P.E.C. Nº 179: Relvas na cidade de Tomar...


Sosseguem-se os nossos visitantes: ao contrário do que o título possa eventualmente sugerir, o presente trabalho não visa aprofundar a relação deveras peculiar entre um político muito em voga e a cidade banhada pelo rio Nabão. 

Baseámo-nos, antes, num trabalho publicado na revista AutoSport n.º 1828, de 9 de janeiro de 2013, republicando uma reportagem daquela publicação datada de 1999 e assinada pelo jornalista José Ribeiro, na qual se desenvolviam já aí, há catorze anos, algumas questões sobre o processo de progressivo asfaltamento de várias estradas/caminhos em terra batida do Portugal interior, matéria que causava naturais dificuldades aos organizadores de Ralis disputados nesse tipo de piso. 

A relação que os nossos decisores políticos (a nível central e local, sem grandes distinções) mantêm com o alcatrão é quase ancestral e de indiscutível enamoramento

Uma estrada nova (ainda que de duvidosa necessidade) é um cartão-de-visita irresistível. 

Um tapete viário a estrear é o alfa e ómega da ideia, tantas vezes de duvidosos méritos, a que se convencionou denominar «fazer obra»

Sustentado nesta filosofia, Portugal devia ter no plano dos princípios um conjunto de rodovias de grande qualidade. 

Porém, muitos quilómetros de estradas não significam necessariamente bons quilómetros de estradas. 

Não podemos esquecer que boa parte dos nossos responsáveis políticos são com frequência tão lestos a fazê-las (de raiz ou alcatroando percursos em terra batida) como depois, às vezes logo após, a abrir-lhes roços, invariavelmente mal tapados e pejados de remendos, que transformam parte considerável do nosso mapa viário em algo de semelhante a um qualquer subúrbio de Kinshasa ou Adis Abeba. 

Recentremos todavia a questão nos Ralis. 

Colocar na estrada um Rali bacteriologicamente puro, constituído por troços só em gravilha, não é tarefa simples, sobretudo se a aposta incidir em especiais de maior extensão. 

As organizações vão tentando colmatar o problema reduzindo as quilometragens das classificativas, procurando também no terreno novos locais para fazer disputar as provas, mas ainda assim é cada vez mais comum vermos troços em terra onde nalguns dos seus segmentos o asfalto faz aparição. 

Em paralelo, refira-se que os nossos campeonatos têm pouca tradição no aproveitamento de antigas classificativas em terra (cuja superfície tenha entretanto passado a alcatrão), para nelas fazer disputar provas de asfalto. 

De memória citamos os bons exemplos das antigas classificativas de Mões, Covêlo de Paiva, Vila Pouca (reutilizada parcialmente no último Rali de Mortágua) ou Buçaco (vd.  P.E.C. Nº 176 e 177 deste blogue), que, não obstante a mudança de piso, continuaram, pelo menos em parte da sua extensão, a assumir relevância no contexto dos Ralis nacionais. 

Se a tendência em substituir a pedra e o pó pelo alcatrão (passar das havaianas para os melhores Geox não significa necessariamente mais conforto no caminhar…) parece irreversível, há contudo locais importantes na história dos Ralis que teimam em contrariar essa lógica. 

As duas fotos que abaixo colocamos dão-nos um exemplo eloquente do que acabámos de referir. 

Não obstante proliferarem pela net sem identificação do respetivo autor, nunca é de mais esclarecer que foram obtidas durante as edições do Rali de Portugal de 1982 e 1987 pelo nosso amigo de longa data e companheiro de andanças nestas coisas do automobilismo, Paulo Alexandre Marques

O local é a prazenteira cidade de Tomar, mais concretamente a zona contígua ao Hotel dos Templários, onde a caravana nesses anos cumpria um período de neutralização antes do arranque para as classificativas finais da prova, rumo ao Estoril para o saudoso slalom (a abaladiça que rematava a rigor o Rali)

Com o seu quê de simbólico, coincidentemente ambas as fotografias retratam os carros que nessas duas ocasiões, em 82 e 87, lutaram pela vitória concluindo nos dois lugares mais altos do pódio, juntando ainda, no primeiro caso, o bólide do melhor português (e 4.º classificado final à geral) no evento. 

Arremessámos recentemente ao Paulo o desafio de se reencontrar com o passado, lançando-lhe o repto para, volvidos vários anos, regressar o local. 

O resultado da visita fica expresso no presente trabalho. 

A maior curiosidade reside no facto de, ao contrário da tendência desenvolvida por José Ribeiro na AutoSport em 1999, haver afinal locais intimamente ligados aos Ralis que no passado exibiam alta-ourivesaria sobre a forma de asfalto, e acabaram por ser render à simplicidade sempre elegante de um relvado bem cuidado.

 6 | MARÇO | 1982 
Michèle Mouton / Fabrizia Pons (Audi Quattro)
Per Eklund / Ragnar Spjuth (Toyota Celica)
Carlos Torres / Filipe Lopes (Ford Escort RS 1800)


14 | MARÇO | 1987
Markku Alén / Iilla Kivimaki (Lancia Delta HF)
Jean Ragnotti / Pierre Thimonier (Renault 11 Turbo)


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