P.E.C. Nº 221: O Rali de Portugal 'Invictamente falando'...



I)

Durante semanas e até há relativamente pouco tempo, o país automobilístico andou exacerbadamente entretido a discutir a melhor localização para o Rali de Portugal a partir de 2014. 

Ouviu-se e leu-se um pouco de tudo. 

Discussões acaloradas à procura da quadratura do círculo sobre o tema. 

Algum péssimo jornalismo, dando como adquirido aquilo que o tempo se encarregaria de contrariar. 

Personalidades diversas a colocar-se em bicos dos pés, alimentando polémicas apenas para garantir projeção mediática. 

Aproveitamento político de um evento que, pela sua história e legado, devia passar ao lado de querelas eleitorais. 

Ouviu-se e leu-se, em suma, muita informação, bastante contrainformação, e sobretudo ... desinformação

O rescaldo desta primavera-quente estará ainda por apurar nos seus precisos contornos.
 
Não nos parece, porém, que os principais atores deste folhetim tenham saído dele especialmente engrandecidos. 

E acima de tudo é de admitir que o prestígio da prova possa ter sido no plano internacional, ainda que ao de leve, algo beliscado. 

Como já referimos anteriormente, a nossa posição de princípio neste assunto é clara: é-nos absolutamente indiferente se o Rali de Portugal se disputa no Minho ou no Algarve

Fulcral é que o nosso país a cada ano integre o conjunto de Ralis que compõem o calendário do campeonato do mundo

Uma das ideias (porventura, das que vieram a terreiro, aquela que teria mais pernas para andar) lançadas para a opinião pública após o WRC Fafe Rally Sprint/2013 (disputado a 6 de abril), passou pela cidade do Porto assumir-se como o centro nevrálgico da prova a partir do próximo ano

Houve quem aventasse desde logo a possibilidade do Parque da Cidade assumir-se como a zona de assistência do Rali, no local que hoje funciona como Paddock do Circuito da Boavista. 

Mentes mais imaginativas alvitraram até a hipótese de uma super-especial a disputar no coração da Cidade Invicta, desenhada na Avenida dos Aliados e artérias limítrofes. 

São ideias que estarão para já suspensas, até ao momento em que eventualmente o Rali de Portugal retorne ao centro e norte do país. 

Não será, já o sabemos, em 2014. 

Veremos se tal migração será viável em anos seguintes. 

Por sinal, o Porto até tem raízes importantes no contexto do evento, que vão muito além da demonstração realizada pelos melhores carros e pilotos do mundo no WRC Porto Rally Show/2010

Logo nos primórdios, ainda nos anos sessenta, a competição passou pelo (hoje inexistente) Estádio do Lima, no anel de velocidade que aquela infraestrutura possuía. 

Depois, como a foto que abre o presente trabalho documenta, foi a incontornável Avenida dos Aliados (elo de ligação entre passado, presente e futuro?) a servir de cicerone aos concorrentes do Rali. 

Como podemos comparar através das duas imagens colocadas neste trabalho, o presente tem sabido compreender e respeitar o passado, mantendo a sala de visitas da Cidade Invicta todo o classicismo aristocrático que lhe conhecemos. 

As diferenças em 41 anos são quase inexistentes. 

Quase como se os Aliados sinalizem hoje a mesma predisposição e entusiasmo para acolher os concorrentes do Rali que demonstravam em 1971.

II)

Durante anos, um país órfão de informação e com poucos contactos com o exterior assistia deslumbrado à exibição de carros de sonho, ruidosos, conduzidos com inegável mestria e espetacularidade.

Os estrangeiros vinham a Portugal com os seus potentes automóveis, para em meia-dúzia de dias estabelecer um manifesto jogo de contrastes com a rudimentar motoreta do Manel, ou a carroça indolentemente conduzida pela Maria

O povo rendia-se ao Rali de Portugal elevando-o ao estatuto de verdadeira celebração

Por uns dias, automóveis de competição traziam cor e movimento a um país cinzento e algo entorpecido. 

Em outubro de 1971, o elã sedutor do Rali de Portugal assentou por algumas horas arraiais nos Aliados, Porto. 

Perante uma multidão ao rubro, os estrangeiros foram fazendo poderosas demonstrações de perícia pelo piso empedrado daquela artéria. 

No conjunto de tais estrangeiros constava o nome de um jovem francês desconhecido do grande público, baixote e pouco falador, com um aspeto, digamos, algo atarracado (portuguesmente atarracado…) que seguramente não o faria destacar-se no meio da multidão.

Além do mais, não era um dos ases do volante em quem as atenções (então, e agora) recaem quase em exclusivo. 

Em 1971, com 25 anos, Jean Todt era um discreto mas competente navegador de Ralis. 

Nos Aliados ou noutro qualquer local onde as grandes provas internacionais da modalidade se disputavam, fazia da palavra a sua ferramenta de trabalho. 

Os tempos mudaram. 

O francês fez e foi muita coisa na vida. 

Mas um hipotético regresso do Rali de Portugal à cidade do Porto e em concreto à Avenida dos Aliados, não ocorrerá seguramente sem o atual Presidente da FIA ter uma (decisiva) palavra a dizer para o efeito.


Nota:
Zona-Espectáculo não pode concluir o presente trabalho sem agradecer publicamente ao nosso amigo Mário Conceição a foto atual da Avenida dos Aliados, decisiva para publicar mais este nosso exercício de 'antes & depois' que tanto (inexplicável) gozo pessoal nos dá. Para o Mário, um grande abraço de agradecimento e amizade.

A FOTO QUE ABRE O PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
http://images.forum-auto.com/mesimages/273759/1.jpg4..jpg

Comentários

  1. Ao que parece vai mesmo ser em 2015 que vai regressar ao norte, pessoalmente....é-me indiferente.

    Abraço

    Grist

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