sexta-feira, 10 de agosto de 2012

P.E.C. Nº 155: Uma 'outra' Arganil...


Ganha consistência o regresso da região de Arganil ao Rali de Portugal

Na sequência de declarações públicas proferidas recentemente pelo edil de Oliveira do Hospital nesse sentido, e aproveitando a tendência liberalizante de que a FIA tem vindo a dar mostras, o propósito de devolver a prova às classificativas da Serra do Açor parece ter pernas para andar

A palavra final pertencerá, claro, à direção de prova que, confiamos, não será insensível ao sindicato de vontades que seguramente se vai gerar em torno do tema. 

No processo de reencontro do Rali de Portugal com o seu passado, de que o Fafe Rally Sprint/2012 foi o primeiro [e excecionalmente sucedido] passo, a lógica determina com naturalidade a inclusão de Arganil na rota do evento. 

As lendárias florestais de Arganil estão, aliás, inscritas no código genético do Rali

São um dos três vértices, a par de Fafe e Sintra, do triângulo que ajuda a referenciar a história da prova

O enquadramento paisagístico esmagador, o assombroso desenho dos troços [nas infindáveis variáveis que a região possibilita], as quilometragens tradicionalmente elevadas ou o piso marcadamente demolidor, são características que tornaram Arganil singular no contexto da modalidade. 

Ali se vivenciaram algumas das mais belas passagens [no sentido literal do termo, mas também no seu sentido filosófico] do passado das provas de estrada disputadas no nosso país. 

A sempre temível ronda de Arganil foi em inúmeras ocasiões crucial para decidir desportivamente o Rali de Portugal

À entrada das especiais em gravilha do Açor, a única verdade arreigada na mente dos concorrentes era que aquelas classificativas se constituíam como um tudo ou nada, tanto capazes de validar um bom resultado como deitar por terra [literalmente] toda e qualquer certeza até aí adquirida

Porém, a lenda de Arganil no âmbito dos Ralis não se alimenta só de , pedras ou lama

Há uma ‘outra’ Arganil menos conhecida e porventura com menor carga histórica, sem referências como a especial com os míticos 56,5 quilómetros de extensão [o percurso de Vale de Maceira a Lomba devia constituir uma espécie de ‘Caminhos de Santiago’ para qualquer adepto de Ralis que se preze…] mas ainda assim, pensamos, com enorme interesse: a Arganil… de asfalto

Após 1986, quando a prova mergulhou num mar de indefinições na sequência do trágico acidente de Joaquim Santos e Miguel Oliveira, foi ainda assim mantida, até 1994, a célebre etapa em asfalto [esse ‘preliminar’, como todos os preliminares importantíssimo no respetivo desfecho final…] que conduzia os concorrentes da região de Lisboa até ao norte do país

O Rali continuava a subir no mapa de Portugal mas esta primeira etapa, após o desaparecimento de Sintra, estava órfã de referências fortes

Subsistiam, é certo, a fabulosa descida da Lousã ou a Freita. 

Faltava, porém, algo verdadeiramente emblemático. 

Um nome de peso. 

E Arganil, ainda que numa outra faceta, assentava quem nem uma luva neste propósito. 

Nessa medida, em seis edições do Rali de Portugal [entre 1989 e 1994] a organização levou a caravana de concorrentes até ao asfalto do Açor

A prova, vaidosa, ensaiava na região como que um jogo de sedução à Serra de Estrela, que começava com um piscar de olhos à distância a partir do Monte Trevim na descida da Lousã, e terminava, já mais próximo, com a exibição de uns vistosos peitorais desde o topo dos Penedos Altos. 

Estas classificativas de asfalto [Arganil, Piódão ou Coja] funcionavam como uma subversão à ordem estabelecida. 

Selada das Eiras, antes uma passagem na existência do evento, dava agora lugar ao nascimento de um troço.

Torrozelas passava de parceira à distância do Rali para uma interveniente, digamos, mais ativa.

A relação entre Alqueve e Folques assumia à mesma um plano inclinado, mas agora em sentido contrário.

