terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

P.E.C. Nº 181: O que é isso afinal do 'Turini'?


Há quem conheça: esteve lá presencialmente.

Há quem conheça: nunca lá foi mas visionou fotos e vídeos, colheu informação, aprofundou conhecimentos lendo relatos do antigamente ou notícias mais atuais.

Há quem não conheça: mas devia (devia mesmo…) conhecer.

Porém, todos, conhecendo ou não, já ouviram pelo menos falar.

O «Col de Turini» é muito possível o santuário para Ralis mais mediático em todo o mundo, assumindo-se como a principal imagem de marca do Rali de Monte Carlo.

O culto improvável em torno daquele topo, a mil seiscentos e sete metros de altitude, não tem explicação plausível.

Quem já por lá passou, garante-nos que são os escassos os segundos em que se vê os carros em ação.

O vento cortante parece movido por uma espécie de motor sobrealimentado.

Em dias (ou noites) de neblina os carros são engolidos pelos flashes do público e fotógrafos, e o som dos motores completamente abafado pelo êxtase sonoro da multidão.

Pouco se vê, pouco se ouve.

É quase como ir ao topo do Evereste para desfrutar da vista, e depois não se conseguir ver mais que um par de metros à frente do nariz.

Quando pensamos no «Col» e o comparamos, por exemplo, com o nosso Confurco (com os inúmeros locais que oferece para ver, sob diversos ângulos e perspetivas, carros e pilotos a laborar durante uma série de curvas), damos connosco a pensar se não estaremos perante uma qualquer semelhança entre pernoitar numa tenda de campismo ou no mais luxuoso quarto de hotel.

O que alimenta então a lenda em torno do «Col»?

As pessoas.

Melhor: o ambiente entusiasta (único?) que resulta da soma das parcelas que cada uma dessas pessoas é.

Algumas das imagens que abaixo publicamos atestam na perfeição o fervor coletivo que emana do «Col» em dia (ou noite) de Rali, transversal ao passar dos anos (a lenda é já cinquentenária), à evolução dos carros ou ao nome dos pilotos.

Ali, o adepto de Ralis sente-se em casa: entre os seus como se costuma dizer.

O «Turini» é o ponto mais alto da classificativa que tradicionalmente liga as imediações de Moulinet a La Boullène-Vésubie (ou vice-versa), com aproximadamente vinte e três quilómetros de percurso, não obstante em algumas edições do Rali de Monte Carlo (a partir de 1999 e até 2006) ter tido uma configuração ampliada, com partida ou chegada perto de Sospel.

Os desníveis de terreno (a subir até ao «Col» e depois descendo dele) são respeitáveis.

A magia desta classificativa, com cotas de altitude tão díspares (de La Boullène ao «Turini» há um desnível de 910 metros a partir da linha do mar, e desde Sospel a diferença de altitude situa-se nos 1.200 metros) potencia o inesperado.

Aos pilotos está reservada uma única certeza antes do semáforo verde ligar: as condições da classificativa provavelmente não serão lineares ao longo do troço.

Pode-se, durante o percurso, apanhar em diversos pontos alternadamente piso completamente seco e sol de inverno, piso molhado (debaixo de cacimba ou chuva intensa), verglas, gelo negro (que não é distinguível da cor do alcatrão, mas está lá e faz das suas), neve (solta ou compacta) na berma da estrada, neve (solta ou compacta) na trajetória dos carros, amplitudes térmicas muito distintas ao longo do troço, nevoeiro cerrado ou visibilidade total.

Pode-se apanhar tudo isso no troço.

Pode até nem se apanhar nada disso no troço.

No «Turini», onde todos os outros são a plateia que aguarda nervosamente os truques que a classificativa lhes reserva, Loeb é o mágico que conhece cada número de cor interpretando-os como ninguém.

Para ele neva sempre menos que para os outros.

O gelo, malfeitor, derrete antes da sua passagem para reganhar solidez logo que o Citroen passa.

Ali, onde os Alpes terminam a sua viagem e se debruçam perante o mediterrâneo, naquelas estradas que muitos consideram das mais belas do mundo, o genial francês reforçou com o passar dos anos a sua aura de infabilidade.

