quinta-feira, 7 de junho de 2012

P.E.C. Nº 142: O que os olhos não veem, o coração… pode sentir!



Andamos há muitos anos nesta cousa dos Ralis.

Assistimos, neste percurso, a um considerável número de momentos que perdurarão nas nossas memórias.

Recordar as noites de Arganil ou da Freita, as enchentes do Confurco, da Lagoa Azul, de Alcaria do Cume ou de Montejunto, a chuva diluviana da Cabreira ou de Tavira, a celebração coletiva, com o seu quê de litúrgico, no Eurocircuito em Lousada, ou os travões incandescentes dos carros no final do asfalto da Lousã, são, entre outros, o cimento que nos foi edificando o gosto incondicional pela modalidade.

As frases, os sons, as paisagens ou as pessoas com quem nos fomos deparando nestas andanças, são marcas de vida que estão connosco, são histórias e episódios de que não nos queremos dissociar.

Nas últimas semanas tem vindo à nossa memória, com inusitada frequência, um episódio, deveras marcante, ocorrido na pretérita edição do Rali de Portugal.

Sábado, 31 de março de 2012.

Primeira passagem pela belíssima classificativa de Vascão.

No Monte do Branco do Vascão [classificada pela organização como Z.E. n.º 29, hoje transformada num dos ex-libris da prova traçada a sul do país] haviam passado há muito os melhores carros e pilotos, e a parte final do pelotão ia fazendo candidamente a sua ‘prova de vida’ perante o público, com os naturais pruridos de quem compete focalizado em concluir o Rali.

Era uma boa altura para, sem pressas, rumarmos ao 4x4 e fazer a deslocação para Almodôvar, onde iríamos assistir à segunda passagem pelo já clássico troço alentejano.

Num local de pastagem miraculosamente transformado em estacionamento [concluímos há muito tempo que para o Rali de Portugal existe, de norte a sul, um talento gigantesco em transformar instantaneamente qualquer terreno, por muito pedregoso ou inacessível que seja, num parque de estacionamento de ocasião, expressão do improviso e desenrascanço que nos carateriza], mesmo ao lado do gancho à direita daquele local, acalmámos as agruras do estômago, confortámos as necessidades da garganta e metemo-nos na viatura fazendo-nos ao caminho.

Mesmo ao sair do ‘estacionamento’ [manobra de contorcionismo devido aos carros por ali – mal - parados], para entrar no caminho em terra, a descer, que conduz à passagem a vau pela Ribeira do Vascão, dois jovens passavam a pé no mesmo sentido e voluntariaram-se para nos ajudar na apertada manobra.

Dois rapazes, talvez irmãos, talvez amigos, quem sabe apenas meros conhecidos, ali pela casa dos vinte [ou até um pouco menos], auxiliavam-nos com a genuína naturalidade de quem ajuda sem esperar seja o que for em troca.

Os dois rapazes estavam ali, a meio-metro da nossa pick-up.

De braço dado.

Um deles… totalmente invisual!

Acredite, caro leitor, que não é fácil descrever pelas palavras o baque que uma situação destas provoca, nem a comoção, forte, de procurar compreender a forma como um aficionado de Ralis vive e sente a modalidade sem o privilégio de poder observar os melhores carros e pilotos do mundo a desenvolver a sua arte.

Ensina a ciência que quando falha um dos sentidos, os demais saem especialmente aguçados.

Talvez este rapaz tenha no Monte Branco do Vascão escutado os carros [a banda sonora original da modalidade…] mais intensamente que o comum dos adeptos ali também presentes.

Quem sabe o cheiro da terra levantada ou de um travão queimado [a fragância dos Ralis], não lhe tenham despertado o olfato com um apuro cujo alcance nunca conheceremos.

Fica-nos todavia a certeza que este rapaz, tal como outros como ele a quem o destino não sorriu magnânimo, só pode colocar muito sentimento no seu apego aos Ralis.

Durante anos, com propositado exagerado e fanfarronice, assumimos a condição de ‘maior adepto de Ralis em todo o mundo’.

Trocistas, afirmávamos aos sete ventos que podia até haver alguém que gostasse tanto de Ralis como nós, mas não havia certamente quem gostasse mais e vivesse tanto os Ralis como nós.

A melhor maneira de golear a soberba é, sempre, deixar entrar em campo a realidade.

Nessa medida, o episódio de março passado deixou-nos prostrados perante alguém que não podendo percecionar a plasticidade visual da modalidade, ainda assim não recusa ir de encontro a ela entregando-se sem condições, sentindo-a de uma forma que o comum dos adeptos jamais poderá compreender.

Com grande dose de probabilidade este rapaz nunca terá conhecimento do teor do presente texto.

Nunca saberá o quão mexeu na maneira como encaramos os Ralis, ou abalou as convicções que em abstrato tínhamos sobre a massa aficionada da modalidade.

Caso os acasos da vida o leve a cruzar-se com as presentes linhas, gostaríamos apenas que ficasse ciente do enorme prazer que teríamos, um dia, em apertar-lhe a mão trocando impressões sobre este interesse comum, naquelas conversas em que do cruzar de opiniões se faz o troço do conhecimento, e da partilha de vivências se realiza o melhor dos Ralis…



A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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