P.E.C. Nº 206: «Antigamente é que era!». Será que era mesmo?...



Com frequência o passar do tempo amacia-nos a memória. 

Talvez de forma inconsciente, do rol de vivências de vida tendemos muitas vezes seletivamente a esquecer o que de menos positivo nos aconteceu, para guardamos no baú de recordações os momentos e passagens que nos fizeram felizes. 

No conjunto dos aficionados de Ralis, essa ideia ganhou com os anos especial pujança. 

Em fóruns, tertúlias ou meras conversas circunstanciais sobre a modalidade, vem muitas vezes à baila a comparação entre as provas de hoje e do passado. 

Em regra empola-se o que aconteceu anteriormente, depreciando-se em paralelo a realidade atual. 

O Rali de Portugal, por exemplo, no modelo que tem vindo a ser posto em prática no presente e passado recente, é muitas vezes menorizado quando comparado com edições da prova mais ou menos longínquas

Esqueçamos por momentos instrumentos de análise como o formato da prova que no essencial vigorou até 2001, disseminado por vários pontos do país (incomparavelmente mais apelativo, na nossa perspetiva de adeptos, do que aquele que existe hoje)

Esqueçamos, também, as ocasiões em que nas numerosas listas de inscritos engrossavam fileiras carros tão improváveis como o Fiat 127 ou a Renault 4L (participações dignas como quaisquer outras, com uma autenticidade semelhante às peladinhas de futebol no recreio da escola com bolas improvisadas de trapos, quem nem por isso deixavam de ser também futebol)

Centremo-nos, apenas, no número de carros de topo (WRC) das equipas estrangeiras, oficiais e privadas, que nos visitaram em 2013, comparando-o com, por exemplo, as edições do Rali de Portugal de há 30 e 20 anos (1983 e 1993, respetivamente)

Em 2013 participaram no nosso evento pontuável para o campeonato do mundo de Ralis treze automóveis homologados com a categoria World Rally Car, de quatro construtores diferentes:

- Hirvonen / Lehtinen – (Citroen DS3 WRC);
- Sordo / Del Barrio – (Citroen DS3 WRC);
- Ostberg / Andersson - (Ford Fiesta RS WRC);
- Novikov / Minor - (Ford Fiesta RS WRC);
- Al-Attiyah /Bernaccinhi - (Ford Fiesta RS WRC);
- Latvala / Anttila - (Volkswagen Polo R WRC);
- Ogier / Ingrassia - ( Volkswagen Polo R WRC);
- Mikkelsen / Markkula - (Volkswagen Polo R WRC);
- Al-Qassimi / Martin - (Citroen DS3 WRC);
- Neuville / Gilsoul - (Ford Fiesta RS WRC);
- Kosciuszko / Szczepaniak - ( Mini John Cooper Works WRC);
- Kuipers / Buysmans - (Ford Fiesta RS WRC);
- Prokop / Ernst - (Ford Fiesta RS WRC).

Em 1983, viajaram até Portugal dez carros da categoria B11, um outro (o Renault de Thérier e Vial) homologado como B10 (que consideramos também no nosso raciocínio), de cinco construtores diferentes, muito embora o Talbot Sunbeam Lotus estivesse já no estágio final da sua carreira ao mais alto nível, e embora conduzido pelo supertalentoso Zanini não era mais que uma viatura preparada por uma estrutura privada sem cunho oficial. 

Em ação há 30 anos nas florestais nacionais estiveram como cabeças-de-cartaz:


- Mouton / Pons – (Audi Quattro A1);
- Rohrl / Geistdorfer - (Lancia Rally 037);
- Mikkola / Hertz – (Audi Quattro A1);
- Alén / Kivimaki – (Lancia Rally 037);
- Thérier / Vial – (Renault 5 Turbo);
- Blomqvist / Cederberg – (Audi Quattro A1);
- Vudafieri / Perissinot – (Lancia Rally 037);
- Salonen / Harjanne – (Nissan 240 RS);
- Wittman / Diekmann – (Audi Quattro A1);
- Zanini / Sabater – (Talbot Sunbeam Lotus);
- Kaby / Arthur – (Nissan 240 RS).

