domingo, 14 de julho de 2013

P.E.C. Nº 214: Carros de Rali e a 'mulher de César'...


O desafio foi lançado há poucos dias por David Evans no portal autosport.com: saber se o Peugeot com que Sébastien Loeb participou recentemente em Pikes Peak pode constituir-se como um paradigma a ter em conta em futuras gerações de carros de Ralis, repristinando a aura dos antigos bólides de ‘grupo B’, que ainda hoje, tantos e tantos anos passados, preenche o imaginário de milhares de aficionados em todo o mundo. 

No plano desportivo a passagem do pluricampeão do mundo pela mítica rampa do Colorado foi arrebatadora. 

Deixou a concorrência a quilómetros (ou melhor, milhas…) de distância, emprestando de premeio o seu nome a um novo recorde do trajeto. 

Porém, terá sido ao nível mediático (a Red Bull, promotora do projeto, nunca dá ponto sem nó) que a aventura da marca francesa revestiu contornos de maior interesse, com uma operação extremamente bem organizada nos mais ínfimos detalhes. 

O carro, colhendo influências europeias nas experiências recentes da Peugeot ao mais alto-nível, foi em boa parte concebido pelo departamento de competição da marca do leão à velha maneira americana. 

Muita tubagem (o roll-bar parece uma emanação nascariana), potência em doses bíblicas (875 cv oficiais, quem sabe até… oficiosos!) e apêndices aerodinâmicos generosos. 

Em suma, um carro para andar muito depressa, mas também para… dar nas vistas. 

Se tais predicados seriam por si só suficientes para despoletar interesse, da cartola o construtor sacou ainda um piloto com um estatuto ímpar no mundo do automobilismo, juntando também ao automóvel a sigla ‘T16’ que, como os melhores vinhos, vai envelhecendo refinadamente com o passar do tempo. 

Tantos e tão apelativos condimentos levaram, sem surpresa, a uma operação extremamente bem-sucedida por parte da marca de Sochaux, ela que no passado, nos anos oitenta, já tinha granjeado prestígio por aquelas paragens com Ari Vatanen (também com Robby Unser) e os modelos 205 e 405, ambos, lá está, com o selo de qualidade ‘T16’… 

Os ecos da recente aventura da Peugeot pela América profunda fazem-se ainda sentir. 



Evans pegou neles suscitando uma reflexão, deveras entusiasmante, em torno do ‘208 T16 Pikes Peak’, lançando a debate uma ideia estruturante e com o seu quê de provocatório: discutir se a filosofia-base que presidiu à construção da bomba gaulesa não poderá, no futuro, ser aproveitada para a regulamentação dos carros de Rali do campeonato do mundo

Várias notas em torno do tema. 

Os WRC do presente são os carros mais rápidos jamais criados para a modalidade. 

A matemática na sua crueza demonstra-o irrefutavelmente. 

Todavia, talvez padeçam de um problema: são rápidos, mas muitas vezes... não parecem rápidos

O coração deles produz rotações mais através de bypass (eletrónica), que devido a uma caixa torácica (potência ‘bruta’) de generosa capacidade. 

Toda a espantosa evolução que sofreram nos últimos 25 anos, dos rudimentares Lancia Delta do final dos anos oitenta até ao atual Volkswagen Polo WRC, não foi acompanhada por uma evolução visual que lhes transmita, hoje, uma imagem marcadamente desportiva. 

Os atuais WRC, sem o charme das embaladeiras proeminentes, sem spoilers dignos desse nome, continuam a assemelhar-se perigosamente a um carro de utilização do dia-a-dia, sinalizando uma mensagem de que são (não são) fáceis de conduzir. 

Por tal facto, muitos adeptos não os consideram carros diferentes, capazes, como só o que é diferente é capaz, de prender a atenção. 

Por tal facto, muitos seguidores deste desporto não elevam à condição de Deuses os principais pilotos que hoje dominam o campeonato do mundo, por percecionarem (ilusoriamente) ser relativamente fácil guiar depressa um WRC

Acaba por ser, no fundo, uma incongruência tão grande como o grupo de forcados do aposento da Moita se apresentar na arena através de meia-dúzia de moçoilas com a envergadura da Kate Moss. 



, também, os decibéis. 

O apelo aos sentidos que um bólide especificamente construído para automobilismo deve exercer, faz-se não só plano visual mas também a nível auditivo

Com raras exceções, a partir de 1987 foi sendo montado uma espécie de silenciador automático nos melhores carros desenvolvidos para fazer Ralis. 

No passado, o público na classificativa ouvia o carro antes, muitas vezes bem antes, de o ter na sua mira visual. 

Hoje não. 

Em diversos momentos apenas nos damos conta de ‘quem vem lá’ no preciso instante que estamos a levar com um rasto de pó e terra em cima. 

Parece-nos que também nesta área (vamos confiar que os mais empedernidos dignatários da Quercus não lerão este texto…) devem operar no futuro algumas modificações, pois quem quererá em pleno troço ouvir o tom meloso da Kate Bush quando pode beneficiar do vozeirão cavernoso do Tom Waits? 

Não temos conhecimentos técnicos que nos permitam afirmar que um carro de 500 ou 600 cavalos com expressivas asas aerodinâmicas possa evoluir em classificativa sem sacrificar os elevados padrões de segurança atuais. 

Contudo, desconfiamos que dotar os WRC de um visual mais musculado e mais audível (ainda que aumentando o peso mínimo do carro, ou recorrendo apenas a compostos de pneus duros e menos performantes), à semelhança daquilo que vai ser feito no campeonato do mundo de turismos a partir do próximo ano, será, num futuro próximo, uma estratégia coerente com a propalada intenção de trazer adeptos para a modalidade, renovando-a nos seus paradoxos do presente. 

Numa altura em que tanto se alude à necessidade de promoção da modalidade à escala global, com sugestões (algumas delas verdadeiramente obtusas) para todos os gostos e feitios, paradoxalmente ninguém (porventura à exceção de Evans…) parece pretender iniciar um debate profundo em torno do aspeto (físico e sonoro) dos carros de Rali, sobretudo como uma imagem desportiva dos mesmos pode eventualmente fazer mais pela modalidade que um qualquer elaboradíssimo trabalho de marketing

A ideia, no fundo, resume-se na perfeição numa frase atribuída a David Richards (citada, aliás, no trabalho de Evans), segundo a qual o patrão da Prodrive terá referido por alturas da entrada em funções dos bólides com a designação oficial World Rally Cars, pretender ao tempo que os ‘seus’ Subaru Impreza parados parecessem estar a rodar a 100 milhas por hora...


AS FOTOS PUBLICADAS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
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