sábado, 14 de setembro de 2013

P.E.C. Nº 222: Pelos 'caminhos' de Portugal!


Em tertúlias relativas aos Ralis ou em fóruns de debate sobre a modalidade, é recorrente vir à liça a discussão sobre classificativas. 

Sobre o assunto esgrimem-se, então, preferências. 

Terçam-se animadamente argumentos sobre trajetos, sinuosidade, piso, ou espetacularidade do ponto de vista visual. 

Portugal, aliás, fornece nesta área abundante matéria-prima para contraditar. 

Em matéria de Ralis não é despiciendo afirmar que Portugal é um país-classificativa

Do extremo-norte (Minho) ou extremo-sul (Algarve) do território continental, sem esquecer nunca o asfalto da Madeira ou as especiais de terra açorianas, quanto a troços temos por cá de tudo um pouco, para os mais variados gostos e feitios. 

A perceção do adepto sobre o assunto é por vezes traída pela realidade. 

As características de uma classificativa devem ser olhadas pela globalidade do percurso, não apenas por um determinado ponto/local em que os concorrentes passam por uns breves segundos. 

A espetacularidade da Lameirinha não se esgota no Confurco ou no Salto da Pedra Sentada

A lenda de Arganil alimenta-se de muitos outros pontos além da Casa do PPD, do cruzamento em Folques, ou de Selada das Eiras

As dificuldades das especiais madeirenses não acabam com a passagem pelas zonas do Paul da Serra e/ou Chão da Lagoa

E os Açores têm mais bilhetes-postais para oferecer aos aficionados que os colhidos na especial das Sete Cidades, quando os carros parecem fazer um jogo de equilibrismo lá no alto como se levitassem sobre as águas esverdeadas da Lagoa. 

A ideia de diversidade de troços nos Ralis acaba por fomentar alguma da dialética sobre este desporto. 

Daí que entre adeptos haja naturalmente uma multiplicidade de opiniões, quase sempre inconclusivas em torno daquilo que pode ser considerado, afinal, um ‘bom troço’, ou se quisermos, redundantes na tentativa de se definir qual a ‘melhor classificativa’

Nesta matéria, pensamos que não há nada como colher impressões diretamente junto de quem conhece a fundo (literalmente) as especiais portuguesas. 

Animados por esse propósito, via Facebook colocámos duas simples questões a diversos pilotos portugueses de diferentes gerações. 

Agradecemos, naturalmente, aos que tiveram a amabilidade de responder ao nosso repto. 

E se alguém esperava nesta matéria uma uma certa uniformização de opiniões, os depoimentos que seguem não só contrariam essa lógica como reforçam a ideia de que também entre os pilotos as preferências são as mais diversas, não obstante algumas curiosas citações em comum.

ZONA-ESPECTÁCULO – (perguntas):

1 - Do ponto de vista da pilotagem, qual a classificativa de terra e de asfalto (indicar de preferência no máximo duas em cada tipo de piso) que mais gosta em Portugal, e porquê (os motivos podem ser apresentados de forma mais elaborada ou mais sucinta, consoante preferir)?

2 - Num apelo às suas memórias, pedimos que identifique qual foi ao longo da sua carreira o troço (indicando Rali e ano) que completou, sentindo após a tomada de tempos ter estado mais perto dos limites do carro e de si próprio, com aquela sensação, digamos, de transcendência, ou de que era virtualmente impossível ter andado mais depressa.

JOSÉ PEDRO FONTES:

1- “Olá. Os meus troços preferidos são: em terra o torço da Lomba da Maia, nos Açores, e em asfalto os troços da mata de São Pedro de Moel. Característica que aprecio nos dois: a rapidez e o desenho da estrada.

2 - Quanto a troços que me recordo pelos riscos que tomei, o último troço do Rali do Nordeste de 2005 (Clio S1600), e o penúltimo troço da mata de São Pedro de Moel do último dia do Rali Centro de Portugal de 2010 com o Porsche. É sempre possível andar mais depressa, mas nesses arrisquei aquilo que poucas vezes fiz.”


MIGUEL CAMPOS:

1 - “As classificativas em terra que mais gozo me deu fazer foram as dos Açores, por serem rápidas e com um piso muito deslizante. Em asfalto, posso dizer que gosto muito da especial de Vilar de Mouros do antigo Rali Sopete: é uma especial com muito ritmo, muito técnica e… cheia de público.

2 - A última especial do Rali Vinho da Madeira de 2003, quando ganhei o Rali por 5 segundos ao Bruno Thiry. Foi uma especial já fora de todos os limites, mas compensou o esforço.”


JOSÉ MIGUEL LEITE FARIA:

“Obrigado por ainda se lembrarem de mim depois de tantos anos. Relativamente às questões que me põem, vou tentar responder sucintamente.

1 - Classificativas de asfalto: Vilar de Mouros e o trio Lagoa Azul, Peninha e Sintra (estas especialmente à noite, de preferência com chuva e nevoeiro). Classificativas de terra: Remédios/Portões Vermelhos e a Tronqueira, no Rali dos Açores.

2 - Troço mais conseguido, talvez Vilar de Mouros, segunda passagem, no Sopete de 1993.”


CARLOS MARTINS:

“A minha experiência é pouca, se considerarmos que este é o meu primeiro ano a tempo inteiro a disputar campeonatos.

1 - Em asfalto, gostei muito dos troços de Monção de 2012, técnicos, com muitas travagens em apoio de curva, com velocidades não muito elevadas, nomeadamente Merufe! Em terra, gostei muito dos troços da Lameirinha e Ruivães. Têm algo de especial, mas a verdade é que os melhores troços de terra que conheço estão no sul. Existe um troço que espero que um dia receba um Rali, pois é algo de espetacular! Esse é o meu preferido: Corte Pinto. Tem tudo o que se espera de um troço do ponto de vista de condução!