E os Penedos Altos ensaiavam desta feita um voo picado na direção de Piódão, numa sequência de ganchos sublime, perfeita e inimitável, capaz de atirar, ousamos arriscar, sem apelo nem agravo um qualquer acesso ‘enrolado’ ao Col du Turini diretamente para o banco de suplentes

[Nota: No âmbito deste trabalho não considerámos classificativas como Góis ou São Gião, as quais, não obstante se integrarem num certo espírito de Arganil, não devem ser consideradas, em nossa opinião, 'Serra do Açor bacteriologicamente pura'].


 DADOS ESTATÍSTICOS: 

 ||  1 9 8 9  || 

Classificativa: Arganil.
Extensão: 12,70 kms.
Vencedores: Massimo Biasion/Tiziano Siviero e Didier Auriol/Bernard Occelli [ex-aequo].
Carro: Lancia Delta Integrale.
Tempo realizado: 8m:26s.
Média horária: 90,36 Kms/h.

 ||  1 9 9 0  || 

Classificativa: Arganil.
Extensão: 12,62 kms.
Vencedores: Armin Schwarz/Klaus Wicha.
Carro: Toyota Celica GT4.
Tempo realizado: 8m:14s.
Média horária: 91,97 Kms/h.

 ||  1 9 9 1  || 

Classificativa: Arganil.
Extensão: 12,60 kms.
Vencedores: Carlos Sainz/Luís Moya e Armin Schwarz/Arne Hertz [ex-aequo].
Carro: Toyota Celica GT4.
Tempo realizado: 8m:33s.
Média horária: 89,12 Kms/h.

 ||  1 9 9 2  || 

Classificativa: Arganil.
Extensão: 12,60 kms.
Vencedores: Juha Kankunnen/Juha Piironen.
Carro: Lancia Delta HF Integrale.
Tempo realizado: 7m:53s.
Média horária: 95,90 Kms/h.

Classificativa: Piódão.
Extensão: 18,80 kms.
Vencedores: Andrea Aghini/Sauro Farnocchia.
Carro: Lancia Delta HF Integrale.
Tempo realizado: 12m:16s.
Média horária: 91,96 Kms/h.

 ||  1 9 9 3  || 

Classificativa: Arganil.
Extensão: 12,60 kms.
Vencedores: François Delecour/Daniel Grataloup e Andrea Aghini/Sauro Farnocchia [ex-aequo].
Carros: Lancia Delta HF Integrale [Aghini/Farnocchia] e Ford Escort RS Cosworth [Delecour/Grataloup].
Tempo realizado: 8m:02s.
Média horária: 94,11 Kms/h.

Classificativa: Piódão.
Extensão: 18,33 kms.
Vencedores: François Delecour/Daniel Grataloup.
Carro: Ford Escort RS Cosworth.
Tempo realizado: 12m:18s.
Média horária: 89,41 Kms/h.

 ||  1 9 9 4  || 

Classificativa: Arganil.
Extensão: 12,67 kms.
Vencedores: François Delecour/Daniel Grataloup.
Carro: Ford Escort RS Cosworth.
Tempo realizado: 8m:00s.
Média horária: 95,03 Kms/h.

Classificativa: Coja.
Extensão: 13,60 kms.
Vencedores: François Delecour/Daniel Grataloup.
Carro: Ford Escort RS Cosworth.
Tempo realizado: 9m:27s.
Média horária: 86,35 Kms/h.

Classificativa: Piódão.
Extensão: 18,47 kms.
Vencedores: Massimo Biasion/Tiziano Siviero.
Carro: Ford Escort RS Cosworth.
Tempo realizado: 12m:11s.
Média horária: 90,96 Kms/h.

 INFOGRAFIAS: 

Arganil


Ver Classificativa: Arganil num mapa maior

Piódão


Ver Classificativa: Piódão num mapa maior

Coja


Ver Coja num mapa maior

 IMAGENS: 

 ||  1 9 9 2  || 
Arganil, subindo de Folques para Alqueve


 ||  1 9 9 3  || 
Piódão, Penedos Altos


 ||  1 9 9 4  || 
Arganil, descendo de Torrozelas na direção de Folques, e virando à esquerda rumo a Alqueve






AS FOTOS EXIBIDAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.jalopnik.com.br/a-evolucao-do-mitsubishi-lancer-parte-2/
- http://autosport.sapo.pt/autosport-rali-de-portugal-wrc-1993-biasion-ford-escort-cosworth=f64757

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