P.E.C. Nº 157: O homem que se despistou duas vezes...
Se há pilotos
que em competição transportam consigo toda a identidade e caraterísticas do seu
povo, esses pilotos são os japoneses.
Em qualquer
género de desporto motorizado catalogamo-los sem indulgência ou
meio-termo: invariavelmente exprimem a sua veia samurai,
conduzindo com o sentido de honra de quem a todo o momento empunha o volante
como se de um desembainhar do sabre se tratasse.
Num país tido
por obcecado em tecnologia, na inversa medida em que deixa para segundo plano
as relações humanas, é natural que no âmbito dos Ralis o core business dos nipónicos sejam os carros, antes, muito antes,
dos pilotos.
Com
diferentes graus de sucesso marcas como a Toyota, Subaru, Mitsubishi, Nissan,
Mazda ou Suzuki envolveram-se no passado de forma oficial no mundial de Ralis, deixando a sua imagem fortemente ligada à modalidade.
Ainda assim
há, apesar de tudo, pilotos nipónicos que mostraram credenciais nas
provas de estrada, de que o melhor exemplo será Toshihiro Arai, antigo piloto
oficial da Subaru, vencedor do agrupamento de produção no campeonato do mundo nas temporadas
de 2005 e 2007.
Neste
contexto [o dos pilotos oriundos do país do sol nascente], acreditamos que o nome de
Hiroshi Nishiyama diga pouco à generalidade dos aficionados de Ralis.
Dos registos
e das memórias não consta ter sido capaz de grandes arrebatamentos na
modalidade.
Títulos
expressivos não tem, e quanto a vitórias muito poucas são as constam no seu
palmarés.
Nishiyama,
com uma carreira internacional algo intermitente entre 1988 e 1997, foi no
início dos anos noventa piloto semioficial da Nissan [mais pela nacionalidade, cremos, que propriamente pelo talento] e da respetiva folha de
serviços avulta um vice-campeonato de produção [à altura denominado
oficialmente ‘Taça F.I.A. de Grupo N’] em 1992 ao volante do modelo Sunny
GTI-R, num ano em que a concorrência digna de registo era pouca [cingida
praticamente ao mais cotado Grégoire de Mévius, aos comandos de carro
idêntico], sobressaindo no palmarés do japonês o triunfo à classe
[correspondente a um quarto lugar absoluto] no Rali da Costa do Marfim dessa
temporada.
A ligação do
piloto ao Rali de Portugal inicia-se em 1993, no decurso da 27.ª edição da
prova.
A etapa
portuguesa do campeonato do mundo de Ralis, terceiro evento do ano [após Monte
Carlo e a Suécia], como mandava a tradição ia para a estrada no mês de março.
Navegado por
Hiroki ‘Rocky’ Sugiura [premonitoriamente logo aqui uma 'alcunha' a prometer
muita... ação] e tripulando o Nissan com o n.º 20 estampado nas portas,
adivinhavam-se dificuldades para o nipónico na sua estreia na prova portuguesa.
O
desconhecimento absoluto do terreno, a mescla de alcatrão e gravilha a obrigar
a versatilidade na forma de pilotar, ou as [re]conhecidas especificidades das
especiais portuguesas, deveras técnicas, eram condimentos que deixavam antever
um Rali exigente, recomendando especiais cautelas a quem nele participava pela
primeira vez.
Não se pode
dizer que nessa edição da prova, há dezanove anos, com nomes referenciais em
ação como Sainz, Delecour, Biasion, McRae, ou Alén, os homens do Sunny inscrito com o n.º 20
concitassem especiais atenções aos espetadores.
A dupla nipónica cumpriria o Gradil, classificativa de abertura do Rali de
Portugal, sem sobressaltos de maior e, logo de seguida, apresentava-se
à entrada do saudoso Montejunto que completava o binómio de especiais
desenhadas ao redor da grande Lisboa.
Em 1993, como
aliás era norma nesses anos, a moldura humana que enquadrava o Montejunto era
impressionante.
Um dos locais
prediletos do público era o denominado ‘anfiteatro’, uma longa direita [uma
meia-lua, como a foto acima colocada assim ilustra] ligeiramente a subir, que os
pilotos mais afoitos abordavam com prologadas e espetaculares atravessadelas.
No local, o
relevo do terreno formava uma bancada natural em toda a zona do exterior da curva
[ideal para se ver na perfeição o evoluir dos carros, em plenas condições
de segurança], existindo no seu perímetro interior, do lado direito, um
desnível de cerca de 2/3 metros que formava um ‘fosso’ a recomendar especial
atenção aos concorrentes para lá não se deixar cair.
Cinco anos
antes [ver imagens que em baixo partilhamos], essa mesma zona havia ficado
conhecida, aliás, por uma série de acidentes que acabariam prematuramente com a
esperança de diversos concorrentes à edição de 1988 do Rali de Portugal.
