sexta-feira, 1 de março de 2013

P.E.C. Nº 186: Feitio de 'vilão', condução de herói!


Dedicámos neste espaço, em janeiro de 2011, algumas linhas a Adruzilo Lopes.

Na sua já longa carreira, o piloto de Regilde ocupa um lugar especial na predileção de boa parte dos aficionados portugueses (onde nos incluímos, sem radicalismos de fação), não só pelo garboso palmarés que ostenta, mas antes de mais pelo primor de condução que foi (vai?) dando mostras nas especiais portuguesas ao longo dos anos dedicados à modalidade.

Mais que palavras, as imagens são quem melhor documenta a arte de pilotagem de Adruzilo, e é nesse enquadramento que publicamos o pequeno filme que segue.

Rali da Figueira da Foz, 31 de março de 1990, quarta etapa do campeonato nacional de Ralis desse ano.

Na classificativa de abertura da prova, as objetivas estão apontadas para uma apertada curva/cruzamento (a ilustração do local encontra-se documentada no final do presente trabalho) perto do Farol do Cabo Mondego.

Chovia muito naquela manhã.

Sobre piso encharcado os pilotos iam cumprindo o melhor que podiam a descida deveras delicada da Serra da Boa Viagem.

A abordagem ao cruzamento adivinhava-se problemática pela forte travagem a que obrigava.

Mestres intemporais como Carlos Bica, Joaquim Santos, António Coutinho ou José Miguel Leite Faria tinham já experimentado as agruras da curva em questão.

Em rigor, vários outros concorrentes (quase todos, refira-se em abono da verdade), em maior ou menor grau não escapavam também eles às dificuldades do local, incorrendo (literalmente) em deslizes que os faziam perder tempo.

Há vinte e três anos atrás, Adruzilo Lopes dava os seus primeiros passos no nacional de Ralis com um pouco competitivo Mazda 323 do agrupamento de produção.

O carro, sabia-se, tinha sido a partir de 1987 a arma na qual a marca de Hiroxima depositava esperanças em obter sucesso e visibilidade à escala mundial, após o projeto falhado com o lindíssimo RX-7 (o Stratos de tez amarela e olhos em bico...) na era dos ‘grupo B’.

Porém, o pequeno hatchback nipónico nos diversos campeonatos em que participou nesses anos só muito raramente pareceu atinar com a morfologia do êxito.

Se o 323 de ‘grupo A’ tinha, em 1990, já todo um historial de três anos rendido ao poderio do Lancia Delta, nada indicaria que o modelo de produção inverteria essa tendência relativamente aos afamados congéneres italianos do mesmo agrupamento.

A agravar a situação, o utilitário japonês parecia, visto de fora, ter umas suspensões que inspiravam alguns receios, fazendo o chassis dançar mais que os clientes do espaço B.Leza em noite de casa apinhada.

Para ‘Zilo’, que nunca foi de queixumes, era realisticamente o carro que lhe dava oportunidade de se projetar nos Ralis portugueses, ainda que não constituísse a forma ideal para prosseguir tal objetivo.

Ao futuro tricampeão nacional absoluto restava, então, guiar: guiar da melhor maneira que soubesse e pudesse.

Os mais atentos e conhecedores sabiam que já ao tempo o então jovem Adruzilo ‘sabia’ e ‘podia’ muito.

A Serra da Boa Viagem em 1990 é um, entre vários outros, belíssimos exemplos disso mesmo.

Na tal curva problemática para quase todos os outros, o homem de Regilde colocaria por segundos em prática o arrebatamento e imprevisibilidade que associamos a alguns dos maiores vultos desta modalidade.

A travagem foi feita tarde, tendo em atenção os parcos níveis de aderência.

A inserção em curva é consumada a velocidade excessiva e, claro está, de imediato a traseira faz das suas, protestando sonoramente através dos pneus a derrapar pelo asfalto.

Tudo parece perdido.

A saída de estrada (ou pelo menos o pião) parece mais que certa.

Parece.

No último instante Lopes, como o mais imprevisível dos prestidigitadores, consegue, sem que ninguém o espere, agarrar magistralmente o carro, naqueles momentos que deixam petrificados e sem reação os felizardos que estão no local, quando o espanto, se quisermos, ganha a melhor perante a salva de palmas que se impõe.

É a estes momentos, quando o espetador intui o despiste mas depois o intérprete desmonta com um truque imprevisto tal ilusão, que se convencionou chamar magia.

Galli?

Duez?

McRae?

Em matéria de ralis, andaram provavelmente todos na primária de Regilde…

video


NOTA:
- Sobre Adruzilo Lopes recomendamos visita à P.E.C. Nº 42 deste blogue.

O FILME PUBLICADO NESTE TRABALHO FOI OBTIDO ATRAVÉS DE:
- http://www.youtube.com/watch?v=KPOej1B5_bc

A FOTO QUE ABRE O PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://img244.imageshack.us/img244/9624/lopezportugal2000sm0.jpg

2 comentários:

  1. Excelente trabalho que relembra e perpetua momentos da carreira de um "verdadeiro artista" do volante. Tive a oportunidade de viver por dentro algumas experiências irrepetíveis, quer com este Mazada - já em final de vida, quer com o Citroen Ax ,glorioso vencedor do TRofeu Citroen Rallies Publico. Ao Zilo, apelidei-o de SUPERSÓNICO!
    Por coincidência vi-o este ultimo fds no meio de uma clasificativa já perto do final do rallye SFAfe. O fim do dia era frio cortante, e o sol lívido espalhava uma luz coada de poente amaralecido... Fui cumprimentã-lo e senti q algo nao vai muito bem, com este Amigo de bons momentos. Desejo-lhe Força e Muito Boa sorte. AA

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  2. Muito obrigado pelo seu testemunho, bastante rico e emotivo. De Adruzilo enquanto piloto temos as melhores recordações dos tempos áureos da sua passagem pela Peugeot, sobretudo dos anos em pilotou magistralmente o saudoso 306, sempre com uma determinação incrível e uma velocidade quase inigualável. Espero que a parte final das suas palavras não deixem transparecer qualquer problema de saúde com o grande piloto de Regilde, uma vez que ainda tem muito a dar à modalidade que o consagrou.

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