segunda-feira, 18 de março de 2013

P.E.C. Nº 189: Alén que se faz tarde!


Em quarenta e seis anos de intensa história, o Rali de Portugal ofereceu ao mundo algumas das mais marcantes páginas que a modalidade conheceu. 

Momentos como a superação de Rohrl em Arganil por alturas de 1980 (algo de transcendente e inexplicável à luz da razoabilidade humana), os duelos intensos ocorridos entre Alén e Mikkola na noite de Sintra em 1978, entre Sainz e Kankkunen em 1995, o mesmo Sainz e McRae em 1998, ou  entre Ogier e Loeb em 2010, fazem parte do panteão de memórias que este desporto imortalizou para sempre. 

Como em quase tudo há, num percurso de quase meio século, o reverso da medalha. 

Factos trágicos como os que ocorreram na Lagoa Azul em 1986 (a manhã em que desabaria com estrondo um ciclo inesquecível no mundial de Ralis), no Marão em 1987, ou na Lousã em 1989, com perda de vidas humanas a lamentar, recordam-nos uma faceta menos positiva do evento, não obstante este se ter sabido regenerar com o tempo a ponto de ser visto hoje à escala global como um exemplo em termos de segurança

No enorme leque de peripécias que reforçam a lenda associada ao Rali de Portugal, outra das mais belas passagens centra-se na edição disputada em 1981

Em plena classificativa da Peninha (a 4.ª da prova) e prenhe do desejo de triunfar pela quarta vez no nosso país, Markku Alén, como o fez em tantas e tantas ocasiões na sua carreira, conduz depositando toda a determinação no pedal direito do Fiat 131 Abarth. 

O público segue em clima de verdadeira apoteose (também) a prestação do nórdico. 

Já ao tempo era publicamente assumida a relação especial que o piloto finlandês mantinha com os aficionados portugueses, um enlace algo contranatura mas que talvez por isso mesmo se mostrou inquebrantável com o passar dos anos. 

Algumas curvas antes do famoso salto da Peninha, as estreitas estradas da Serra de Sintra pregariam uma verdadeira partida ao hoje penta-vencedor do Rali. 

Um pequeno excesso foi o suficiente para numa fração de segundo o bólide italiano bater com alguma violência num muro de pedra, arrancando de imediato a roda da frente do lado direito. 

Onde muitos veriam um percalço insolúvel a forçar uma prematura desistência, Alén, pelo seu estatuto na prova, pelo imaculado sentido de profissionalismo, quem sabe até pela gratidão devida aos adeptos deste país pelo apoio incondicional que sempre lhe reservaram, recusava terminantemente capitular perante o infortúnio. 

Arrastando o Fiat até final do troço, onde desde logo perderia muito tempo para os vencedores da classificativa (Ari e Henri) e, claro está, para a liderança do Rali (Hannu Mikkola), o desalentado Markku lá conseguiu chegar até à sua equipa de mecânicos para procurar remediar aquilo que aparentemente não tinha solução. 

E é aqui que nos centramos na foto que abre o presente trabalho, sobretudo na simbologia que a mesma encerra. 

A expressão ansiosa (diríamos, tão ‘portuguesmente’ ansiosa) de Alén olhando atentamente os danos da sua viatura, subtil e inteligentemente disfarçada através da mão firme no ombro direito do seu mecânico, transmitindo-lhe um poderosíssimo tónico de confiança para levar a bom porto o trabalho de reparação do 131

Dos registos relativos ao Rali de Portugal de 1981 rezam as crónicas que o piloto da Fiat prosseguiria em prova, determinado a recuperar o tempo perdido. 

Na passagem pelas dificílimas especiais de Arganil produziria uma exibição de luxo (Arganil é isso mesmo: o palco no qual a elite dos pilotos de Ralis sempre fez a diferença recusando quaisquer concessões à banalidade), reforçando a liderança do evento conseguida na zona de Lamego para não mais a largar, tarefa, diga-se, especialmente facilitada após os abandonos de Mikkola e Vatanen

Do apoteótico triunfo na 15.ª edição do Rali de Portugal (a sua quarta vitória no nosso país), muitos, quase todos, recordarão o andamento extraordinário do mago finlandês ao longo de toda a prova. 



Na memória coletiva fica a remontada improvável e espetacular que Markku encetou a partir de Sintra

Da frieza das estatísticas pode-se reter o triunfo do piloto da Fiat em dez das quarenta e seis classificativas que compunham o evento. 

Mas considerável fatia deste êxito talvez esteja simbolicamente naquela mão determinada de Alén no ombro do mecânico, reveladora das capacidades de liderança e espírito de equipa do finlandês, (literalmente) o toque de midas sem o qual o triunfo de 1981 seguramente não seria mais que uma mera quimera. 

Sobre esta sequência de acontecimentos muito tempo passou entretanto. 

Do ‘insignificante’ pedaço de borracha e aço que a 4 de março de 1981 decidiu cortar o cordão umbilical com o eixo dianteiro do carro tripulado por Alén e Kivimaki, naturalmente nada se soube durante décadas. 

A lógica ditaria que tais detritos tivessem tido como destino uma recôndita sucata, ou uma qualquer máquina de reciclagem. 

Que, no limite, tivessem ficado perdidos para todo o sempre num recanto escondido da Serra de Sintra. 

Porém, a devoção voraz que os adeptos portugueses mantêm com o melhor Rali do mundo não permite que a lógica funcione… logicamente. 

Não pode haver o mínimo de racionalidade quando o clima entre o evento e os seus fiéis é de enamoramento total. 

Hoje sabe-se que o fotógrafo Jorge Cunha, em 1981 presente no local e autor da bela imagem relativa ao acidente que hoje circula mundo, guardou religiosamente o pneu, a jante, o disco de travão, e o que restou do braço de suspensão do 131 Abarth. 

Sabe-se também que esses componentes seriam posteriormente transacionados movimentando-se maquias consideráveis em torno dum objeto conjunto que o passar do tempo elevaria à condição de culto

O destino promoveria que passados quase vinte e seis anos sobre um episódio que se julgava mais ou menos esquecido, se desse o reencontro entre Alén (na ocasião, nos primeiros dias de janeiro de 2007, de visita a Portugal para participar no Lisboa/Dakar) e as peças do seu Fiat, episódio documentado nas imagens que abaixo publicamos. 

O momento seria necessariamente um concentrado de recordações. 

Do filme transparece, aliás, a carga emotiva que o feliz proprietário das peças em causa e o próprio Markku não escondem.

O extraordinário piloto finlandês faria na ocasião o certificado de autenticidade do material em apreço.

Com o seu inglês inconfundível e cheio de pronúncia, somado à voz cinematográfica que lhe é caraterística, não deixou de evocar Robbie (sobretudo este) e Anthony, os mecânicos que um quarto de século antes tão decisivos foram ao transformar uma derrota anunciada numa vitória que se julgava impossível.

Tal facto, abonatório do enorme caráter de um dos maiores intérpretes do volante que esta modalidade conheceu, vem de forma sempre oportuna relembrar que nem só de pilotos e navegadores vivem as estatísticas de Ralis, e que Alén deles há todo um somatório de empenhos e competências que muitas vezes são decisivos na construção de uma vitória ou de um título.






AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://m43modelismo.blogs.sapo.pt/arquivo/rally%20portugal%201981%20carro.jpg
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2205.htm
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2065.htm

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