sábado, 13 de outubro de 2012

P.E.C. Nº 164: O que hoje é verdade...


Comunicar de forma eficaz é hoje uma exigência à qual os atores que intervêm no palco global não se podem eximir. 

Neste mundo fortemente mediatizado transmitir massivamente uma mensagem ou uma ideia, tornou-se fator primordial em todas as áreas de atividade. 

O desporto automóvel não está, claro, à margem dessa premissa: os departamentos de comunicação adquiriram nos últimos anos uma importância capital dentro de equipas e construtores. 

Muita da informação que passa para os media e grande público é filtrada de acordo com os interesses de quem a transmite. 

Raramente se diz tudo o que se pretende ou pode dizer: quase sempre diz-se tão-somente aquilo que interessa dizer

Nesse sentido, grande parte da comunicação que sai das grandes estruturas ligadas à competição automóvel tem, ainda que não o percecionemos, um conteúdo vincadamente político

As mensagens dali provenientes escudam-se com frequência em alguma ambiguidade, quase nunca deixam transparecer certezas, e moldam-se a interpretações díspares na procura intencional de dizer em simultâneo uma coisa e seu contrário. 

Tudo o que escrevemos vem a propósito das recentes declarações que Sébastien Loeb proferiu no salão automóvel de Paris acerca do seu futuro no campeonato do mundo de Ralis. 

O francês, agora com o seu nono título absoluto no bornal, revelou pretender na próxima época competir no WRC em regime de part-time (com a sua equipa de sempre, como não podia deixar de ser), num miniprograma a compreender entre quatro e cinco Ralis (ver declarações AQUI). 

Uma análise ‘a frio’ destas declarações levar-nos-ia a concluir que o pluricampeão mundial pretende efetivamente diminuir a carga de participação na modalidade, encarando com firmeza um redireccionamento da carreira para as corridas em autódromo. 

Porém, a chave para decifrar o que referiu centra-se, a nosso ver, quando refere que «não tenho nada verdadeiramente planeado», suficientemente evasiva para legitimar as mais diversas conjeturas. 

Dois mil e treze será a época onde fará a sua aparição na alta-roda dos Ralis um novo player: a Volkswagen

Para já, sabe-se que a marca alemã pretende sequenciar a aura vitoriosa de anos recentes nas provas de todo-o-terreno. 

A sua entrada no WRC tem vindo a ser preparada com tempo e método, acumulando milhares de quilómetros em testes e um manancial de informação considerável. 

Terá como ambição a curto prazo alterar a correlação de forças vigente no campeonato do mundo desde 2004, socorrendo-se dos serviços do piloto que reconhecidamente lhe dá melhores garantias de competitividade. 

Ogier é (muito) rápido, fiável em qualquer espécie de terreno, extremamente ambicioso, e tem como intuito afirmar o nome na modalidade. 

O construtor alemão, por seu lado, quer mostrar-se à escala global como um rival direto dos seus congéneres Audi e Mercedes, e o mundial de Ralis serve como montra privilegiada para mostrar a excelência dos seus produtos. 

Uma competição tão abrangente e disseminada pelos quatro cantos do mundo, será o meio mais eficaz para reforçar a imagem como marca premium

A Citroen, conhecedora de todos estes dados, sabe que a chegada da Volkswagen pode constituir uma ameaça muito séria ao seu poderio. 

Daí que, parece-nos, tenha procurado gerir o dossiê Loeb com especial acutilância e habilidade. 

Uma despedida do piloto de Haguenau no final da presente temporada para não mais voltar, tenderia a ser vista pela generalidade dos observadores e adeptos como uma fuga ou receio na comparação direta com o binómio Ogier/VW, algo que não se coaduna com a aura de invencibilidade a que nos habitou. 

Seria ferir de morte o estatuto laboriosamente adquirido por alguém que tem 75 vitórias em Ralis pontuáveis para o WRC e 9 títulos de campeão do mundo no seu pecúlio. 

‘Mitigar’ os efeitos e a forma como a saída de Loeb (da equipa e da modalidade) se processará, foi preocupação evidente por parte dos decisores da marca do double chevron

Ao invés de uma retirada repentina, julgamos que a gestão mediática desta questão centrou-se na aposta em fazer passar a ideia de um afastamento gradual, quase natural, do seu piloto-estandarte, sem fraturas nem polémicas de maior. 

Sébastien, em discurso direto e na primeira pessoa (a mais eficaz maneira, afinal, de credibilizar a mensagem que se pretende ecoar), referiu, então, que pretende em 2013 fazer apenas quatro ou cinco Ralis. 

Curiosamente não especificou um número exato de provas a disputar, o que desde logo nos leva a crer (e perpassa das respetivas declarações) existir flexibilidade para alargar a mais latitudes a sua presença no campeonato do próximo ano. 

O contexto desportivo que resultar do início da época de 2013, com a disputa do Rali de Monte Carlo (Loeb afadigou-se a confirmar presença), servirá de barómetro para medir o pulsar aos rivais da Citroen

Uma eventual vitória do gaulês numa prova que, aliás, parece talhada à medida das suas caraterísticas enquanto piloto, sobretudo se colocar em sentido Ford e Volkswagen, acreditamos que possa acionar uma espécie de ‘plano B’ (para já não assumido) e desencadear a comparência de Séb nos Ralis seguintes, sempre em função dos resultados entretanto obtidos e respetiva classificação no campeonato de pilotos, com decisões nesta matéria porventura geridas prova-a-prova. 

