conquistados.

Loeb tem oito [para o efeito há já quem conjugue o verbo ter no pretérito…] campeonatos do mundo de Ralis no seu bornal: pretenderá dez?

Depois do Rali da Nova Zelândia de 2012, averbou setenta e dois triunfos em provas do mundial: atingirá cem?

Até ao Rali da Nova Zelândia/2012 do seu palmarés constam oitocentas e trinta e sete vitórias em classificativas de Ralis no campeonato do mundo: almejará mil?

Com o Rali da Nova Zelândia/2012 são cento e cinquenta e oito as presenças em Ralis do WRC: conseguirá duzentas?

Superar estas fasquias [pelo menos parte delas] não será fácil, e a sua exequibilidade depende do prolongamento da carreira de Sebastién no campeonato do mundo durante mais uma série de anos.

Os indicadores que tem dado, manifestando abertura para redirecionar a carreira para outras disciplinas do desporto automóvel, aliados à idade que está [embora não pareçano dealbar dos quarenta anos, não tornam expectável a sua presença no mundial de Ralis durante tempo suficiente para ampliar o leque de recordes até aos números que atrás equacionamos.

É pacífico, porém, que os Ralis ainda fazem mover Loeb: pode suceder que a sua motivação atual, incólume ao passar dos anos, se alimente no desejo de ir adicionando em cada Rali novos upgrades ao palmarés.

Se esta ideia tiver base real, será então de admitir que o francês possa pretender conferir aos seus registos uma dimensão algo bíblica, praticamente impossível de atingir, ensaiando uma fuga em frente na carreira com vista a permanecer por algum tempo mais na alta-roda dos Ralis.

O que será o futuro profissional de Seb-Lo no desporto automóvel é, por falar em números redondos, a chamada ‘pergunta de um milhão de dólares’.

A FOTO EXIBIDA NO PRESENTE TRABALHO, FOI OBTIDA EM:
- http://fuckyeahsebastienloeb.tumblr.com/page/4

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