P.E.C. Nº 180: Ralis em 'cativeiro'...
Os
Ralis em Portugal estão em fase de mutação.
Após muitos anos de
sobredimensionamento onde não se adotaram medidas para
ajustar a modalidade à realidade do país, a palavra de ordem, amplificada pela
brutalidade da crise, passou a ser compartimentar.
Os municípios (sobretudo os que tradicionalmente têm sido parceiros fortes das
entidades organizadoras) estão exauridos financeiramente.
A tesouraria dos
clubes (mesmo dos mais emblemáticos) está no limite da solvabilidade.
A
modalidade continua com extrema dificuldade em se promover, por falta de
dinheiro mas também pelo défice de imaginação dos seus principais
intervenientes.
Patrocínios expressivos, além da mera carolice de amigos e
conhecidos, são cada vez mais palavra vã.
Concorrentes e equipas em geral
desesperam para colocar de pé os seus projetos.
Estabilidade regulamentar com
garantias a médio prazo é uma quimera.
Os construtores olham para a modalidade
com o mesmo interesse com que Pinto da Costa olha a sala de troféus do estádio
da Luz.
Todos estes problemas somados (e são muitos) estão a levar os Ralis, de
forma talvez forçada, a um banho de realismo.
Há em curso um processo de adelgaçamento deste desporto, em que uma
das vertentes mais visíveis reside no formato das provas, cada vez mais
compartimentadas na sua quilometragem total e no número de classificativas.
Percebe-se: o voluntariado para colaborar na organização de Ralis ainda é
admirável mas já terá conhecido melhores dias, e os custos com policiamento são
a fatia de leão dos orçamentos dos organizadores.
Será, então, por aqui que se
pode de facto reduzir encargos.
Aliás, Ralis curtos são em tese menos dispendiosos
para quem participa, fator fundamental para atrair inscritos garantindo listas
de concorrentes bem recheadas.
O debate, porém, deve em paralelo também
centrar-se num outro aspeto: saber até que ponto compartimentar as provas em demasia não pode originar disfunções
relativamente à matriz genética da modalidade.
A questão, meramente conceptual, prende-se com uma série de Ralis Sprint
que o Clube Automóvel do Minho tem vindo a colocar em prática, de que a 4.ª
edição, realizada no passado dia 13 de janeiro, é exemplo concreto.
O «C.A.M Rali Festival» tem na sua essência a disputa de curtos troços desenhados
no interior do circuito Vasco Sameiro, bem como no kartódromo internacional de
Braga ali adjacente.
A ideia merece o maior aplauso.
O evento tem vindo a ser um
sucesso considerável, garantindo inscrições expressivas em número de pilotos e
muito diversificadas quanto aos bólides em ação.
O projeto é de tal forma bem gizado que já transpôs
inclusivamente fronteiras, captando a atenção de equipas e pilotos espanhóis, dos
quais o campeão Sérgio Vallejo e o seu imponente Porsche são apenas o exemplo
mais mediático.
O C.A.M tem a indesmentível proeza, então, de ter conseguido
organizar um Rali capaz de agradar a gregos e a troianos, que é como quem diz,
ser tão atrativo para as grandes equipas como para os pilotos que contam cada
cêntimo do respetivo orçamento visando dar expressão ao seu apego pela
modalidade.
Quem organiza merece elogios por saber interpretar os tempos
conturbados que os Ralis atravessam, abrindo uma janela de oportunidade a quem
de outra forma não conseguiria fazer os carros sair do portão do quintal.
Quem
compete é credor do maior respeito por dizer presente e ir a jogo, contribuindo
dessa forma para notabilizar este desporto.
Na condição de adeptos (e apenas
nessa condição), questionamos contudo se desportivamente este tipo de Rali,
pela ideia de repetição que lhe está subjacente, pela aproximação algo 'perigosa' a provas de drift ou perícia, e pelo facto de se disputar em certa
medida à porta fechada, não desvirtua, pelo seu formato, os fundamentos de
sempre da modalidade, um pouco à semelhança do futsal que à generalidade dos
adeptos suscita menos atenção que o
futebol de onze.
Os Ralis são uma expressão de liberdade.
A liberdade dos
pilotos para corrigir a trajetória numa curva que lhes reserva um imprevisto
(em troços de pouquíssima extensão e conhecidos ao centímetro, isso
dificilmente sucede).
A liberdade dos adeptos em circular de troço para troço
(ou em vários pontos de uma mesma especial) e imaginativamente transformarem no
mais luxuoso dos camarotes uma qualquer árvore ou morro de terra.
Ou a
liberdade das entidades organizadoras em ir alterando classificativas ou
esquemas de prova de ano para ano, para não se cair precisamente na ideia de
rotina e repetição.
Defendemos que um Rali por definição não deva ser um mero somatório de superespeciais.
A existirem, elas devem ser exceção não se
afirmando como regra.
Os Ralis reconhecem-se: não se decoram.
A modalidade, que
tem no navegador peça primordial para um bom desempenho desportivo, esvazia
enormemente a missão deste último em eventos onde o piloto sabe de antemão o
trajeto ao pormenor.
O bom Rali é aquele que oferece a quem compete doses
massivas de imprevisto.
O efeito-surpresa é o motor, por exemplo, que transforma
Monte Carlo na lenda que todos reconhecem.