2 - Sinto que nunca me superei num troço. Tenho sempre a sensação de que estou a controlar e que podia ter ido um pouco mais longe. Mas a verdade é que este ano no Open todos os troços foram novos para mim, e isso também não ajuda a obter essas sensações de andar nos limites. Gostei especial de Beja deste ano, onde andei sempre muito próximo do Ricardo Teodósio. Muito bom!”


ARMINDO NEVES:

“Obrigado pelo vosso interesse.

1 - Em relação à 1.ª pergunta, nas classificativas de terra terei de eleger Fafe/Lameirinha, pela sua espetacularidade, gozo de condução, e ainda por todo o misticismo que representa, e a classificativa de Ourique, versão 2007 do Rali de Portugal, pois é também uma classificativa espetacular, onde se atingem grandes velocidades e com momentos de condução verdadeiramente… espetaculares. Em relação à classificativa em asfalto irei eleger sem nenhuma sombra de dúvida o troço da Mata de São Pedro de Moel, do Rali Vidreiro, versão 2011, disputado à noite. Sem palavras mesmo. Só estando dentro do carro conseguimos descrever o que é percorrer esta classificativa à noite e ao ataque. É algo simplesmente de cortar a respiração.

2 - Relativamente à 2.ª questão e tirando os anos de troféu C2, em que o ritmo era elevadíssimo e onde a nossa evolução foi enorme exatamente por isso mesmo, possivelmente a classificativa onde andei mais rápido e arrisquei um pouco mais sem pensar na mecânica do carro foi no último troço do Rali de Oliveira do Hospital de 2011, onde estávamos a disputar a vitória à geral com o Luís Mota. Andámos literalmente “por cima de toda a folha”, como se costuma dizer, e ganhámos o troço à geral embora só tivéssemos conseguido recuperar um segundo para o Luís, que acabou por nos ganhar o Rali apenas por 0,5 segundos. Acabámos por não vencer à geral, mas ficámos de consciência tranquila pois temos a noção que demos tudo o que era possível. Normalmente reservo sempre alguma margem de segurança e raramente ando para lá dos limites desde que faço Ralis, pois fi-lo amiúde nos anos em que corri de moto. Nos automóveis, devido aos elevados custos que envolvem este desporto, entendo que para podermos fazer as épocas dentro dos orçamentos disponíveis há que ter alguma cabeça fria e nunca sacrificar uma época apenas por uma corrida ou um troço. Mas neste caso, foi mesmo das poucas vezes em que não pensei nisso e dei o máximo que tinha sem me preocupar com mais nada.
Resta agradecer-vos uma vez mais e colocar-me à disposição sempre que seja necessário mais alguma coisa. Um abraço."


ADRUZILO LOPES:

1 - “Classificativa de terra: Sete Cidades (Açores), pela rapidez e espetacularidade. Classificativa de asfalto: Arga (em Ponte de Lima), também pela rapidez e espetacularidade.

2 - Lousã (terra) em 1992 (no Rali Figueira da Foz, nota nossa), com o Citroen AX, onde em duas passagens fiz dois segundos lugares à geral.”

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Embalados pela resposta anterior, e pela surpresa da eleição de Adruzilo relativamente ao seu 'melhor troço de sempre', com um carro de reduzida potência e numa altura em que a sua carreira ainda dava os primeiros passos (logo ele que tem uma longa percurso desportivo ao volante de carros de sonho, e participou em batalhas intensas nestes quase trinta anos de Ralis), movidos por enorme curiosidade procurámos aprofundar pormenores sobre esse momento. 

O interlocutor lógico não poderia deixar de ser… quem nessas descidas Lousã abaixo se sentou no lado direito do pequeno AX: António Abreu.

O antigo navegador, também via Facebook muito gentilmente confirmou-nos que o andamento nesses dois troços foi de facto transcendente, guardando aliás gratas recordações dessa época em que muitas vezes a dupla do Citroen realizou cronos capazes de fazer corar de vergonha alguma concorrência equipada com carros de bem maior gabarito. 

Num apelo às memórias e durante a conversa interessantíssima sobre Ralis que mantivemos com ele, António Abreu precisou, então, com mais nitidez as circunstâncias dessas duas especiais da Lousã, designadamente na longa e conhecida descida em terra que leva os concorrentes desde as aldeias serranas até às imediações daquela vila do centro do país. 

O episódio é, aliás, daqueles que pela sua singularidade e arrebatamento são capazes de fazer elevar a realidade para o patamar de um culto

Abreu confidenciou-nos então:

Eu dizia: trava para esquerda rápida menos, e sabe o que é que fazia? Metia outra para cima!”

Não travava?”, questionámos embasbacados e quase incrédulos (nota: conhecemos relativamente bem aquele trajeto)

Não!”, respondeu perentório Abreu (nota: afinal conhecemos relativamente mal aquele trajeto)...

A troca de impressões terminou logo aí, sem palavras adicionais.

António Abreu, no conforto do seu lar, talvez tenha prazenteiramente continuado a desafiar as suas vastas memórias.

Nós, por seu turno, do lado de cá 'metemos uma acima' rendidos a mais um daqueles segredos de ouro que esta modalidade sabe cultivar como nenhuma outra.



AS FOTOS PUBLICADAS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://autosport.pt/museu-internacional-do-rali-em-arganil=f108795
- http://mscfotorali.blogspot.pt/2012/08/retrospectiva-2012-wrc-fafe-rally-sprint.html

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