P.E.C. Nº 201: Scotland the brave!


O saudoso Colin McRae manteve sempre ao longo da sua carreira uma relação tensa com as bermas das classificativas. 

Onde os principais adversários viam um limite a respeitar para fazer Ralis, o escocês fez carreira a subverter, provocatório, uma das regras de ouro da modalidade: manter-se em estrada. 

O preço a pagar pela insubmissão às leis e cânones deste desporto foi muitas vezes elevado.

O registo do mais talentoso membro do clã McRae nos anos em que competiu é pródigo em saídas de estrada e chapa amolgada. 

A condução libertina de Colin pura e simplesmente não encaixava em formatos que ele próprio não pudesse redefinir, logo ele que conseguia até na mais insuspeita reta fazer brotar, com a sua criatividade ao volante, uma verdadeira epifania para Ralis

Pela capacidade tantas vezes inexplicável de tornar possível algo que se julgava estar no domínio do irracional, o malogrado escocês tornou-se numa lenda em todo o mundo, com índices de popularidade que extravasam em muito o âmbito dos próprios Ralis

McRae guiava (literalmente) largo

Mais largo que os outros, se necessário fosse à custa de uns quantos empurrões e sucessivas caneladas às bermas das especiais

Nessa relação de conflitualidade, várias foram as ocasiões em que as bordas da estrada, feridas na sua dignidade pelos sucessivos tratos de polé que Colin lhes infligia, não deixaram de ripostar. 

Um desses momentos verificou-se no Rali da Argentina, em 1998

O homem de Lanark chegava nesse ano ao país das pampas com os índices de motivação em alta, na sequência dos bons resultados (vitórias em Portugal e na Córsega) e convincentes exibições nos Ralis anteriores do campeonato do mundo. 

A etapa sul-americana do mundial (cronologicamente o sétimo Rali no calendário desse ano) assumia-se como um ótimo enquadramento para o piloto-estandarte da Subaru reforçar a sua liderança na classificação de pilotos, pelo que se esperava dele, como sempre, uma toada de ataque sem tréguas na busca pela vitória. 

O início de prova foi de encontro às expetativas. 

O campeão do mundo de 1995 entraria em ação a todo o gás, fiel ao estilo que o celebrizou. 

Ainda assim, após o primeiro dia de prova, não obstante o triunfo em quatro das nove especiais da ronda, Colin ‘apenas’ era terceiro na classificação geral a 16,9 segundos do líder Makinen, o que o obrigava a forçar o ritmo na parte do Rali ainda por cumprir. 

Ao segundo dia de emoções, o Subaru com o n.º 3 estampado nas portas entrava decididamente ao ataque: o melhor tempo averbado nas duas primeiras especiais  catapultava desde logo McRae e Grist para a liderança da prova. 

O triunfo no quarto e quinto troço do dia foram também para o bornal dos britânicos, perante um aparentemente resignado Makinen que via paulatinamente esfumar-se as esperanças de nova vitória (o finlandês havia triunfado no país de Maradona em 1996 e 1997) em paragens sul-americanas. 

Porém, com Colin nada se podia tomar como certo

Uma anunciada vitória podia num qualquer percalço (o escocês parecia ter o condão de os atrair) ruir como um castelo de cartas. 

Nos 22,26 quilómetros da especial n.º 15 («La Toma/Giulio Cesare»), tudo se precipitaria. 

McRae ia ‘varrendo’ ritmadamente a estrada quando sofre (literalmente) um rude golpe nas suas ambições. 

Uma pedra de generosas dimensões na berma direita da classificativa, daquelas que os reconhecimentos em condições normais nunca transporiam para o caderno de notas, manifestava o seu desagrado com as diatribes do líder do Rali estucando a secção direita traseira do Impreza azulado. 

De imediato os danos no bólide ficaram à vista: a roda completamente empenada e um braço de suspensão com mais curvas que os ganchos do antigo troço de Sintra. 

