P.E.C. Nº 169: Ontem (ou melhor, anteontem) & hoje...


Ralis e gastronomia quando se juntam exercem perante nós, «Zona-Espectáculo», uma espécie de atração fatal

Assumidamente fazem parte das nossas mais gratificantes vivências pessoais. 

Na P.E.C. anterior deste blogue socorremo-nos de uma foto particularmente ilustrativa da ligação improvável entre estes dois prazeres. 

Regressamos ao tema. 

Em 1970 o Rali de Portugal ansiava projetar-se na Europa

Afirmava-se recusando permanecer orgulhosamente só neste retângulo a sul do velho continente

O coração conceptual da prova estava ancorado na aristocrática vila do Estoril, e a aposta da organização girava em torno do conhecido Casino para conferir um cunho de acrescida reputação ao evento. 

Na altura (um pouco como hoje), a zona da ‘linha’ era vista como o domínio preferencial de uma certa elite lisboeta. 

Num país que não tinha ainda uma relação totalmente democratizada com o automóvel, era naquelas paragens que podiam ser vistos os grandes ‘espadas’ conduzidos pelos principais ‘magnatas’ da época. 

Ter carro próprio constituía, portanto, uma miragem para largas fatias da população, pelo que é natural que os automóveis fossem vistos com o fascínio que ligamos aos objetos de desejo

O Rali de Portugal beneficiava, claro, da empatia que os portugueses votavam aos veículos motorizados de quatro rodas

O evento, além de tudo o resto, era também uma montra de carros potentes que os adeptos lusos só em sonhos podiam ter, como se num passe de mágica a imaginação adquirisse o corpo e as formas da realidade. 

Neste contexto, era portanto comum as ruas adjacentes ao Casino Estoril verem evoluir os bólides inscritos na prova. 

A foto que abre o presente trabalho, colhida em outubro de 1970, mostra a dupla Sandro Munari e Arnaldo Bernacchini ao volante do Lancia Fulvia HF (uma criação italiana sublime, também com porte nobiliárquico, primogénita de toda uma dinastia que se lhe seguiria, do Stratos ao 037, do Delta S4 ao Integrale) da equipa HF Scuderia Corse, a deambular altivamente (mas com elegância indesmentível) pelas ruas do Estoril, enquadrado pelo restaurante «Frolic» como pano de fundo. 

Passados (note-se bem...) mais de 42 anos, o nosso amigo Nuno Branco (que se exprime com iguais doses de talento pelas palavras e pela imagem) foi ao local captando a foto que segue. 

Do outrora «Frolic» não restam vestígios. 

O seu espaço está aparentemente encerrado sem sinais de atividade recente. 

A típica palmeira ainda por lá continua. 

A jovem de vertido curto tecido a cores garridas dedica-se hoje possivelmente a cuidar dos netos com o máximo carinho. 

O traço do prédio mantem-se fiel ao seu passado, sem alterações arquitetónicas de relevo. 

O charme retro da artéria sobreviveu aparentemente incólume à fúria imobiliária que de lá para cá tolheu o país. 

E depois há os Ralis. 

No Estoril há muitos anos não se fazem Ralis

Como o «Frolic», os Ralis parecem ter encerrado portas no Estoril

E devia: no Estoril devia continuar a fazer-se Ralis.


A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-245.htm

Comentários

  1. Se bem que não seja propriamente a mesma coisa, não podemos esquecer que todos os anos em Outubro, as ruas e jardim adjacentes ao Casino Estoril são palco da partida e da chegada do Rali de Portugal Histórico.

    Ainda que por breves dias, somos 'transportados' aos idos anos 60, 70 e 80 com o troar dos motores das máquinas que outrora nos fizeram sonhar e que hoje em dia ainda despertam em nós o fascínio daqueles tempos.

    Abraço,
    VM
    (Le Mans 1969)

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  2. Caro amigo Vasco! O Rali de Portugal Histórico é um evento que me enche as medidas, sobretudo pelo seu percurso (que toca diretamente em vários dos pontos nucleares do Rali de Portugal dos seus anos de ouro), além do conjunto de máquinas absolutamente excecional que a cada ano se apresenta à partida da prova... no Estoril. Em todo o caso, como frisas lucidamente «não é propriamente a mesma coisa». Quando falei que no «Estoril devia continuar a fazer-se Ralis», abordo os Ralis propriamente ditos e devidamente enquadrados em grandes competições nacionais ou internacionais. Diria, Ralis do Campeonato do Mundo para cima - risos -!

    Abraço

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