domingo, 16 de junho de 2013

P.E.C. Nº 207: 5 de março de 1986...


O conceito de ‘Grupo B’ foi inventado por um alemão: Herr Audi Quattro

O conceito de ‘Grupo B’ tem, aliás, naturalidade portuguesa, uma vez que do assento de nascimento do coupé germânico está inscrito como local e data de parto desportivo «Algarve, 29 de outubro de 1980»

À luz de mais de três dezenas de anos de distância, pode hoje afirmar-se com segurança que o revolucionário carro germânico redefiniu por completo os contornos dos Ralis, emprestando-lhes um caráter e uma espetacularidade desconhecida até então

Se é certo que formalmente só a partir de 1983 é que aos principais automóveis do campeonato do mundo foi atribuída a designação de ‘Grupo B’, a aparição do Quattro dois anos antes na alta-roda dos Ralis terá sido o vento a anunciar o tufão (para o melhor e para pior) que se seguiria. 

Se o nosso país está intimamente ligado ao aparecimento do automóvel que marcaria toda uma geração de carros para Ralis, pelos piores motivos está também relacionado com os acontecimentos que apressaram o fim de uma era (para muitos a era dourada) na modalidade. 

A 5 de março de 1986, com o traumático acidente de Joaquim Santos e Miguel Oliveira na Lagoa Azul, começou-se a escrever as linhas finais da história, repleta de glória e drama (as melhores histórias não são mesmo assim?), dos carros que na primeira metade da década de oitenta elevaram a patamares planetários a popularidade do campeonato do mundo de Ralis. 

A respetiva certidão de óbito, lavrada pela pena de todos os melhores pilotos internacionais de então, está conceptualmente contida na fotografia que abre o presente trabalho. 

Um comunicado lacónico, lido no Hotel Estoril-Sol poucas horas depois dos fatídicos acontecimentos na quarta classificativa do Rali de Portugal de 1986, ditaria o princípio do fim de um ciclo, que culminaria semanas depois no Rali da Córsega com a morte de Henri Toivonen (sem esquecer Sérgio Cresto), piloto extremamente popular junto dos adeptos e tido por muitos como um dos maiores exponentes de sempre do automobilismo. 

Muito (tudo?) foi já dito e escrito sobre o sucedido há vinte e sete anos no sopé da Serra de Sintra. 

No meio de uma multidão errática e com um comportamento nas raias da total insanidade, a Santos e Oliveira calharia o azar que poderia ter batido a qualquer outra porta. 

Por tudo aquilo que significam para o automobilismo nacional, não mereciam um infortúnio com tamanha amplitude

Santos é ainda hoje o recordista absoluto de vitórias (39) em provas pontuáveis para o nacional de Ralis, liderando também em número de títulos (4), empatado com Carlos Bica e Armindo Araújo

Da sua folha de serviços, consta, ainda hoje, o grau de grande mestre na arte de dominar as taras e manias de carros muito potentes. 

Miguel Oliveira constituiu-se durante anos a fio como a alma benfazeja dos Ralis portugueses. 

Após o encerramento da estrutura da Diabolique (a mais brilhante ‘peça jurídica’ que o reputado causídico terá produzido na vida) e não obstante o afastamento progressivo dos Ralis, ainda assim granjeou um grau de respeitabilidade de tal forma elevado que em vários quadrantes continua a ser visto como uma reserva moral da modalidade ou, se quisermos, um dos seus grandes senadores vitalícios

Joaquim e Miguel viriam a sair absolutamente ilibados de responsabilidades pelo acidente de março de 1986, pelo mais insuspeito Tribunal que poderiam encontrar: os melhores pilotos do mundo da altura! 

Na meia-dúzia de frases que ecoaram pelas salas do Estoril-Sol naquela conferência, resulta com clareza e de forma irrefutável que o piloto penafidelense despistou-se na sequência de um primeiro toque em elementos do público (necessariamente posicionados em local impróprio, junto à berma da estrada ou mesmo em pleno asfalto) que levaria a que o RS200 entrasse desgovernado naquela ligeira descida colhendo dezenas de espetadores. 

Além da perda de vidas humanas a lamentar, morriam nesse instante os anos mais memoráveis dos Ralis

Haviam nascido em Portugal em 1980. 

Tombaram em Portugal em 1986 (o que se seguiu até final dessa temporada teve um sabor a clima de fim-de-festa), precisamente no local, Sintra, que Walter Rohrl na AutoSport n.º 1850 de 12 de junho de 2013, descreve como «uma incrível combinação de troços», enfatizando as «especiais fantásticas, subidas, descidas, estreito, largo, rápido, lento», rematando, perentório, tratar-se «das melhores especiais que existem para fazer Ralis».





AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://3.bp.blogspot.com/-c-M0ET6tRFg/TX4zDhgyp5I/AAAAAAAAOiA/Bt-sansjOdk/s640/1986+15+RS200accident86.jpg
- http://4.bp.blogspot.com/---7mv0BrNLU/TkEFPwE7CqI/AAAAAAAAC3Q/xlcX5iN4iA4/s1600/100+-+rs200_crash_portugal1986[1].jpg
- http://www.mania-dos-carrinhos.com/2012/12/video-rally-de-portugal-1986.html-
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2485.htm
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2275.htm

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