P.E.C. Nº 173: Os 'cinquentões' estão de regresso!
A
FIA, na pessoa de Jean Todt, tem vindo a lançar sucessivos avisos à navegação,
suficientemente explícitos para não deixar de inquietar vários dos
organizadores de Ralis disputados na Europa e integrados no calendário do WRC.
O plano de ação da Federação Internacional passa por disseminar noutros pontos
do planeta as etapas do mundial, diminuindo, claro está, o número de eventos
que atualmente se disputam no velho continente.
Deixando à margem a discussão
sobre a razoabilidade desta intenção (que se percebe à luz dos princípios e dos
interesses comerciais, mas que abre profundas reservas no plano puramente
desportivo), fica à vista o propósito de tirar de uma certa zona de conforto
diversas provas, algumas delas até com o estatuto de «clássicas», nas quais necessariamente
ter-se-á de incluir o nosso Rali de Portugal.
Que nos intrincados meandros da
Praça da Concórdia o nosso país tem um peso político quase residual, não será
novidade de maior.
Dizer que o mercado automóvel português é no geral pouco
expressivo, redunda numa evidência.
Portugal não tem sequer construtores
automóveis de referência, daqueles que conseguem fazer vingar junto das
instâncias internacionais o peso dos seus interesses comerciais.
Dois dos
nossos pilotos mais emblemáticos (Armindo e Bernardo) parecem até estar em rota de
colisão com o campeonato do mundo de Ralis, inclusive admitindo aberta e
preocupantemente redirecionar as respetivas carreiras para as provas de
velocidade.
Não temos, em suma, pessoas capazes de influir decisivamente nas altas
esferas do automobilismo internacional.
O que temos neste contexto para
oferecer?
O próprio Rali de Portugal!
A prova pensada por Pedro Almeida e
executada pelo ACP continua em inúmeros aspetos a marcar pontos quando
comparada com diversos outros Ralis do WRC.
Organizamos bem, temos um acervo de
experiência acumulada que torna o nosso evento bastante fiável (mesmo perante
contratempos como a chuva diluviana de 2012), as equipas e concorrentes tecem
consideráveis elogios aos troços e ao esquema de Rali que lhes é proposto, pelo
que fazer melhor que os outros será o mais determinante passaporte para que a
etapa portuguesa permaneça no mundial de Ralis para além de 2015.
Se fazer
melhor que a concorrência é uma vantagem competitiva importante, pode, porém,
não ser suficiente.
Há que fazer melhor mas, em simultâneo, fazer diferente,
indo de encontro à filosofia da FIA (propósito que, aliás, também coloca uma
série de interrogações de diversa ordem) de recuperar um certo espírito do
passado dotando cada Rali de identidade própria, de molde a que se potenciem as
tais «histórias para contar».
A equipa liderada por Pedro Almeida soube
compreender esses recados vindos de Paris.
Se em 2012 tivemos pela primeira vez
ao fim de vários anos classificativas disputadas à noite, para o próximo ano a cereja
em cima do bolo tem o considerável tamanho de 52,3 quilómetros ,
afinal a extensão da especial de Almodôvar que poderá vir a ser crucial na
decisão do Rali e que reveste o aliciante adicional de coincidir, na sua
segunda passagem, com a power stage
do evento.
Ao fim de muitos anos, o Rali de Portugal volta a incluir um troço «cinquentão»,
daqueles com mais de meia centena de quilómetros a mediar o semáforo verde da
tomada de tempos final.
Em rigor, no passado só num local isso se
verificou, quando entre 1983 e 1986
a classificativa de Arganil assumiu formas mais
grandiosas do que as que lhe conhecíamos até então, passando a medir respeitáveis 56,5 quilómetros .
Nesse pedaço de terra, entre as aldeias de Vale de Maceira e de Lomba, está concentrada
grande parte da história do Rali de Portugal.
Dali provém muita da memória
visual que temos da prova (Penedos Altos, a Casa do PPD, o Mosteiro de Folques
ou Selada das Eiras são retratos que perpetuam a identidade do evento), ali se
personificam as dificuldades (a noite, o piso demolidor, a chuva, o nevoeiro,
as ravinas sem fim) que foram conferindo um estatuto mí(s)tico ao considerado à
altura «melhor Rali do mundo».
