quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

P.E.C. Nº 184: Volta (a Portugal) que estás perdoada!


O Rali de Portugal congrega muito do espaço (o mediático, o financeiro, e o que sobreleva da atenção e entusiasmo dos adeptos) em que respiram os Ralis portugueses.

O evento está para a modalidade como, digamos, estão Benfica e Porto juntos (em dia de especial condescendência, eventualmente possamos talvez considerar também o Sporting…) para o futebol.

Sendo parte vital da identidade das nossas provas de estrada, não se constitui porém como um todo, único e indivisível, do qual aquelas dependam em absoluto.

Na matriz dos Ralis realizados neste país, exemplos de boas práticas a nível organizativo encontram-se na Madeira e nos Açores, ou nos eventos já clássicos colocados na estrada pelos Clubes Automóveis do Algarve, do Centro, ou da Marinha Grande, sem esquecer também, entre outros, o Targa Clube (a vocação nómada do evento levado a cabo pela equipa de Fernando Batista assenta em 2013 pela primeira vez arraiais na cidade de Guimarães, para um Rali que se adivinha especialmente interessante do ponto de vista desportivo) ou o Clube Automóvel do Minho.

Temos, portanto, saberes e competências que não nos envergonham (pelo contrário) quando comparados com o que se faz internacionalmente na modalidade.

Em matéria de Ralis somos, aliás, exímios a fazer muito (e bem) com pouco dinheiro.

Há contudo uma clivagem entre a grandeza do Rali de Portugal (metaforicamente: o ‘rico’) e o quotidiano crescentemente espartano (em inscritos, em orçamentos, em número e quilometragem de troços) dos demais Ralis que compõem o C.P.R. (metaforicamente: os ‘pobres‘).

Há falta, se quisermos, de uma prova que se assuma (metaforicamente, claro está…) como a ‘classe média’ dos Ralis nacionais.

Recuando no tempo, até há vinte anos atrás existia um espaço no calendário nacional de Ralis que tinha um estatuto especial: a saudosa Volta a Portugal, idealizada desde sempre pelo ‘Clube 100 à Hora’, e em grande medida resultado da imaginação e capacidade organizativa de Heitor de Morais, seu estratego-mor nos anos de maior pujança, sem embargo do papel crucial que nomes como Pedro de Almeida ou Mário Martins da Silva tiveram na projeção do evento.

Levada para a estrada pela primeira vez em 1949, entre 1957 e 1993 (à exceção de 1973 e 1977 em que não fez parte do hoje redenominado C.P.R.) a ‘Volta’ assumiu-se como um fiel da balança entre o Rali de Portugal e as restantes etapas do calendário luso de Ralis.

A sua marca distintiva foi, com o passar dos anos, sedimentando-se em torno de uma certa misoginia, resultado das dificuldades em perceber com nitidez se estávamos perante um Rali assumidamente disputado em terra ou em asfalto.

Como o caixeiro-viajante que ao tempo calcorreava as tortuosas estradas do país sem poiso certo, a ‘Volta’ foi, a cada uma das suas edições, exercendo charme por paragens tão antagónicas como Sintra, Lousã, ou Viseu, qual pinga-amor capaz de flirtar com os adeptos pelos asfaltos ao redor da grande Lisboa de manhã, e à tarde já estar enrolada com os aficionados nos lençóis de pó de Arganil.

Pegue-se no exemplo de 1993, último ano em que a prova esteve integrada no nacional de Ralis (continuaria a existir no âmbito de Ralis clássicos e/ou de regularidade), por sinal disputada, por uma vez, integralmente em troços de asfalto.

Pela frente aos concorrentes depararam-se 320 quilómetros de refrega contra o cronómetro (o padrão atual dos Ralis incluídos no campeonato do mundo), para 1.182 quilómetros de extensão total de prova.

Vinte e seis foi o número total de classificativas nessa edição disputada há vinte anos, dispersas pelas zonas de Sintra, Figueiró dos Vinhos ou Arganil.

A ‘Volta’ mesmo no outono da sua existência no campeonato nacional de Ralis, não deixou nunca, como se vê, de assumir convictamente a condição de salta-pocinhas que alimenta parte da sua lenda...







A FOTO EXIBIDA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet378518.htm

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