Todavia, o Subaru andava

E para Colin, claro, isso bastava

Desistir é, aliás, verbo que nunca teve assento no caderno de notas comportamental do saudoso escocês

Com o automóvel a apresentar visíveis escoriações, piloto e navegador lá o levaram até final da classificativa, perdendo pouco mais de dezassete segundos para Tommi que desta forma inesperadamente se reapossava do primeiro lugar da classificação geral. 

O cenário era pouco risonho para as hostes da Subaru, sobretudo porque pela frente havia ainda a ligação até ao troço seguinte, os quase dezassete quilómetros de extensão deste último, além do percurso até à zona de assistência. 

No trajeto até à especial n.º 16 o bólide foi-se fragmentando de forma considerável, pelo que não restou outra alternativa a Colin e a Nicky senão parar e procurar reparar os danos para prosseguir em prova. 

Se substituir o pneu foi tarefa fácil, já endireitar o braço de suspensão revelar-se-ia missão mais exigente. 

Lançando mão dos seus conhecimentos mecânicos e fazendo alarde de alguma imaginação, piloto e navegador socorreram-se de um pedregulho de peso e dimensão respeitáveis (foi um calhau que travou a caminhada para o triunfo mas, ironia suprema, seria também um calhau que a revelar-se decisivo para a continuação no Rali) para malhar raivosamente a peça do automóvel (as imagens que abaixo publicamos são mais esclarecedoras que mil adjetivos que possamos escrever) e, dentro da medida do possível, colocá-la o mais parecida possível com o seu formato original. 

Em parte o problema foi resolvido, mas foi um Subaru algo cambaleante que se apresentaria à entrada da classificativa n.º 16 (a famosa «El Condor/Copina», com 16,98 quilómetros), castigado ainda com uma penalização de dois minutos e trinta segundos por chegada tardia à respetiva zona de entrega de cartas de controlo, atraso decorrente, claro está, dos trabalhos anteriores de reparação do carro. 

Qualquer outro piloto nestas circunstâncias teria apenas como preocupação única levar o carro até à zona de assistência, tomar um banho retemperador e esquecer as condicionantes em que este Rali estava a ser fértil

A vitória final era agora algo tão improvável como a visão de um capote alentejano em tarde de verão na vila da Amareleja. 

Colin, porém, não era como qualquer outro piloto

Com um carro visivelmente diminuído do ponto de vista mecânico, o escocês parte ‘com tudo’ para «El Condor»

Ganha a especial com uns incríveis 5,3 segundos de vantagem para Sainz, triunfando apoteoticamente quando a razão recomendaria que se limitasse a um damage control emocional preservando a mecânica do seu Impreza. 

Ganha o troço ‘à McRae, guiando com a sua arte própria de transformar o impossível em factos reais e concretos

Até ao final do dia triunfaria no restante troço ainda por disputar. 

Na terceira jornada do Rali venceria cinco das seis especiais que compunham o último dia do Rali de Argentina de 1998. 

No rescaldo da prova, constata-se que Colin ganhou quinze das vinte e três especiais da prova. 

Dominou por completo a sétima etapa do campeonato do mundo daquele ano. 

Ficou num sensaborão quinto lugar final (perderia a liderança do mundial para não mais a reconquistar até final da temporada) a um minuto e dezassete segundos do vencedor (Makinen)

Mas na história deste Rali, ofuscando inclusive a vitória do próprio Tommi, fica talvez o tão improvável como magistral triunfo em «El Condor», com um carro em cacos mas com uma determinação à prova de quaisquer mossas

Arrebatador, imprevisível, capaz de melhor e do pior, o Rali da Argentina de 1998 é uma metáfora feliz daquilo que foi a carreira de Colin McRae no campeonato do mundo da modalidade. 

Tão depressa fazia um crono ‘impossível’ num qualquer troço como obrigava logo de seguida a sua equipa de mecânicos a horas extra. 

Ser mecânico de McRae, aliás, devia obrigatoriamente ser considerada profissão de desgaste rápido

E no rol de profissões de alto-risco, a par de domador de leões ou duplo de Hollywood, uma outra atividade devia lá estar inscrita: Nicky Grist!



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