terça-feira, 23 de julho de 2013

P.E.C. Nº 215: «O carro era um amigo...»


«Zona-Espectáculo» acredita que o trabalho é condição primordial para a integração social de cada indivíduo. 

Cada um de nós tem uma missão relevante a cumprir na sociedade em que está inserido. 

Quando se tem a faculdade de se fazer o que se gosta (há quem não tenha sequer, dramaticamente, a faculdade de fazer o que não gosta) é natural que se vá ganhando laços profundos com o produto final da nossa atividade. 

É assim, pensamos, com o fruticultor que cuida carinhosamente das suas árvores, ou o construtor civil que não esconde uma proteção paternal relativamente aos mais bem construídos prédios que faz subir aos céus. 

No automobilismo o princípio permanece válido, claro está. 

Uma equipa de trabalho que ao longo do ano, com precisão de relojoeiro, dedica milhares de horas à volta de cada peça de um carro de competição, não pode deixar de desenvolver uma relação muito especial com o bólide. 

Na nossa P.E.C. Nº 46 afloramos o tema. 

Um carro (o antigo R5 Turbo da equipa Renault Galp Portugal) que foi parte da vida desportiva de Joaquim Moutinho e ofereceu ao grande piloto portuense os mais emblemáticos marcos do seu vasto palmarés, no Rali de São Miguel (hoje ‘Sata Rallye Açores’) de 1986 desaparecia para sempre após incêndio que o destruiu por completo. 

Nesse trabalho, escrito em fevereiro de 2011, ensaiámos algumas considerações sobre a ligação que Moutinho teria com o ‘NG-81-41’

Quando se fala no bicampeão nacional de Ralis (1985 + 1986), à memória vem-nos de imediato a imagem da saudosa e potente máquina francesa. 

Dedicado e profissional, é nossa convicção que Moutinho não olhava o ‘seu’ Renault como um carro qualquer. 

Um automóvel que guiou tantas centenas de horas enquanto piloto profissional e lhe permitiu, como talvez nenhuma outra viatura, dar expressão real aos seus enormes dotes de condução, tinha de ser uma máquina especial, capaz de gerar um elã cúmplice com a única pessoa que, afinal, a viria a conduzir em competição. 

No (ao tempo jornal, hoje revista) AutoSport publicado em 25 de junho de 1986, a reportagem de rescaldo da prova abriria um espaço dedicado a aprofundar as incidências do acidente em questão. 

Dada a palavra aos protagonistas do episódio como mandam as boas práticas do jornalismo, mais que a descrição da ocorrência feita por Moutinho ou as impressões vistas de fora através do relato de Miguel Oliveira, destaca-se o depoimento do mecânico Carlos Santos, naquele tempo ao serviço da equipa Renault Galp Portugal. 

As palavras que na ocasião concedeu ao semanário dos campeões, deixam transparecer a emoção que tomou de assalto a estrutura liderada por Ana Margarida Maia Loureiro após a cremação do ‘NG-81-41’

O tom empregue, carregado de sincera consternação, pode ser lido na imagem que abre este trabalho, dispensando palavras adicionais. 

O mistério dos Ralis afirma-se também por uma certa ideia de consanguinidade que um conjunto de pessoas (pilotos, mecânicos, jornalistas, aficionados) possa nutrir relativamente a um carro em especial

Daí não se estranhar que quando um bólide por infortúnio se torna irrecuperável, haja um exponenciar de profundos sentimentos de perda, de que Carlos Santos e demais elementos da antiga equipa Renault Galp Portugal são, entre outros, exemplo bastante...

Nota
A foto que apresentamos no presente trabalho foi obtida há não muito tempo no Facebook. Infelizmente, após algum trabalho de pesquisa não conseguimos apurar a autoria da mesma, nem tão-pouco o link de onde a extraímos. Caso algum dos nossos visitantes nos possa ajudar nesta questão ficamos, claro está, desde já muito agradecidos.

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