sábado, 19 de outubro de 2013

P.E.C. Nº 228: Nome de código; 'B - 2525-CV'...


Com a massificação da internet e das denominadas redes sociais, hoje é relativamente fácil seguir as pegadas de determinado carro de Ralis que fez história e, perdendo a homologação desportiva, entrou no regime de aposentação a nível competitivo.

É um guião desses, de ‘investigação criminal’ (secção: desaparecidos), que hoje lhe vimos cá contar.

Sabe-se que relativamente a carros de competição nem sempre uma matrícula corresponde a um só chassis.

Para driblar as barreiras alfandegárias em que qualquer verificação técnica se transforma, há que por vezes para o mesmo carro 'farilhar' passaportes e bilhete de identidade, isto é, precisamente a ficha de homologação e respetivas chapas de matrícula.

O Abarth ilustrado nas fotos presentes neste trabalho é, por aquilo que apurámos, exemplo contrário.

Será, portanto, o mesmo carro que no final dos anos setenta saiu das oficinas batizado com o dístico que o acompanhou até hoje.

É, refira-se, um bólide com pedigree.

Em 1978, a equipa oficial da Seat presente no campeonato de Ralis de Espanha pretendia dar um salto competitivo que o velhinho modelo 1430 já não lhe permitia.

As ambições passavam a fronteira natural dos Pirenéus, visando projeção a grande altura nas mais importantes competições de estrada disputadas na Europa.

Para tanto havia necessidade da estrutura sedeada na Catalunha se munir de material competitivo, e nessa medida a solução natural recaiu em importar os novos 131 Abarth, com motores de injeção e cárter seco.

De Itália transitaram então para Espanha quatro unidades, sequenciadas com as matrículas ‘B – 2525-CV’, ‘B – 2526-CV’, ‘B - 2527-CV’ e ‘B – 2528-CV’.

A ideia dos homens da Seat passava por colocar dois carros em competição, reservando os restantes especificamente para trabalho de testes e compreensão do funcionamento do automóvel.

A época viria a ser extremamente bem-sucedida, com António Zanini a renovar o seu título de campeão de Espanha uma vez mais (ao assunto voltaremos em breve, dando continuidade à biografia do grande piloto catalão que temos vindo a publicar neste blogue), sem esquecer o grande triunfo averbado no Rali da Polónia desse ano, que lhe abriu em definitivo a rota dos grandes palcos europeus nas temporadas seguintes.

Em 1979, Zanini tripulou o ‘B – 2525-CV’ em diversas provas (exemplo: Rally de España) em substituição do ‘2528’, e o automóvel, com a transição do piloto para outras aventuras e construtores, passaria depois por várias mãos, de onde se destacam as do pluricampeão galego de Ralis (1980, 1981, 1982 - aqui, precisamente com o Abarth -, 1984 e 1987) Carlos Piñeiro.

Com o passar dos anos, os 131 foram perdendo protagonismo em detrimento de novos carros entretanto surgidos (a lei da vida, transposta para as competições de estrada).

Ao que apuramos, em 1998 o '2525' chegou a ser transacionado segundo se diz por cerca de seis milhões de pesetas, mas certo é que foi caindo no mais profundo anonimato até ser descoberto nas condições que a foto de abertura deste trabalho cruamente ilustra.

O2525’ é um de muitos exemplos de carros com passado a quem o presente não presta tributo.

O2525’ é um de muitos exemplos de carros que os respetivos proprietários não deixam envelhecer com dignidade.

Compreendemos que o rigor na manutenção de um automóvel destes exija algum dispêndio de verbas, que, num contexto apertado a nível financeiro, por vezes não existem sequer para a aplicação dos cuidados mais básicos.

São os momentos em que estas máquinas, outrora produtoras de emoções em larga escala, ficam reduzidas à mera condição de ‘coisas’.

Coisas’ atiradas para os confins de uma qualquer obscura garagem, quando não abandonadas na rua com a indiferença que as sociedades muitas vezes presenteiam os sem-abrigo.

A decadência do ‘2525’ tem a palidez amarelada que resulta da mistura entre pó e ferrugem.

Tal como está hoje, este Fiat, como muitos dos seus congéneres, é o resultado da mais pura incúria e desleixo.

Está emprateleirado num aparente regime de cuidados paliativos, apodrecendo por dentro e definhando por fora.

Numa situação ideal, devia existir uma qualquer entidade para acolher estes carros de quem lhos quisesse dar para adoção, recuperando-os para os recolocar em troço, senão em competição talvez, por exemplo, como carros '0'.

São peças valiosas na compreensão da modalidade e portadores de boas memórias para muita gente, pelo que vê-los e ouvi-los de novo na estrada é, nos casos (raros) em que tal se verifica, o melhor elo de ligação entre passado e presente dos Ralis.

Há uma velha máxima que ensina que o desenvolvimento de um país mede-se pela forma como trata os mais velhos e vulneráveis.

Se o princípio se transpuser para os Ralis, o que temos visto na internet relativamente ao estado de degradação de velhas glórias da modalidade leva-nos a concluir que o ‘desenvolvimento’ das competições de estrada já conheceu em definitivo melhores dias.             






NOTA:
Sobre a ligação dos Fiat 131 Abarth aos Ralis do país vizinho, bem como algumas das características técnicas do icónico bólide da marca italiana, Zona-Espectáculo recomenda a leitura do artigo que poderá ser encontrado AQUI.

AS FOTOS EXIBIDAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- https://www.facebook.com/photo.php?fbid=154230141455019&set=gm.10151698125302196&type=1&theater
http://driverphoto.foroactivo.com/t591p624-buscas-imagenes-antiguas-5-parte
- http://rallyast.mforos.com/1227891/8671504-coches-competicion-asturianos-inactivos-o-abandonados/?pag=8
- http://driverphoto.foroactivo.com/t456p16-fotos-nacional-de-rallyes-anos-80
- http://oi45.tinypic.com/688w7c.jpg

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