Em 1993, no
‘anfiteatro’, iam passando os melhores pilotos do mundo, entre a exuberância
entusiasta de Eriksson ou a sobriedade de processos de Delecour [vencedor da
classificativa, ex-aequo com Biasion].
A caravana fazia o seu desfile pela zona, e após a passagem dos concorrentes mais credenciados
seguia-se, claro está, o Nissan Sunny da ‘desconhecida‘ dupla
Nishiyama/Sugiura.
À entrada do
‘anfiteatro’, numa esquerda média feita a descer, o carro n.º 20, fruto de um
excesso de pilotagem sai demasiado largo e, sem apelo nem agravo, resvala para
o fatídico ‘fosso’.
O espetáculo
que se seguiu provocou, claro, o gáudio de todo o público: Nishiyama [sem
nunca desistir, crédito que por imperativo de justiça temos de lhe atribuir] às
voltas no ‘fosso’, entre uma pequena plantação de batatas e uma outra de couves,
tentando a todo o custo ‘trepar’ com o seu bólide o desnível para o asfalto do
troço, procurando os mais variados locais da curva para o fazer, de frente, de
lado e até de marcha atrás, perante um monumental coro de assobiadelas da
assistência a roçar a pura troça mas, paradoxalmente, também o mais genuíno apoio.
À distância
de dezanove anos é-nos difícil precisar o tempo que todas estas manobras
demoraram, mas é certo que os nipónicos mantiveram a assistência entretida mais
de uma dezena de minutos.
Por fim,
quando o Sunny apresentava já diversas escoriações mas parecia manter
completamente inalterada a sua coluna vertebral, com a ajuda do público [que
nos pareceu quase elevar o carro em peso aos ombros], Nishiyama e Sugiura lá
voltaram à classificativa, retomando a bom ritmo a sua marcha perante uma
sonora salva de palmas, talvez endereçada a eles por nunca terem desistido,
talvez destinada aos voluntariosos adeptos portugueses que lhes permitiram
continuar em prova.
Naquele tempo o Rali de Portugal
tinha uma ampla cobertura noticiosa na qual as rádios assumiam um papel
determinante, a ponto de quase se poder afirmar que havia em direto uma espécie
de relatos de Rali, tamanha a quantidade e qualidade informativa em tempo real.
Um transístor, a par do vinho,
pão e presunto, era, portanto, uma ferramenta indispensável para se seguir a
prova.
Presentes no ‘anfiteatro’ e
refeitos do frenesim que os homens do carro n.º 20 acabavam de oferecer,
demos connosco a pensar que seria curioso ir procurando saber notícias do
desenrolar da sua prova, eles que quase tinham
deitado tudo a perder logo à segunda classificativa do Rali.
Tais pensamentos não nos ocuparam
muito tempo: havia, afinal, mais carros para ver atentamente.
Alguns minutos depois [após uns
goles para aclamar a garganta e um aconchego ao estômago em forma de pão e
rodelas de pujante salpicão transmontano...] sintonizamos o nosso rádio na
procura de saber os tempos do Montejunto bem como a classificação geral do Rali.
E foi aí que, colhida a
informação que desejávamos, num de repente é noticiada, em jeito de nota
relativa ao troço em questão, a desistência do Nissan Sunny GTI-R n.º 20
[num local que pela descrição se situava menos de um quilómetro após o
‘anfiteatro’…] devido, pasme-se [sim, caro leitor, adivinhou!], a... «saída de
estrada»!
A bem disposta gargalhada
coletiva que se ouviu de imediato naquele hemiciclo, fez-nos concluir, logo ali, haver uma pequena multidão a ouvir rádio na serra de Montejunto na manhã de 3 de março de 1993…
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Nota: Na edição seguinte do Rali de
Portugal, disputada em 1994, Nishiyama voltou ao nosso país para participar na
prova, navegado por Hisashi Yamaguchi, desta feita aos comandos de um Subaru
Impreza de grupo ‘N’.
Sabemos, pelas pesquisas que encetamos, que o japonês voltaria a não chegar às verificações técnicas finais
por motivos que não conseguimos descortinar.
No entanto, face aos
antecedentes, não será descabido imaginar as razões que porventura o levaram a somar
nova desistência...



Boas. Não tendo nada haver com este assunto, gostaria só de acrescentar que relativamente ao rali de Portugal de 1993 na ultima PEC da 1ª etapa - Arouca, houve uma neutralização porque um adepto mais fervoroso......caiu de um arvore e fracturou um braço. Teve necessidade de entrar a ambulancia e o assunto ficou resolvido. Cerca de mais de metade dos concorrentes fez o troço em ligação. Acontece que um dos concorrentes do "meio da tabela" era japones e ninguem lhe deve ter dito que o troço estava neutralizado pelo que passou com a "faca nos dentes " e só por sorte não se despistou nos primeiros kms, quando apanhou o pessoal já a vir embora.
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