Em 1993, como pontas de lança na lista de inscritos da vigésima sétima edição do Rali de Portugal, identificamos treze bólides de quatro marcas diferentes, com os Lancia a predominar não obstante o fim do envolvimento oficial da marca italiana do mundial de Ralis no final de 1992:


- Sainz / Moya – (Lancia Delta HF Integrale);
- Biasion / Siviero – (Ford Escort RS Cosworth);
- Eriksson / Parmander – (Mitsubishi Lancer Evo I);
- McRae / Ringer – (Subaru Legacy RS);
- Delecour / Grataloup – (Ford Escort RS Cosworth);
- Aghini / Farnocchia – (Lancia Delta HF Integrale);
- Schwarz / Grist – (Mitsubishi Lancer Evo I);
- Alén / Kivimaki – (Subaru Legacy RS);
- Peres / Caldeira – (Ford Escort RS Cosworth);
- Fiorio / Brambilla – (Lancia Delta HF Integrale);
- Recalde / Christie – (Lancia Delta HF Integrale);
- Bica / Capelo – (Lancia Delta HF Integrale);
- Menem Jr. / Zucchini – (Lancia Delta HF Integrale).

É certo que nesta análise estamos a comparar tempos e realidades diferentes. 

Somos os primeiros a concordar que o conjunto dos atuais pilotos do WRC não é tão apelativo nem porventura tão homogéneo como o que se verificava em 1983 e 1993 (no Rali de Portugal de 2013 não competiu nenhum piloto campeão do mundo, facto que sucedeu pela primeira vez, dentro do historial de edições da prova pontuáveis para o mundial da modalidade, desde que foi instituído o campeonato de condutores em 1979)

Como frisámos acima, a própria morfologia do Rali, ainda que ajustada aos tempos atuais (e por isso mesmo elogiada pela generalidade das equipas e pilotos que participam no WRC), não apaga a magnificência de outrora. 

No entanto, nunca como hoje os carros foram tão rápidos. 

Nunca travaram tão tarde nem aceleraram tão cedo. 

Nunca tiveram tanta tração nem tanto apoio aerodinâmico. 

O número e diversidade dos bólides (os que mais prendem a atenção dos espetadores e que após a respetiva passagem provocam muitas vezes, injustamente, a debandada do público em cada troço) são hoje, como procuramos demonstrar, semelhantes à esmagadora maioria das ocasiões do passado

Enquanto adeptos não pretendemos estar reféns das nossas memórias, a ponto de menorizarmos o atual Rali de Portugal depreciando-o nas comparações com o passado. 

Hoje é diferente; ponto. 

Os Ralis sofreram processos de ajustamento ao longo dos tempos. 

Nós próprios, desde que seguimos o evento, ano após ano fomo-nos procurando adaptar às mutações que a modalidade foi sofrendo. 

Pensamos que a condição de adepto dos Ralis não deve agarrar-se a uma certa rigidez das recordações (em alguns aspetos, como procuramos demonstrar com este trabalho, por vezes até algo enviesadas dos acontecimentos tal como efetivamente ocorreram), mais recentes ou mais distantes. 

A este desporto interessa antes de mais o bota de trekking que caminha quilómetros sem fim só para ver as máquinas e pilotos da sua devoção, que o bota-de-elástico eternamente algemado aos calabouços da sua própria memória. 

Os Ralis, como tudo, transformam-se e adaptam-se à realidade que os rodeia

Ao aficionado a nosso ver compete, sempre que as memórias férreas corram riscos de o fazer derrapar do evoluir da modalidade, fazer uma contrabrecagem no comportamento rumo aos motivos de interesse que os Ralis hoje também têm.



AS FOTOS PUBLICADAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-595.htm
- http://img80.imageshack.us/img80/6096/brunothiryrallyeportugann1.jpg
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-560.htm

Comentários

  1. Fotografia de Bruno Thiry de João Alvarinhas, autografada pelo próprio em 2001 aquando dos treinos em Arganil.

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  2. Caro João Alvarinhas!
    Agradecemos bastante a sua intervenção, e só podemos dar-lhe os parabéns por esta magnífica foto da sua autoria, autografada a contento. Estávamos inclinados para dizer que o local era o final da subida da Lousã, duas curvas antes do cruzamento à direita, mas pelos vistos trata-se de Arganil. Grande abraço. Esperamos contar com futuras vistas da sua parte.

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