Interpretou a preceito o modo de ser daquela classificativa, moldando a sua condução às súbitas variações de humor do «Turini».

Algumas das mais sensacionais histórias do mundo de Ralis foram escritas naqueles vinte e três quilómetros, com uma caligrafia redondinha que apenas trinta e quatro ganchos (números oficiais) podem proporcionar.

A lenda inicia-se em 1962, quando a nomenclatura do Rali de Monte Carlo muda passando a incluir especiais cronometradas.

Já anteriormente aquelas vias tinham visto passar a caravana da prova no contexto dos percursos de regularidade.

Mas é precisamente há cinquenta e um anos atrás que a lenda começa a ganhar forma.

A partir de 1965 a organização da prova, passando o período experimental que se revelaria, aliás, repleto de êxito, decide elevar a fasquia de dificuldades aos concorrentes, mudando a classificativa para o turno da noite.

Pode-se dizer que a partir daí o Monte não seria mais o mesmo.

A ronda noturna do «Turini» entraria de rompante no esquema da prova, assumindo-se mesmo, durante anos sem fim, como a joia da coroa do mais clássico Rali do mundo.

Vendo as imagens colhidas no interior dos carros de Solberg e McRae que abaixo disponibilizamos (recomendamos visualização integral das mesmas, como forma de perceber o que está em causa quando falamos desta especial), intuímos a necessidade de concentração absoluta para conduzir rápido nas rugas daquelas escarpas.

Se fecharmos os olhos imaginando o que é competir ali à noite, debaixo de um manto de incógnitas (que os batedores atenuam mas não eliminam), chegamos perto do misticismo próprio e singular desta classificativa.

No «Col», como em qualquer local onde esteja público conhecedor dos Ralis, há todo um coletivo a funcionar como o mais implacável dos julgadores.

Não deve ser um exercício isento de nervos arrancar de La Boullène ou de Moulinet, sabendo de antemão ter de se passar pelo exigente Tribunal do «Col».

Não se pode pilotar ali rodando com demasiada prudência: a comparação com o andamento e a nota artística de concorrentes anteriores pode ser impiedosa.

Também não se pode ser excessivamente impetuoso correndo o risco de uma infração sobe a forma de um toque ou de um pião, a levar necessariamente a condenação severa sob a forma de uma monumental vaia.

A motivação em dobrar o «Col» será todavia enorme para todos os participantes no Monte

Afinal, uma ovação calorosa é, como se sabe, a mais saborosa das absolvições que se pode aplicar a quem faz Ralis, do mais magistral profissional ao mais puro dos amadores.

Nas cento e dezasseis ocasiões (registos até hoje, 2013 incluído) em que a caravana passou pelo «Col», muitas são as histórias, boas e más, para contar.

A mítica noite do «Turini», disputada, como referimos, a partir de 1965, começou a emergir em simultâneo com a consagração de outra lenda: os Mini.

A genial criação de Issigonis, potenciada pelo talento de Timo Makinen e colegas, parecia naqueles anos talhada na perfeição à estreiteza e sinuosidade daquelas estradas.

Em 1968, à entrada da derradeira fase do Monte, o irresponsável comportamento do público, arremessando numa curva cega neve para o asfalto que antes estava seco, levou a um despiste de Larrousse no seu Alpine, privando-o de uma vitória que desportivamente era sua em condições normais.

Volvidos cinco anos, novo episódio marcante.

A luta sem tréguas segue ao rubro entre Andruet e Andersson.

O sueco inicia a noite do «Turini» completamente desenfreado, pulverizando o recorde de «Col de La Madone» em quarenta segundos.

Andruet vê progressivamente esfumar-se a vantagem amealhada ao longo do Rali e a pressão é evidente nas hostes gaulesas.

Na segunda passagem pelo «Turini» (quarta classificativa da ronda), a debacle do homem aos comandos do Renault Alpine é notória.

A anterior vantagem de 2m:25s esbate-se por completo.

Jean-Claude perde a liderança e cai para terceiro da geral, agora a 1m:05s do comandante do Rali.

