sábado, 12 de janeiro de 2013

P.E.C. Nº 178: Figueira da Foz/1997, ou qualquer coisa como «o mesmo fervor com que os clientes irrompem pelos armazéns Harrods em dia de abertura da época de saldos»...









O caderno de encargos para organizar um Rali envolve um número tão elevado de imponderáveis, que na prática se torna impossível antecipar com rigor todos os cenários que possam ocorrer. 

Mesmo para uma entidade experimentada nesta andanças como o Automóvel Club de Portugal, que sempre nos habitou a elevados padrões de excelência enquanto organizador de Ralis (com especial incidência, claro está, no Rali de Portugal), há por vezes situações inesperadas que requerem decisão imediata e necessariamente firme, sobretudo quando está colocada em causa a segurança dos concorrentes e/ou do público. 

Neste contexto podemos recordar a tragédia de Sintra em 1986, ou a chuva incessante que se abateu sobre o nosso país em 2001 e 2012, como exemplo de fatores extra-desportivos e imprevisíveis que podem marcar indelevelmente uma prova. 

O presente trabalho vai de encontro a essa ideia. 

Recordamos nos parágrafos que seguem as peripécias (felizmente não passaram disso) vividas na Serra da Boa Viagem/Figueira da Foz na tarde do dia 23 de março de 1997 (sobre o Rali de Portugal desse ano, sugerimos visita à P.E.C. Nº 172 deste blogue)

A intenção de desenhar uma pequena classificativa perto do centro nevrálgico da prova (nesse ano, a cidade da Figueira da Foz), servindo como aperitivo para os dias (intensos no plano desportivo, adivinhava-se) que se seguiriam, era acarinhada em todos os quadrantes, de pilotos ao público, dos jornalistas às equipas inscritas. 

A organização, para o efeito, desenhou um troço em asfalto na Serra da Boa Viagem, com três quilómetros e setecentos metros de extensão (ver infografia infra), que parecia ajustar-se na perfeição ao exercício de aquecimento que se pretendia para abrir o Rali em grande estilo. 

Não era difícil prever que o público iria comparecer massivamente. 

Afinal os aficionados portugueses (e os muitos espanhóis que seguiam com entusiasmo o evento) estavam ávidos das emoções que só o Rali de Portugal pode proporcionar. 

A esse fator acrescia o facto de no ano anterior a massa humana de entusiastas ter ficado privada de ver em ação os melhores pilotos do mundo (os tradicionais 365 dias de espera são uma eternidade, imagine-se agora o sobressalto e angústia de ter de aguardar o dobro do tempo)

Por seu turno havia também a oportunidade de em primeira mão aferir as prestações e espetacularidade que os novos WRC vinham exibindo nos Ralis anteriores, Monte Carlo, Suécia e Safari. 

Com máquinas de eleição e um contingente de pilotos do mais fino quilate, adivinhava-se que os espetadores iriam acorrer à especial da Figueira da Foz com o mesmo fervor com que os clientes irrompem pelos armazéns Harrods em dia de abertura da época de saldos. 

À medida que se aproximava a data do início das hostilidades, emergia outro problema. 

A classificativa da Figueira da Foz tinha no percurso proposto uma reta com mil e quinhentos metros (para contextualizar, refira-se por exemplo que a longa reta da meta no autódromo do Estoril tem oficialmente 986 metros), na qual os carros iriam seguramente atingir velocidades proibitivas, sobretudo pouco compagináveis com grandes multidões em estado de exultação. 

A direção de prova decidiu precaver-se. 

Como medida preventiva encurtou o troço em cerca de 2,2 quilómetros, expurgando a sua parte final. 

Se é certo que o público ficava agora mais compartimentado, não é menos verdade que, pelo menos no papel, seria por essa via mais facilmente controlável. 

Condensada a multidão em quilómetro e meio, bem antes da hora designada para arranque do troço se percebeu que à organização estava desde logo garantida uma forte dor de cabeça. 

Talvez os adeptos tenham afluído em número maior do que se imaginava. 

É possível que se tenha avaliado mal os riscos de fazer disputar uma classificativa em escassos mil e quinhentos metros, com dezenas ou centenas de milhares de pessoas a ladear a estrada. 

Certo é que cedo se intuiu que controlar tanta gente contagiada por um clima de euforia, era tão improvável como pretender que os ex-ministros Marques Mendes e/ou António Vitorino travassem uma formação ordenada da equipa de râguebi das ilhas Samoa. 

Ainda assim, disputada entre dois densos muros humanos (os filmes abaixo partilhados são paradigmáticos…), a especial foi para a frente. 

Se os motivos para preocupação devido ao público eram por demais evidentes, o insólito fazia também sua a aparição do lado dos concorrentes. 

A dupla campeã do mundo em título, Tommi Makinen e Seppo Harjanne, durante o processo de pesagens antes da prova sofria o azar de um tubo da balança enrolar-se no semieixo do seu Mitsubishi, provocando uma rutura de óleo. 

O problema não terá sido detetado atempadamente; se foi, terá sido negligenciado. 

Certo que o duo da equipa Ralliart se apresentava à hora marcada para o ataque ao troço desenhado na Serra da Boa Viagem

Percorridos os primeiros metros, logo o carro nipónico drenou óleo em doses abundantes para o asfalto, colocando dificuldades acrescidas aos demais concorrentes que se lhe seguiam. 

Uma catarse coletiva e piso escorregadio, juntos podiam entrar em fricção a qualquer instante. 

Além disso, quem entrou em ação após Makkinen estava em notória desigualdade competitiva relativamente a quem o tinha feito antes do finlandês, dado o estado deveras traiçoeiro da especial.

Neste cenário, o A.C.P. acabaria por dar sem efeito a classificativa, anulando os tempos realizados. 

Entre o «inacreditável!» de Nicky Grist e o «nunca tinha visto nada assim: animais!» de Luís Moya, a Figueira da Foz, versão 1997, ficará talvez para a história como o único troço de sempre no campeonato do mundo em que os navegadores passaram mais tempo a expressar onomatopeias de espanto que a cantar notas de condução aos respetivos pilotos.



«FIGUEIRA DA FOZ/1997» (projeto inicial)


Visualizar FIGUEIRA DA FOZ/1997 - Projeto inicial - em um mapa maior

«FIGUEIRA DA FOZ/1997» (troço efetivamente realizado)


Visualizar FIGUEIRA DA FOZ, 1997 em um mapa maior

I) - COLIN MCRAE / NICKY GRIST (Subaru Impreza WRC97)
 | 23 de março de 1997 | 



II) - PEDRO AZEREDO / FERNANDO PRATA (Renault Mégane Maxi)
 | 23 de março de 1997 | 



III) - CARLOS SAINZ / LUÍS MOYA (Ford Escort WRC)
 | 23 de março de 1997 | 



IV) - COLIN MCRAE / NICKY GRIST (Subaru Impreza WRC97)
 | 23 de março de 1997 | 


AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://abeiramar.blogspot.pt/2009/05/boa-viagem-de-regresso.html
- http://www.facebook.com/pages/Santos-Rally-Channel/277287435638270
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-420.htm
- http://www.juwra.com/portugal_1997.html

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