Um Rali onde todos os aspetos estão
preparados ao pormenor antes da partida, perde a magia própria inerente à sua
condição ao castrar o que está para além do que se pode prever.
Um Rali não
nos parece dever ser domesticável dentro de um espaço fechado e estanque.
As
provas de estrada são por natureza insubmissas e imprevisíveis.
Têm um caráter
algo selvagem, indomável até, expresso em habitats naturais a se convencionou
denominar classificativas.
Confinar um Rali apenas e só ao espaço restrito
de um autódromo não nos parece a melhor filosofia (ainda que a enalteçamos à
luz do que acima se escreveu) para o futuro deste desporto.
Um autódromo é o zoo onde apenas se adaptam as corridas
algo amestradas de velocidade.
Os Ralis preferem a savana aberta de Arganil, a
reserva natural de Fafe, ou a coutada de Ponte de Lima.
Não é racional
pretender que o Monte Carlo se dispute numa espécie de ringue gelado para
patinagem artística, tal como não expectável meter uma classificativa (um
Rossio dos Ralis) num qualquer kartódromo a funcionar como Rua da Betesga.
Os
Ralis vivem de instintos apurados a funcionar em campo aberto.
Pegue-se no exemplo
de Colin.
A condução de Colin sempre foi uma projeção do seu instinto (i)nato para conduzir.
Quando o saudoso escocês foi metido em jaulas algo castradoras como
La Sartre (nos GT) ou mesmo Silverstone (em testes de F1), por muito interessantes que fossem (e são-no) esses traçados não estávamos
verdadeiramente perante Colin.
Quando muito, estávamos perante um Colin quase semelhante
aos animais de circo, tristonho nas suas derrapagens, pouco exuberante nos conhecidos malabarismos de cortar curvas...
A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.lusomotores.com/index.php?option=com_content&view=article&id=27899:cam-rali-festival-animou-braga&catid=350&Itemid=107



Caro Nuno,
ResponderEliminarComo amante e praticante (concretamente, como navegador) desta apaixonante vertente do Desporto Automóvel, dou-te os meus parabéns porque conseguiste sintetizar fielmente por palavras o que sinto - e creio que o mesmo é partilhado por todos os verdadeiros adeptos dos ralis - quando dizes que "Os Ralis são uma expressão de liberdade" ou que "A modalidade, que tem no navegador peça primordial para um bom desempenho desportivo, esvazia enormemente a missão deste último em eventos onde o piloto sabe de antemão o trajecto ao pormenor".
Consegues ser ainda mais objectivo e profundo quando referes que os ralis "Têm um carácter algo selvagem, indomável até, expresso em habitats naturais a que se convencionou denominar classificativas".
É por ISSO MESMO que eu adoro os ralis, comparativamente às provas em circuito:
- O contacto directo com a Natureza, seja ele nas zonas geladas do Círculo Polar Árctico, na savana africana ou nas paisagens deslumbrantes da Nova Zelândia, das Pampas argentinas, dos belos mosteiros de Meteora ou ainda das florestais inglesas e portuguesas.
- A simbiose entre a tecnologia humana, através do bólide que rasga o silêncio das serranias lutando contra as armadilhas que o caminho à sua frente lhe reserva e a força da Natureza, expressa nas mais variadas condições climatéricas e de piso em que os ralis se disputam, é algo que tu muito bem caracterizas quando afirmas que "As provas de estrada são por natureza insubmissas e imprevisíveis".
Finalmente rematas com uma frase que poderá ser polémica, ainda que não destituída de fundamento, quando dizes que "Um autódromo é o zoo onde apenas se adaptam as corridas algo amestradas de velocidade".
Em concreto, as provas que o CAM tem organizado são - com a devida proporção - idênticas ao Tour Auto disputado em França onde, ao longo da prova, os concorrentes vão efectuando um percurso de ligação com várias PEC's pelo meio disputadas em autódromos e circuitos. Contudo, os organizadores deste evento tiveram sempre o cuidado de NUNCA lhe chamar Rali mas sim Tour Auto.
Quanto a "não ser racional pretender que o Monte Carlo se dispute numa espécie de ringue gelado para patinagem artística", é por isso mesmo que temos o Troféu Andros.
Como se costuma dizer, 'cada macaco no seu galho'.
Um abraço,
VM
(LeMans1969)
Caro amigo Vasco!
ResponderEliminarEste blogue desde o seu início tem vindo a procurar dar o merecido ênfase ao trabalho dos navegadores. Já lhes dedicámos trabalhos em exclusivo (de memória citamos os exemplos de Paulo Grave e Christian Geistdorfer), é nossa intenção dentro em breve dar a palavra na primeira pessoa a alguns dos mais reputados copilotos deste país (assim haja tempo), num projeto que vamos procurar tornar inovador, e sempre que nos nossos trabalhos apontamos matérias de natureza estatística, é nossa preocupação, por dever de justiça, colocar o nome de quem navega ao lado do nome de quem conduz, em regime de absoluta paridade.
Quanto ao resto que superiormente escreveste, comungamos inteiramente do teu ponto de vista. Fazemos notar que adoramos corridas de velocidade, seguimos com todo o entusiasmo diversas competições que se disputam por esse mundo fora, mas há algo de muito especial nos Ralis que nos faz admirar profundamente quem neles compete.
Abraço