terça-feira, 7 de agosto de 2012

P.E.C. Nº 154: Ralis 'side-car' [ou, então, uma espécie de controlo de tração humano...]!


Em cada época do seu passado, a cada momento do seu presente, o desporto automóvel vive[u] da finta permanente aos regulamentos

As normas que enquadram a modalidade, sobretudo nos seus aspetos técnicos, mais que barreiras inexpugnáveis são invariavelmente olhadas pelos responsáveis das equipas como um obstáculo a transpor

Olhar criativamente para um regulamento desportivo, ver além do sentido literal que ele impõe, tem sido, em inúmeras ocasiões, a incubadora capaz de revelar ao mundo espantosas evoluções na modalidade [de que o automobilista comum é depois, muitas vezes, o principal beneficiário], seja no plano da performance dos carros, seja no fulcral capítulo da segurança. 

Ao mais alto nível, nas competições tidas como expoentes máximas do automobilismo, os valores investidos são avultados. 

O dinheiro, o negócio e os interesses em cima da mesa atingem proporções de tal forma impressionantes, que conjugados quase ‘obrigam’ à procura permanente de algo que possa dar uma vantagem competitiva, ainda que residual, perante a concorrência. 

Um ‘carro de corridas’ vive por norma numa espécie de inimputabilidade legal, laborando nas zonas cinzentas dos códigos desportivos, pelo que a sua conformidade com os regulamentos é muitas vezes dúbia, na fronteira daquilo que é permitido

Daqui resulta uma roleta russa onde as duas únicas hipóteses, inexoráveis, dão pouca margem de manobra: a desclassificação desportiva, ou a fuga para a frente na qual se dão passos [eufemisticamente chamados 'evoluções'] rumo à progressiva melhoria competitiva do automóvel. 

Não há em cada engenheiro envolvido no automobilismo um fora-da-lei

Um diretor desportivo não personifica certamente a figura do mais temível dos bandidos. 

No entanto ambos devem ter um pouco de advogado, daqueles de reconhecida qualidade técnica que sabem melhor que ninguém adequar as franjas da lei ao sabor das suas conveniências. 

Os carros de Rali, enquanto emanação do automóvel comum, vêm revelando ao longo dos tempos progressos incríveis

De ano para ano, quando não se deparam perante regulamentos especialmente restritivos, são melhor construídos, estão mais seguros e rápidos, e trazem consigo, sem que o notemos, diversos gadgets que se constituem como o pináculo dos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento automóvel. 

Que os engenheiros, os projetistas ou os mecânicos trabalham no fio-da-navalha regulamentar não é novidade para ninguém. 

Afirmá-lo é, aliás, quase uma redundância. 

Mas já é pouco comum vermos pilotos diretamente empenhados em soluções para incrementar a competitividade dos seus bólides, que não as ligadas à condução rápida e eficaz. 

Contextualizemos, então, esta última frase. 

Rali da Grã-Bretanha, organizado como sempre pelo Royal Automobile Club

Prova de encerramento de temporada. 

Ano: 1978

Disputado na segunda quinzena de novembro, aos concorrentes deparava-se pela frente o respeitável número de 76 classificativas e mais de setecentos quilómetros de luta contra o cronómetro, à maneira dos bons e velhos tempos: precisamente... esses tempos. 

A lista de concorrentes era, como sempre, recheada em quantidade e prometia emoções a valer em função da indiscutível qualidade dos principais concorrentes em contenda. 

Um deles, o alemão Walter Rohrl, encerrava a época sem especiais motivos para sorrir: a sua participação na Taça FIA de Ralis havia sido algo irregular, não obstante os triunfos obtidos na Acrópole e no Québec

Sem nada a perder nesta etapa britânica da temporada, as hostes da equipa Fiat Abarth procuravam, então, algo… diferente

Convém recordar que, à época, o lendário ‘RAC’ se caraterizava pelo secretismo do seu percurso. 

Nessas circunstâncias, vedados os reconhecimentos prévios aos troços e sem haver verdadeira necessidade de caderno de notas [pelo menos nos moldes dos demais Ralis], o trabalho do navegador em anunciar a[s] curva[s] seguinte[s] ficava especialmente esbatido. 

A esta nuance acrescia o facto da prova se disputar em pleno outono, pelo que não era difícil adivinhar [ainda para mais em Inglaterra…] a presença de troços, quer os de asfalto, quer os de gravilha, com piso molhado ou enlameado, tornando-se por isso a motricidade [os principais carros possuíam todos tração posterior] um fator decisivo para uma boa prestação neste Rali. 

Animados em fechar o ano com chave de ouro, é neste enquadramento singular que Walter Rohrl e Christian Geistdorfer para surpresa geral apostam no insólito: fazer sentar o navegador no banco traseiro do Fiat, procurando com o peso adicional junto ao eixo traseiro devolver ao carro italiano um índice acrescido de tração

Dos registos não consta que tal aposta se tenha revelado especialmente conseguida: a dupla germânica concluiria a prova no sexto lugar final, a mais de trinta minutos dos vencedores [Mikkola e Hertz, aos comandos do Ford Escort RS 1800], não obstante o triunfo em três especiais de classificação. 

As fotos presentes neste trabalho, bem como as imagens em vídeo do Rali RAC em apreço que também partilhamos [recomendamos especial atenção às passagens do Fiat com o n.º 5 estampado nas portas] ilustram na perfeição este episódio caricato, do qual não reza a história ter tido continuidade. 

Mas além da estranheza e originalidade de não vermos piloto e navegador sentados simetricamente, fica em simultâneo uma certa ideia de regresso de Walter Rohrl às suas origens: ele que, anos antes, havia sido o motorista do bispo de Regensburg, assumia agora por uns dias o papel de chauffeur de Christian Geistdorfer, logo ele, o magistral Rohrl, que pelos fabulosos dotes de condução nos habituámos a situar nos antípodas daquilo que jocosamente apelidamos de ‘taxista’



AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.specialstage.com/forums/showthread.php?40336-The-Original-Rally-Supercars/page6

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