P.E.C. Nº 170: «Ir ao Rali de Portugal é sobretudo para ‘duros’»


Três fatores marcaram o Rali de Portugal de 2012. 

1. Após a desclassificação de Mikko Hirvonen / Jarno Lehtinen por irregularidades no seu Citroen DS3 WRC, os promissores Mads Ostberg / Jonas Andersson averbaram a primeira vitória absoluta em Ralis do campeonato do mundo. 



2. Por outro lado, pela organização foi resgatada uma certa vocação noctívaga da prova (quem esquece as lendárias noites de Sintra, de Arganil ou da Freita?), abandonada há anos, com a inclusão de classificativas disputadas após o pôr-do-sol que se viriam a revelar aliás madrastas para, entre outros, nomes como Loeb, Sordo ou Armindo

3. Por fim a aparição da chuva no segundo dia das hostilidades, em dose suficientemente abundante para levar ao cancelamento das segundas passagens por Tavira, Alcaria e São Brás de Alportel.

Nessa encharcada tarde de sexta-feira, 30 de março, na qual o Rali pareceu fortemente empenhado em revisitar momentos passados como as edições de 1991 e 2001 (sobretudo estas), estávamos lá (vd. P.E.C. Nº 138 deste blogue). 



A bátega de água que se abateu sobre os fabulosos troços da Serra de Tavira, aliada ao frio e ao nevoeiro, não nos fez esmorecer. 

Afinal, como alguém do grupo de amigos ali presente observou com humor, «ir ao Rali de Portugal é sobretudo para ‘duros’»



Desconhecemos, dentro dessa máxima, se Charles Bronson ou Chuck Norris gostam de Ralis. 

Nós, elevados agora à condição de ‘duros’, gostamos.

Muitíssimo.

Gostamos a ponto de suportar toda e qualquer agrura para ver os nossos carros e pilotos de eleição. 

O cancelamento das segundas passagens pelas citadas especiais viria a privar-nos de pôr ainda mais à prova toda a nossa ‘dureza’


Afinal tínhamo-nos levantado pelas primeiras horas da madrugada, feito cerca de 400 quilómetros (entremeados por doses cavalares de cafeína) em meia-dúzia de longas (parecem sempre longas…) horas a conduzir, e afinal um leviatã chamado São Pedro estragava-nos os planos fazendo-os, literalmente, ir por água abaixo

A decisão de não fazer disputar classificativas (em qualquer Rali que seja…) gera quase sempre celeuma, frustrando expetativas de concorrentes e público. 



É raro um cenário-limite como este ser devidamente explicado por quem organiza, e melhor compreendido por quem segue ou disputa um Rali. 

No Algarve, no final de março, a polémica instalou-se e um coro de vozes não deixou de se levantar insurgindo-se contra o cancelamento das segundas passagens pelas soberbas classificativas de Tavira, Alcaria e São Brás de Alportel

Como é habitual nestas circunstâncias, sobrou em ruído o que faltou em aprofundamento das razões que conduziram a tal facto. 



O conjunto de admiráveis fotos que publicamos no presente trabalho, talvez ajude a perceber o cenário diluviano que naquele dia se abateu na Serra de Tavira. 

Além das mais elementares normas de segurança estarem em causa, fica mais ou menos claro que a tentação de transformar o Rali de Portugal numa prova de todo-o-terreno, procurando misturar água e azeite, seria no mínimo arriscada, em concreto até irrealista. 


É claro que para o público ali presente ficou o natural sentimento de algum amargo-de-boca

Ir a Ralis para ver carros e pilotos em ação, esperar pacientemente (e com o estoicismo em alta-rotação) várias horas, e depois nada se passar, é desolador para 'duros' como nós.

Um quadro tão contrastante quanto 'duros' como os citados Bronson ou Norris integrarem o elenco de uma qualquer realização de Manoel de Oliveira.



Nota
É já conhecido o figurino do Rali de Portugal do próximo ano. Dele não constam os troços da Serra de Tavira, que tantos encómios mereceram em 2012 por parte dos concorrentes à prova. Desportivamente o Rali fica a perder, órfão agora de locais que pilotos e público foram identificando como as novas ‘catedrais’ do evento na sua idiossincrasia sulista. A organização da prova tem adotado como discurso oficial a ideia que o abandono daquela zona se deve aos problemas ocorridos na última edição do evento, procurando evitar que se repitam no futuro. Em concreto receamos que os motivos reais sejam outros: as respetivas edilidades não terem capacidade financeira (até pelos problemas com os incêndios de verão que devastaram a região) para continuar a apoiar financeiramente o Rali.



AS FOTOS PUBLICADAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=83606
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=83610
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=83623
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=83628
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=83630
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=83661
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=82414
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=82420
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=82420
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=82618
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=82635
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=82593

Comentários