O rombo na sua moral era evidente, mas ainda assim recusava ir ao tapete.

Reagir era a palavra de ordem, matraqueada insistentemente pela navegadora Michèle Petit.

Na especial seguinte Ove Andersson acabou por ser vítima da sua impetuosidade, cometendo um deslize que o fez perder quarenta segundos.

Ainda assim o nórdico apostava em nova passagem pelo «Col de La Madone» para reforçar a liderança, procurando repetir o tempo-canhão da primeira classificativa da ronda.

As contas viriam a sair-lhe furadas, ao não integrar na equação a determinação do seu rival.

Andruet ganha nesse troço vinte e dois segundos ao adversário direto, e assume em definitivo o lugar mais alto do pódio do Monte/73 para não mais o largar, após um combate figadal que perdura na memória de quem assistiu.

Era a primeira prova de sempre campeonato do mundo de Ralis: o mundial não podia ter começado sob melhores auspícios!

Em 1979, a polémica e o caricato tomam de assalto as geladas montanhas ao redor de Nice e Monte Carlo.

Outra vez um sueco (Waldegaard) e um francês (Darniche) no centro das atenções.

Bjorn chega à ronda do «Turini» confortavelmente instalado na liderança da prova, com seis minutos de avanço para o seu opositor.

É certo que o homem do Lancia Stratos, fruto de uma gestão criteriosa dos pneus ao seu dispor para o evento, aposta forte na derradeira e decisiva fase do Monte recuperando paulatinamente grande parte da desvantagem.

Trata-se, porém, de uma aproximação algo consentida por parte de Waldegaard.

À partida nada fará travar o escandinavo na sua marcha triunfal rumo à vitória.

Nada’, exceto a imbecilidade do público que decide intervir nos destinos desportivos do evento ao colocar duas volumosas rochas na estrada à passagem do sueco pela penúltima especial do Rali. 

O Ford Escort bate forte.

De imediato tudo parece perdido com o carro a arrastar-se penosamente até ao final do troço.

Waldeggard e Thorszelius veem as suas esperanças ruir como um castelo de cartas.

A desmotivação apodera-se compreensivelmente da dupla nórdica, a ponto de percorrer a última classificativa do Rali quase para cumprir calendário.

Seriam traídos pela matemática.

Sem o saber, à entrada da última especial (a 4.ª passagem pelo «Turini») os homens do Escort apesar de tudo ainda lideravam a 47.ª edição do Rali de Monte Carlo, com 15 segundos de vantagem para Darniche.

Baixar o ritmo nos derradeiros vinte e dois quilómetros cronometrados, pensando estar irremediavelmente derrotados, fá-los-ia perder a prova por escassos seis segundos.

Uma derrota com profundo sabor amargo para Waldegaard, que ironicamente se transformaria na mãe da sua retumbante vitória no campeonato do mundo de pilotos em 1979.

O «Turini» ao longo dos anos anotou nos seus registos triunfos de vários dos monstros sagrados da condução em Ralis, de Rohrl a Sainz, de Toivonen a Biasion.

Nas suas múltiplas nuances não foi apenas magnânimo com os grandes, proporcionando também hipóteses de brilhar a desconhecidos.

Em 1991, um novato aos comandos de um anacrónico Ford Sierra galgava classificativa após classificativa mantendo-se teimosamente no comando do Rali de Monte Carlo.

As equipas oficiais e os melhores pilotos do mundo olhavam com benevolência o atrevimento de Delecour, acreditando que se tratava de uma arrebatamento sem consistência: o decurso do Rali de certeza iria colocar este francês no seu lugar, fora da luta pelas posições de maior destaque.

Mas François não se dava por vencido, respirava confiança, rodava rápido e sem erros, chegando assim à derradeira fase da prova com o seu primeiro lugar firme, na frente de um atónito Sainz.

No itinerário do Rali estavam agora em destaque três passagens pelo «Turini».

No final das duas primeiras passagens pela especial, o piloto do Sierra preto não vacila (triunfa, aliás, no «Col de Turini '1'») e prossegue na frente do campeão do mundo em título, tendo já em linha de mira um triunfo, tão especial quanto surpreendente.

