P.E.C. Nº 174: Olhar para o futuro do CPR sem perder de vista algumas (boas) ideias do passado. O caro leitor AX que sim ou AX que não?


Das aventuras de Romãozinho nos verdes anos do Rali de Portugal, até à recente vitória de Ivo Nogueira no «Rali Casinos do Algarve», é longo, frutuoso, e, acima de tudo, extremamente digno o registo da Citroen nas provas de estrada do nosso país.

A marca francesa sempre soube compreender melhor que a maioria das suas congéneres, a cada momento da ligação que regularmente foi mantendo com os Ralis nacionais, as idiossincrasias próprias da modalidade.

Foi assim que contornou os crónicos problemas de falta de divulgação deste desporto para se envolver a nível oficial com um projeto vencedor fielmente interpretado por Armindo Araújo.

Assumindo em inúmeras ocasiões uma estratégia ousada, quando a razão a espaços até nem o recomendaria, fez evoluir nas classificativas nacionais, entre outros, carros como o DS, o Visa, o AX, o Saxo (nas versões KitCar e S1600, que ainda hoje ditam cartas em competições como o Open de Ralis ou campeonatos regionais), o BX, o Xsara (uma espécie de estetoscópio de eleição para o Dr. Calisto auscultar o pulsar dos Ralis), o C2, ou os DS3 com que Ivo Nogueira e Paulo Neto disputaram o CPR na temporada de 2012.

Com equipa própria ou através da organização de diversos troféus monomarca, o percurso da Citroen em Portugal confunde-se em larga medida com a própria história dos Ralis neste país.

Serviu e foi servida por alguns dos melhores pilotos nascidos por estas paragens.

Das diversas realizações que levou a cabo, uma das mais relevantes terá sido o troféu AX para Ralis, colocado na estrada no início da década de noventa e absolutamente marcante na modalidade durante os anos que se seguiriam.

O segredo do sucesso desta competição assentou, à época, em pilares simples: adequar um utilitário muito popular entre os portugueses à realidade dos Ralis nacionais, criando-se uma competição com carros fiáveis, deveras acessíveis nos custos de aquisição e manutenção, apresentando índices de performance suficientemente apelativos para seduzir nomes consagrados, mas servindo em simultâneo de rampa de lançamento a diversos jovens valores que despontavam por esses anos.

Olha-se para os quase sessenta minutos de imagens que abaixo partilhamos, relativas à edição de 1991 do troféu Citroen AX, e vemos um naipe de inscritos impressionante, quer na quantidade, quer na qualidade, capaz de nos fazer esboçar um sorriso quando recordamos a realidade do atual CPR.

José Inverno Amaral (campeão nacional de Ralis quatro anos antes), Tomaz Mello Breyner, José Carlos Macedo, Rui Madeira, Pedro Azeredo, António Bayona, Pedro Leal ou Victor Calisto eram figuras de proa na arte de fazer malabarismos com o volante e alavanca da caixa de velocidades.

Declamações literárias dentro dos pequenos bólides franceses (para nós há verdadeira e sentida poesia num qualquer «esquerda-média-mais-não-corta-fecha-no-fim») eram levadas a cabo por vozes inconfundíveis como as de, entre outros, Rui Bevilacqua, Filipe «Fifé» Fernandes ou Miguel Borges.

Em 1991 o campeonato nacional de Ralis vivia tempos de indefinição.

Carlos Bica entrava na reta final de um longo ciclo de vitórias, preparando-se para transmitir o testemunho ao irmão Jorge.

A incontornável equipa Diabolique era, para nos socorrermos do léxico profissional do seu mentor de sempre (Miguel Oliveira), um processo findo com decisão transitada em julgado.

O arrebatamento de António Coutinho emigrava na procura de novos desafios, e o histórico Joaquim Santos, órfão da sua equipa de sempre, procurava adaptar-se a uma nova realidade, agora aos comandos de um Celica de quatro rodas motrizes.

José Miguel Leite Faria (um piloto de grande qualidade que o decurso do tempo fez injustamente cair num certo esquecimento) era o rosto cimeiro da renovação geracional que começava a marcar os Ralis nacionais.

Não podemos esquecer também, neste apelo à nossa memória, Carlos Carvalho, invariavelmente desconcertante aos comandos no imponente Mitsubishi.

Em 1991 era esta a realidade do CPR.

Os dedos de uma mão quase chegavam para contar os pilotos de topo (os que se permitiam discutir triunfos à geral) a competir no nosso campeonato de Ralis.

A modalidade, para ganhar corpo e músculo (leia-se Ralis com um número expressivo de inscritos), socorria-se então de dois interessantes troféus monomarca, oriundos de produções gaulesas: Citroen e Renault.

A competição da marca do double chevron assumiu-se ao tempo, como vimos anteriormente, como um bálsamo redentor capaz de federar no mesmo espaço pilotos consagrados e jovens talentos transbordando desejo de afirmação, colocando frente-a-frente experiência e irreverência, ponderação e voluntarismo.

Quando assim é estamos perante um cocktail irrecusável, produzido naquele tipo de shaker onde se mistura em doses abundantes condução de qualidade e vontade de vencer.

As imagens que mais abaixo disponibilizamos dão-nos, assim, conta do quesito essencial para uma boa competição de Ralis: um expressivo conjunto de pilotos a lutar sem tréguas, jamais se dando por vencidos.

A fórmula proposta pela Citroen em 1991, assente em bases realistas, mostrou-se muito bem-sucedida.

