domingo, 15 de julho de 2012

P.E.C. Nº 150: Quando o chão falta debaixo dos pés...


Uma classificativa é mais que a distância física entre dois pontos de cronometragem.

Várias delas, por diversas ordens de razão, afirma[ra]m-se como imagem de marca de um Rali, ou até mesmo da região ou do país a que pertencem.

Diversos motivos concorrem para que tal aconteça.


Um dos mais relevantes, senão mesmo o principal, prende-se com o enquadramento paisagístico onde uma prova se disputa.

O contraste visual entre um Rali Safari disputado nas longas retas da savana africana, ou a alta-montanha alpina na qual os carros parecem ‘esquiar’ Monte [Carlo] acima, Monte [Carlo] abaixo, é uma das razões em que se ancora o fascínio que esta modalidade exerce pelos quatro cantos do mundo.


Por isso é essencial que uma classificativa se apresente em [ao…] público de forma elegante e sedutora, vestindo uma roupagem [a paisagem que envolve o preciso local onde os carros evoluem] que vinque a sua personalidade.

Em Portugal várias indumentárias de recorte clássico [mas jamais fora de moda] ajudaram no passado à projeção do Rali de Portugal.


O xisto austero e as ravinas bem vincadas que fizeram a lenda de Arganil, a floresta densa e húmida que se tornou imagem de marca da ronda de Sintra, a seminudez das pedras que parecem a cada instante abotoar, agasalhando, os troços de Fafe, o chapinhar dos carros na água que tão bem caracteriza Figueiró dos Vinhos ou a Aguieira, ou o perfume fresco dos cheiros do mar que empresta sedução a classificativas como São Pedro de Moel, Figueira da Foz/Quiaios ou Santa Luzia, são fatores extradesportivos que, todavia, não deixaram de influir decisivamente na forma como o Rali de Portugal se foi revelando mundo fora.


Se é certo que o território continental do nosso país possui, do Algarve a Trás-os-Montes, uma infinidade de soberbas classificativas, quer em terra, quer em asfalto, não é menos verdade que as ilhas, tantas vezes [injustamente…] esquecidas no contexto do automobilismo do nosso país, conseguem produzir nessa matéria troços de espetacularidade inigualável.

As imagens que selecionámos para o presente trabalho, estamos em crer que são disso exemplo bastante.

Em São Miguel, Açores, à volta da Lagoa das Sete Cidades, além da presença abundante do verde da natureza [a Quercus se desenhasse troços, provavelmente produzia-os assim], há um outro fator que chama a atenção: o impressionante jogo de equilibrismo [quiçá de nervos…] a que os concorrentes se dedicam para não se despenhar desfiladeiro abaixo.


Sabíamos que os Ralis não são dados a quem sofra de fobias de velocidade, mas a fabulosa classificativa ilustrada pelas imagens que publicamos ensina que a modalidade pode, a espaços, estar interdita a quem padeça de vertigens por medo das alturas.

Aqui reside um claro contraste entre as provas de estrada e o automobilismo de pista ou circuito fechado.

Se neste último a escapatória pode ser vista como um andarilho fiel, capaz de amparar todo e qualquer tropeção, já naquelas a bainha da classificativa pode, em caso de despiste, descoser, dando espaço aquela desagradável sensação de faltar subitamente chão debaixo dos pés.


Deste modo, a forma como piloto e navegador gerem a capacidade de se manter no leito da especial, abstraindo-se dos imprevistos que espreitam para lá das margens do troço, é um dos aspetos mais siderantes desta modalidade

É para lá do curso de terra ou asfalto, quando há desvios da rota programada, que ironicamente, em caso de infortúnio, a barca à deriva pode mesmo [literalmente] afundar, como além das sublimes fotos que agora partilhamos com o caro leitor, é bom exemplo a saída de estrada protagonizada por Louise-Aitken Walker e Tina Thorner no decurso do Rali de Portugal de 1990, na prodigiosa classificativa de Figueiró dos Vinhos.


[Nota: Sobre o Sata Rali dos Açores, consultar P.E.C. Nº 124 deste blogue].

AS FOTOS PUBLICADAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=79428
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=50352
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=50356
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=32000
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=32002
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=32005
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=32088
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=32191

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