P.E.C. Nº 225. A que cheira o bafo de um Quattro?




É difícil precisar o momento em que o Rali de Portugal passou de um culto fruído apenas por alguns verdadeiros aficionados, para um evento massificado e de matriz popular. 

Há quem defenda que a prova foi, logo a partir de 1967, um evento congregador de multidões. 

Há quem identifique a lendária noite de Sintra, em 1978, como o momento em que a prova se tornou um polo aglutinador de adeptos em larga escala, não dissociável do nascimento do jornal AutoSport meses antes (tese que nos merece simpatia)

Há quem advogue, ainda, que o Rali de Portugal ganhou dimensão nacional com a eclosão das transmissões televisivas, em direto ou em reportagem, que a RTP emprestou ao certame nos seus anos de ouro

A unir estas correntes de opinião, encontramos matriz comum no facto do Rali ter crescido muito rapidamente no número de seguidores, a ponto do comportamento dos espectadores se ter tornado, durante muitos anos e até 1986, o quebra-cabeças n.º 1 da organização liderada por César Torres

Tínhamos reconhecidamente o melhor Rali do Mundo, galardoado pelas mais altas instâncias internacionais nesse sentido. 

O (único) reverso da medalha residia, ao tempo, nas questões em torno da segurança. 

Durante anos a fio, como imagem de marca do Rali de Portugal ficou um comportamento do público (não todo, claro, mas uma considerável parte dele) manifestamente irresponsável. 

Colocar-se em pleno troço e apenas fugir repentinamente instantes antes de os carros passarem, foi, até à tragédia de Sintra, um passatempo de muitos que iam ao Rali mas de Ralis certamente gostavam pouco. 

Estar em plena berma da classificativa a escassos centímetros do local onde os bólides passavam de pé em baixo, era a forma encontrada por outros tantos para, ufanos, dizer aos amigos ter estado nos ‘melhores locais’ (como se ‘muito perto’ significasse por si só ‘melhor’) para ver o Rali. 

Nestas circunstâncias, jogando-se uma roleta-russa durante uma série de anos em dezenas de troços deste país, não seria de espantar que um dia a bala dentro da câmara do tambor da pistola disparasse. 

E disparou fazendo três vítimas mortais, além de atingir também a própria modalidade que, a partir de março de 1986, veria a sua face mudar para sempre. 

Animadas garraiadas com toiros Miura (leia-se, bólides com potência difícil de medir) ‘em pontas’ foi, nesses anos, o insano exercício que Portugal exibiu ao mundo, talvez com mais tempo de antena e airplay que as próprias peripécias desportivas do Rali. 

Os registos documentam, porém, (pelo menos) uma ocasião em que a escala de valores se inverteu, e a caça passou subitamente, ainda que por instantes, à condição de caçador, naquelas situações em que, lado-a-lado, a ironia conduz e o humor canta notas. 

Em 1983 o Rali de Portugal estava no seu apogeu. 

Os carros inscritos na prova eram de sonho, e as armadas da Audi e Lancia prometiam duelos viscerais em cada metro das quarenta e três classificativas que compunham o itinerário do ‘Vinho do Porto’, sempre com a nipónica Nissan à espreita da melhor oportunidade para uma boa classificação. 

Quilómetros contra o cronómetro eram 674,50. 

Na lista de inscritos constavam oitenta e seis concorrentes. 

Em Portugal apresentavam-se quase todas as grandes figuras deste desporto à época. 

Em suma o Rali prometia, uma vez mais, grande espetáculo. 

Hannu Mikkola, integrado na equipa oficial da Audi, reunia elevada dose de favoritismo nas bolsas de apostas para a vitória final. 

O finlandês havia vencido a prova anterior do campeonato (na Suécia, precisamente em casa do adversário e companheiro de equipa Stig Blomqvist), estava em segundo lugar na tabela de pontos reservada aos pilotos, pelo que se apresentava na Portela muito motivado para cimentar as suas pretensões ao título de campeão mundial. 

O Rali iniciar-se-ia sob o signo da Lancia

A primeira etapa, em asfalto, favorecia as caraterísticas do 037

Walter Rohrl e Markku Alén pareciam determinados desde os primeiros quilómetros em reeditar o lendário duelo ocorrido três anos antes. 

Foram sem surpresa somando vitórias em troços ao longo da etapa de asfalto, com os rivais da Audi a procurar minimizar perdas visando chegar à fase de terra com o menor atraso possível para os homens da marca italiana. 

Com a chegada ao norte do país, era tempo dos Quattro tomarem as rédeas da prova fazendo valer a sua lei, ainda que Alén e Rohrl, sublimes no andamento, não desarmassem. 

Hannu Mikkola, Michèle Mouton e Stig Blomqvist saltavam agora para a ribalta e dividiam entre si a primazia quanto a vitórias em classificativas, recuperando aos poucos o atraso para a liderança da prova. 

No espaço de oito classificativas o primeiro classificado do Rali mudou cinco vezes. 

O despique, escusado será dizê-lo, estava ao rubro para deleite de todos quanto seguiam o evento. 

A seletiva sequência Senhora da Graça/Marão prometia fazer mossa no pelotão, dada a sua tradicional dureza e extensão, pelo que constituía um bom enquadramento para Hannu afirmar a sua condição de favorito e vingar a derrota in extremis verificada cinco anos antes às mãos de Alén.

Animado talvez pelo triunfo nas clássicas especiais de Fafe e da Cabreira (onde se reapossou do primeiro lugar da tabela de pilotos não mais o largando até final), o Marão apresentava-se aos olhos do finlandês como nova oportunidade para abalar o moral da concorrência. 

Alguns testemunhos parecem ser credíveis quando referem que Mikkola estava a andar de facto muito depressa nessa especial, mesclando como ninguém a habitual eficácia e espetacularidade. 

No trajeto da especial do Marão, um dos pontos que suscitava por norma mais apetência aos adeptos era o conhecido gancho à esquerda perto da povoação de Fridão. 

Desconhecemos por completo os motivos pelos quais Hannu e Hertz decidiram antecipar a abordagem a essa curva, atalhando umas dezenas de metros o normal percurso da especial, momento documentado quer nas fotos que abrem este tópico, quer também nas imagens em vídeo que partilhamos mais abaixo neste trabalho. 

Pode essa hipótese ter sido considerada logo no decurso dos reconhecimentos da prova. 

Pode, também, eventualmente ter sido uma pincelada de improviso e repentismo de que os Ralis são pródigos e os génios (como Hannu) a espaços lançam mão. 

A resposta certeira só a dupla do Audi n.º 3 poderá um dia fornecer. 

Certo é que por uma vez, apenas por uma vez, o público teve, forçado pelas circunstâncias, de dar às-de-vila-diogo à frente de um bólide de Ralis. 

Não foi, como em múltiplas ocasiões anteriores, o caso de tourear a fera para exibir vaidosa e publicamente aptidões que se julgavam próprias do bandarilheiro Chibanga. 

Tratou-se de correr a bom correr, como só um cagaço inesperado faz… correr, com o inebriante bafo a ferodo do Quattro ameaçadoramente a fazer-se sentir…   


AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2100.htm

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