Caso o arranque de 2013 mantenha inalterada a supremacia de Sébastien Loeb no campeonato do mundo de pilotos, torna-se pouco crível que não ceda à tentação de inscrever o décimo título no seu palmarés. 

Não damos portanto por adquirida (e muito menos imutável) a sua propalada intenção de apenas fazer um miniprograma de participações no próximo ano. 

Mais que uma afirmação perentória, enquadramos as declarações que proferiu numa estratégia de ganhar tempo, aferir se a hierarquia do WRC sofreu alterações, e em função disso decidir. 

Caso constate que a Citroen não lhe consegue proporcionar um carro mais competitivo que a concorrência, Loeb e a sua equipa de sempre nunca perderão a face: ele poderá sair de cena no momento que mais lhe convir, referindo simplesmente que, de acordo com o que declarou agora em Paris, estava afinal definida a sua participação apenas num número específico de provas

Acresce a este enredo uma outra questão que gera perplexidades de diversa ordem. 

Ninguém com responsabilidades na estrutura oficial da Citroen clarificou como no seio da equipa irão ser geridas as presenças de Séb em função das incidências de cada prova onde constar da lista de inscritos. 

Numa equipa que, no passado, não raras ocasiões pautou a sua conduta pelo pragmatismo quase radical em torno do seu principal piloto, com ordens de equipa que um bom par de vezes ficaram a dever muito à normal hierarquia de andamentos em prova, será interessante seguir com atenção a maneira com será gerido o miniprograma (se é que ele alguma vez passou do papel) que o prodígio natural da Alsácia se propõe fazer. 

Loeb nunca correu para perder. 

Competiu sempre com garantias de competitividade acrescida perante a concorrência, fosse as que decorrem do seu enorme talento (as principais, refira-se), fosse as que derivam dos excelentes carros que a equipa invariavelmente lhe ofereceu, fosse ainda pelos contratos ‘blindados’ que lhe foram possibilitando colocar-se a salvo de colegas de equipa eventualmente insubmissos à sua primazia. 

Não concebemos, em síntese, vê-lo resignar-se em 2013 a um papel secundário no seio da Citroen, sacrificando vitórias ou bons resultados em favor de Hirvonen ou Sordo (entretanto confirmados na equipa). 

Não nos parece plausível que o francês, por sua iniciativa ou a pedido de Yves Matton, abdique de andar no limite (mesmo considerando que fará de facto participações ocasionais) para evitar rodar na frente dos seus colegas de equipa. 

Seria atentar contra o seu estatuto. 

Curioso será, portanto, seguir a forma como a Citroen lidará com um cenário em que Séb esteja, num dado Rali, numa posição imediatamente à frente de Dani ou Mikko, com o francês competindo (se partirmos da presunção que o seu assumido miniprograma é para levar a sério, o que, repete-se, duvidamos) sem interesse direto na classificação do campeonato do mundo nem quaisquer hipóteses de revalidação do título. 

Alguém tem o poder (inédito) de ousar pedir-lhe que levante o pé nessas circunstâncias? 

Não nos parece. 

Sébastien Loeb é (não arriscamos, para já, empregar o verbo ser no pretérito) um profissional exemplar, determinado, obcecado pelo detalhe (o segredo dos grandes campeões). 

Não nos recordamos de alguma vez ter entrado em ação sem ver potenciados todos os pormenores que podem fazer a diferença

Aparições esporádicas no mundial de Ralis necessariamente levá-lo-ão a perdas de ritmo competitivo, enfraquecendo a sua performance. 

Acima de tudo não nos parece que, atingidos os píncaros do sucesso, arrisque beliscar, por pouco que seja, a condição de quase infalibilidade que conquistou. 

Michael Schumacher fê-lo na F1. 

O alemão tentou ter (re)entradas de leão: a história reserva-lhe saídas de sendeiro. 

Depois há também um apelo muito forte a que Séb não deixará de ser sensível (e que não se coaduna com trabalho em regime parcial): elevar o número de títulos para a fasquia dos dois dígitos

Atingir a dezena de campeonatos conquistados consecutivamente, seria dotar o seu admirável palmarés de números mais redondos. 

Tão redondos, afinal, quanto as trajetórias imaculadas que o imortaliza(ra)m na modalidade.

(Em agosto do ano passado, aquando da publicação da P.E.C. Nº 82 deste blogue, referimo-nos à 66.ª vitória de Loeb em Ralis do campeonato do mundo. De lá para cá, no curto espaço de pouco mais de catorze meses, conseguiu nove triunfos, quase tantos quantos os conseguidos por nomes como Ari Vatanen ou Timo Salonen na totalidade das respetivas carreiras: sob qualquer ângulo de análise, impressiona).

A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.sudouest.fr/2012/10/07/sebastien-loeb-champion-du-monde-des-rallyes-pour-la-neuvieme-fois-842971-8.php

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