Junto à tomada de tempos de «Col de Turini '3'» todos aguardam o comandante da prova para lhe render a homenagem que é mais que devida.

Porém, se há especial em todo o mundo que nunca se pode negligenciar é precisamente o «Turini», que em 1991 fez valer uma vez mais, empedernido, a sua faceta cruel.

Durante o troço, uma roda solta-se do Sierra com o número doze sem motivo aparente.

Piloto e navegadora percebem desde logo que a vitória pode estar comprometida, mas ainda assim lutam com todas as forças na procura de levar o carro até final.

Confiam que a sorte não lhes pode ser afinal tão madrasta.

Todavia, a realidade leva a que o desespero e a frustração tomem conta do interior do Ford, com o jovem François a apresentar-se no controlo de tempos lavado num mar de lágrimas, sem conseguir compreender muito bem o triste desfecho a que aqueles vinte e três quilómetros o condenaram.

Perdia ingloriamente o triunfo no Rali de Monte Carlo.

Mas emergia, fruto da sua soberba exibição, como estrela marcante no mundial dos anos seguintes.

Na edição de 2005 do Monte, o «Turini» afirma-se uma vez mais (como sempre?) decisivo no desfecho do evento.

A habitual dor de cabeça na escolha de pneus preocupa as equipas, dadas as diferenças no estado do piso ao longo da classificativa.

Quinhentos metros antes do «Col» está reservada grande armadilha aos concorrentes, com uma ameaçadora placa de gelo no alcatrão a prometer comprometer um bom resultado ou simplesmente o intuito de concluir a prova.

Solberg é o primeiro a bater, abandonando sem apelo nem agravo após perder uma roda ao embater nos rails.

Gronholm é o senhor que se segue.

Entra depressa de mais na curva, bate e também perde um pneu, mas ainda assim consegue prosseguir até final do troço em três rodas, não obstante perder mais de cinco minutos e o segundo lugar que detinha.

O jovem Cecchettini é outro que sucumbe também ao local, quer ao gelo, quer ao amontoado de neve que os espetadores foram fazendo gala em atirar para a estrada.

E Loeb?

Loeb passou pelo local a ridículos 30 quilómetros/hora, absolutamente impassível.

Afinal, para ele neva sempre menos que para os outros, e o gelo, malfeitor, derrete antes da sua passagem para reganhar solidez logo que o Citroen passa…



 INFOGRAFIA: 
 (versão coincidente com as imagens colhidas dentro dos carros de 
 Solberg e McRae que abaixo publicamos): 


Visualizar TURINI em um mapa maior


 IMAGENS: 







 RESULTADOS E CONFIGURAÇÕES DAS CLASSIFICATIVAS AO LONGO DOS ANOS: 

1 9 6 2;
1 9 6 3;
1 9 6 4;
1 9 6 5;
1 9 6 6;
1 9 6 7;
1 9 6 8;
1 9 6 9;
1 9 9 3;
1 9 9 4;
1 9 9 5;
1 9 9 6;
1 9 9 7;
1 9 9 8;
1 9 9 9;
2 0 0 0;
2 0 0 1;
2 0 0 2;
2 0 0 3;
2 0 0 4;
2 0 0 5;
2 0 0 6;
2 0 1 3 (Moulinet/La Boullène-Vésubie '1');
2 0 1 3 (Moulinet/La Boullène-Vésubie '2').

Nota: Em 2013, a prevista 3.ª passagem por Moulinet/La Boullène-Vésubie acabou por não se realizar, cancelada por motivos de segurança devido ao excesso de público. 


AS FOTOS EXIBIDAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://col-de-turini.pagesperso-orange.fr/Images/turini/3d_generale.jpg
- http://luiscezar.blogspot.pt/2006/12/rallye-de-monte-carlo.html
- http://www.rallye-info.com/galleryphoto.asp?mediaid=402

1 comentário:

  1. Muito muito muito bom.
    magníficos links no final dos: RESULTADOS E CONFIGURAÇÕES DAS CLASSIFICATIVAS AO LONGO DOS ANOS:

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