terça-feira, 16 de abril de 2013

P.E.C. Nº 194: Turismo de Ralis, Deus nosso senhor Todt-poderoso, e outras divagações que tais...


Após o WRC Fafe Rally Sprint, disputado a 6 de abril, não cessaram os ecos relativos à polémica quanto à localização do Rali de Portugal em 2014

É bom que assim seja. 

É sinal que a prova tem força e importância suficientes para abalar poderes públicos, mexer com interesses privados, e tocar diretamente nas emoções da grande massa de adeptos que segue o Rali. 

Sobre o tema, pouco ou nada temos a acrescentar relativamente ao que escrevemos nas P.E.C. Nº 2 e 17 deste blogue. 

Não temos do evento uma conceção regionalista: não nos merece preferência em especial ele disputar-se no Baixo Alentejo e Algarve, ou, questão em cima da mesa, migrar no próximo ano para alguns dos locais onde afirmou a sua história. 

Fundamental é que, claro está, permaneça no nosso país durante o maior número de anos possível

Rios de tinta têm corrido sobre o assunto. 

Na sequência de declarações de Carlos Barbosa, Presidente do Automóvel Club de Portugal, em que ao lado do Todt-poderoso Presidente da Federação Internacional do Automóvel e perante uma multidão em gáudio no eixo Confurco/Pedra Sentada, referiu estar em curso um processo negocial com algumas das forças vivas do norte e centro do país (mais ou menos concluído, segundo nos pareceu, com as edilidades do Porto e de Fafe), com vista a mudar geograficamente a prova para paragens mais a norte, as leituras têm sido as mais diversas, para todos os gostos e feitios. 

Alguma imprensa pouco responsável dá já como adquirida a mudança do Rali de Portugal para os locais que lhe conhecemos no passado até ao fraturante ano de 2001

Por outro lado, a sul e sob a égide da Região de Turismo do Algarve, parecem multiplicar-se diligências com vista a que a prova permaneça na zona onde se disputa desde 2005

Todos querem o Rali de Portugal, sem se saber sequer se Todt quer o Rali de Portugal

No entanto, sabendo-se que um evento com tamanha envergadura começa a ser delineado na segunda-feira seguinte ao final de cada edição, estamos em crer que decisões finais sobre este assunto serão tomadas muito em breve, uma vez que processos negociais que se arrastem demasiado no tempo (sobretudo em ano autárquico, em que a tesouraria dos municípios é em grande medida afeta às tradicionais inaugurações de última hora) não serão compagináveis com o apertado caderno de encargos que as instâncias internacionais impõem à organização da prova. 

A questão continuará, pois, na ordem do dia. 

É, aliás, ótimo que o Rali de Portugal esteja na ordem do dia, sobretudo fora do período da competição propriamente dita. 

Barbosa lançou em Fafe habilmente a polémica fazendo diversos avisos à navegação: quem quiser capitalizar com o Rali de Portugal, abra os cordões à bolsa

Essa é, para já, a conclusão mais clara relativamente ao que o Presidente do A.C.P referiu a 6 de abril.

Mas debrucemo-nos sobre o WRC Fafe Rally Sprint, que pelo segundo ano consecutivo serviu como um sedutor mestre-de-cerimónias ao Rali de Portugal de 2013. 

Não há como não reconhecer que a aposta foi uma vez mais completamente ganha

A enorme moldura humana que ladeou a classificativa impressionou de novo pelo extraordinário entusiasmo e comportamento irrepreensível

Os pilotos foram, como não podiam deixar de ser, pródigos nos elogios

A Jean Todt foi proporcionado um banho de multidão (Fafe é também uma grande operação de marketing muito bem gizada) a recordar-lhe, caso fosse necessário, que o Rali de Portugal é jogo de casa cheia e não um duelo à porta fechada.

Há, a nosso ver, naquele espaço que medeia o Confurco e a Pedra Sentada, um referencial de sentimentos e recordações que não se esgota nos dias em que ali passa(ra)m bólides de Rali em modo de competição. 

Associado aquelas pedras, tojos e caminhos de terra, está algo mais que um tempo canhão ou um imponente salto de dezenas de metros. 

Ali está contido, para consumo interno e para exportação, um dos mais ilustrativos bilhetes-postais do desporto automóvel à escala mundial, como o são, noutro plano, o Col de Turini, a curva do Hotel Loews, a sequência Eau Rouge/Radillon, as Hunaudières, ou o Carousel no Nordschleife

Em nosso entendimento é redutor que aquelas paragens não sejam rentabilizadas em torno da trilogia sagrada que as celebrizou: pilotos, carros e público. 

Na Pedra Sentada ou no Confurco devia haver algo como uma espécie de Passeio da Fama para Ralis

Qualquer coisa (não necessariamente cara nem espalhafatosa) que perpetuasse as máquinas e os nomes (os de lá fora e os de cá dentro) que no decurso dos anos deram vida e emprestaram prestígio àquela sublime classificativa. 

A pintura da bandeira escocesa e os escritos no asfalto do Confurco evocando a memória de Colin McRae são pura cultura popular dos Ralis, e um bom ensinamento do que ali, com uma caráter mais institucional, poderia porventura ser criado. 

Aqueles estradões de gravilha tão bem tratada merecem ter motivos de visita ao longo de todo o ano. 

Há um acervo de emoções em torno daquelas paragens que deveria a nosso ver ser rentabilizado, quando muito porque o Confurco e a Pedra Sentada são, repetimos, muito mais que um local no qual em duas ou três ocasiões do ano competem carros em luta contra o cronómetro, potenciando um turismo de nicho que não será negligenciável: o Turismo de Ralis

Em simultâneo, independentemente de tergiversações à volta da futura localização do Rali de Portugal (que não alimentamos por puro desinteresse), julgamos que o WRC Fafe Rally Sprint deveria complementar-se a si próprio funcionando como um momento de entronização relativamente a antigas glórias da prova portuguesa

A ideia de ver Markku Alén (teria de se começar naturalmente por ele, não é?) ao volante de um 131 Abarth ou de um 037, descendo dos céus provindo lá dos lados do Salto da Pereira até aterrar em solo firme no Confurco, de um Ari Vatanen a fazer tal percurso contrabrecando como tão bem sabe nos Escort que o celebrizaram, ou de um Miki Biasion nos Delta Integrale que o tornaram uma das mais sólidas referências na história do evento, é deveras apelativa, e, julgamos, relativamente fácil de colocar em marcha. 

Quem não sente as suas emoções em slide ao imaginar estes ou outros nomes aos comandos dos carros que os tornaram lendas, fazendo a Lameirinha, parando no Confurco, e saindo dos carros para presenciar pessoalmente o sentido, prolongado, e bem merecido aplauso de uma multidão de entusiastas como só os portugueses sabem ser? 

O WRC Fafe Rally Sprint, caso perdure (deseja-se sem pestanejar que sim), tem todas as condições para se afirmar espiritualmente, ainda que num outro formato, como o prefácio do Rali de Portugal, repristinando aquilo que o outrora saudoso slalom do autódromo do Estoril em jeito de soberbo posfácio soube ser…

A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://fbcdn-sphotos-a-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash4/480180_494974660539827_366895230_n.jpg

Sem comentários:

Enviar um comentário