Em Arganil, não só mas também naqueles 56,5 quilómetros ,
os espectadores fizeram durante anos o melhor estágio para aprender a «ser
público», resistindo às mais atrozes agruras (frio, vento, chuva, pó a rodos, caminhadas
a pé sem fim, tudo amenizado por uma imponência paisagística sem igual…) com que
aqueles ermos os flagelaram ano após ano.
Os 56,5 quilómetros
(extensão oficial que, aliás, não é unânime coincidir com a medição real,
dúvida que também contribui para reforçar o mito) têm tudo sob o prisma da
condução: íngremes descidas e subidas, ganchos apertados para todos os gostos e
feitios, curvas rápidas, zonas de coração a recomendar à crença que tome o
lugar da racionalidade, ou longas retas para puxar pelo pulmão dos carros.
Os 56,5 quilómetros
de Arganil são hoje, pela soma de todos estes fatores, uma espécie de
«consciência moral» do Rali de Portugal.
Nessa medida, pensamos ser boa ideia
recuperar a grandeza (de tudo, não apenas da quilometragem) que lhe está
subjacente, transpondo-a para a atualidade.
Dizem que os cinquenta anos são a
idade que se assume como fiel da balança entre o nervo da juventude e a
temperança dos que têm mais idade.
Num troço «cinquentão» (conjugação de excertos já
conhecidos das anteriores especiais de Ourique, Santa Clara e Almodôvar, com
partes inéditas em matéria de Ralis), realizar bons tempos vai estar ao alcance
de quem mentalmente adotar a tal «atitude de 50 anos», sem a energia em excesso
própria dos mais novos nem a quietude que geralmente atribuímos à
terceira-idade, dentro de um andamento mais pautado pela razão que pela emoção.
O modelo
proposto para o Rali de Portugal do próximo ano suscita-nos reservas diversas.
Foram abandonadas, de novo, as magníficas classificativas da Serra de Tavira,
não vislumbramos quaisquer vantagens na incursão a Lisboa para realizar uma
super-especial de interesse desportivo residual ou até mesmo nulo (embora a
enquadremos na necessidade de ir ao encontro dos interesses mediáticos dos
patrocinadores do evento), e estamos em crer que uma extensão total de cerca de
1.600 quilómetros é excessiva se recordarmos que, em anos recentes, o Rali de
Portugal beneficiou da sua compactação para se projetar como uma prova fácil de
treinar e relativamente pouco onerosa para os respetivos concorrentes.
No
entanto, quando há um novo (e longo) fio condutor de expetativas a ligar Rio Torto
às Fontes Ferrenhas, quando temos, por exemplo, o gancho da Santinha a querer
afirmar-se como uma espécie de «Casa do PPD, XXI», quem no fundo se importa com
isso?
Nota:
- Sobre a lendária classificativa de Arganil com 56,5 quilómetros de extensão recomendamos o reconhecimento à P.E.C. Nº 74 deste blogue.
Visualizar ALMODÔVAR, 2013 em um mapa maior
A FOTO/LOGOTIPO PRESENTE NESTE TRABALHO, FOI OBTIDA EM:
- http://www.rallydeportugal.pt/homepage.aspx?menuid=1



Nota 10 a este artigo, de principio a fim.
ResponderEliminarCarlos Baptista
Muito obrigado, caro Carlos Baptista! Ficamos é sem saber se a sua 'nota 10' é numa escala de 1 a 10, numa de 1 a 20, ou numa de 1 a 100 (risos)...
ResponderEliminar(É sempre motivador percebermos que o nosso trabalho suscita interesse a quem nos visita).
Se pudesse tornar visível o álbum de fotos do picassa da PEC 74, eu agradecia.
ResponderEliminarCumprimentos de um grande fã do vosso trabalho!
Muito obrigado pelas suas palavras! O portfólio de fotos em questão não é da nossa autoria, constatamos agora que o respetivo link de facto não permite o acesso à visualização das mesmas, mas vamos procurar ultrapassar a questão de molde a que quem assim o deseje possa, então, ter acesso às fotografias tiradas aquando da romagem da saudade.
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