Vingou porque os seus carros eram acessíveis e possuíam prestações interessantes.

Singrou porque, pelos motivos indicados nos parágrafos anteriores, muitos e bons pilotos viram nela o começo ou continuidade de um percurso desportivo.

Tal como hoje, há vinte e dois anos o nacional de Ralis tinha indisfarçáveis vulnerabilidades.

Não defendemos que a resolução das mesmas se faça, sem mais, com o endosso aos troféus monomarca da responsabilidade em se assumir como o balão de oxigénio para resgatar a modalidade de letargia em que se deixou (ou a deixaram…) cair nos últimos anos.

Dos Citroen AX em 1991 vem, todavia, um ensinamento que, no plano dos princípios, poderia servir de reflexão aos principais responsáveis por este desporto em Portugal: de que é possível, afinal, organizar uma competição carregada de interesse com carros de baixo custo, geneticamente de série, despojados de (dispendiosos) artifícios e gadgets desnecessários, decorados apenas com os indispensáveis elementos de segurança e, se possível do ponto de vista técnico, aumentando-lhes o diâmetro do restritor de admissão de ar ao motor.

Em resumo: potência em doses consideráveis, domesticável apenas pela perícia do pé de quem conduz.

No diálogo de surdos em que se está a transformar a anunciada «meia-fusão» entre CPR e Open de Ralis (a gerar, já, opiniões para todos os gostos e feitios, fazendo adivinhar na modalidade a turbulência que se seguirá), desconfiamos que o futuro das competições de estrada em Portugal deva passar por, partindo de uma folha regulamentar em branco, assumir preferencialmente a soberania nacional de construirmos carros de acordo com a nossa realidade (baratos e potentes, conceitos que não são antagónicos entre si), do que estarmos sobre a permanente intervenção externa da FIA, aceitando sucessivos pacotes de pretensa ajuda sob a forma de S2000 ou «grupos N» (estes últimos, eles próprios em processo de divórcio com os orçamentos de muitos pilotos e equipas que militam nos Ralis deste país).

À falta de dinheiro para um parque automóvel suficientemente expressivo e diversificado para dignificar o campeonato nacional, o debate em torno de uma «Fórmula Portugal» para Ralis, adequada à nossa realidade e envolvendo marcas, preparadores e pilotos num projeto regulamentar estável a vários anos, atrativo pelas prestações e reduzidos custos dos carros, deve ser uma ideia a incrementar.

Notas:

- O presente trabalho inspirou-se no troféu Citroen AX Sport disputado em 1991, e serve como evocação, ainda que muito singela, à memória do vencedor da competição nessa temporada, o saudoso Tomaz Mello Breyner. Se a memória não nos atraiçoa, tivemos oportunidade de conhecê-lo pessoalmente em 1996, por ocasião do «Rali Rota do Sol», quando tripulou (bem depressa, por sinal) um Nissan Micra ex-troféu na qualidade de carro ‘0’. Algures nas matas nacionais em São Pedro de Moel, na pausa entre duas classificativas, aquela figura imponente e bem-disposta fumava descontraidamente um cigarro, verificava alguns pormenores da mecânica do pequeno Micra, enquanto de premeio fazia ecoar o seu vozeirão nas florestais em questão ao mandar, provocatório, umas bocas aos concorrentes que iam fazendo o percurso de ligação. Simpatizámos de imediato com Mello Breyner, com quem ali acabámos por estar à conversa diversos minutos. Anos mais tarde, sentimos com pesar o seu desaparecimento. À falta de outra melhor maneira de recordá-lo, fica aqui, então, o testemunho visual de toda a determinação que sempre o caracterizou, ao volante dos pequenos Citroen AX.


- Há pilotos que têm um dom. Conseguem extrair de imediato o máximo das potencialidades de qualquer carro que guiam. Quando conduzem, conduzem invariavelmente bem. Fazem-no com entrega total, sofrida se necessário. Um troço não pode ser feito como se de uma sessão de relaxamento se tratasse. Tem que ter stresse. Esforço. O pedal de travão, inimigo a abater, é para ser aniquilado/pisado com máxima força, quase com laivos de bestialidade. O acelerador esmaga-se até berrar de dor, entalado entre a bota direita do condutor e o fundo do automóvel. O volante tem que ser torturado para a esquerda e direita vezes sem conta até tombar, prostrado e obediente, às mãos do piloto. O travão de mão é para ser levado ao limite da elasticidade, esticado com nervo e força até ao fim do seu curso. Sim, que um carro de Ralis não pode nunca, como é dos livros, ser educado com maciezas. Falarmos em exuberância leva-nos invariavelmente, claro, a Macedo. As imagens que seguem mostram o piloto de Braga a encher o ecrã a cada passagem do seu AX, só ao alcance de quem por artes mágicas consegue fazer o carro andar em simultâneo mais de lado e mais para a frente que os demais adversários. O jogo sincronizado entre pés e mãos de José Carlos Macedo é de tal forma admirável que mesmo agora, retirado da competição, não nos espantaria que, por exemplo, sempre que entra em casa, qualquer coisa como o rodar da chave na fechadura em simultâneo com o sacudir os sapatos no tapete seja feito com recurso ao portentoso sentido de espetacularidade que sempre o caraterizou.    



A FOTO EXIBIDA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.filipefifefernandes.com/v1/index.php?option=com_content&view=article&id=18&Itemid=25

Comentários