terça-feira, 22 de outubro de 2013

P.E.C. Nº 229: Quando se conduz mais para ganhar palmas que para ganhar tempo (sobre Patrick Snijers)


Quando se fala sobre a Bélgica no âmbito dos Ralis, a nível de pilotos há dois ou três nomes que se destacam de imediato.

Neuville, claro, que se afirma consistentemente como o único nome nos próximos anos a poder incomodar Ogier na anunciada caminhada do gaulês para vitórias e títulos em série.

Loix, que não obstante a sua veterania ainda hoje dá cartas em várias competições onde participa, averbando regularmente vitórias.

Ou Duez, cujo reconhecido talento e apurado sentido de espetacularidade o fazem ser recordado com enorme saudade por muitos aficionados da modalidade nos quatro cantos do mundo.

Como a memória dos adeptos é em diversas ocasiões demasiado seletiva e direcionada excessivamente para o campeonato do mundo de Ralis, há nomes que ficam algo esquecidos mas nem por isso devem ser menorizados.

Nesse âmbito, citar a Bélgica tem de significar incontornavelmente aludir a Patrick Snijers.

Referir que o veteraníssimo piloto (realizou as primeiras provas da sua longa carreira há… 37 anos atrás!) é um dos nomes mais respeitados do seu país, é um bom mote para início de conversa.

Mas não é só pela longevidade que Snijers se destaca.

A par do apego pelas competições de estrada que ameaçam levá-lo dentro de pouco tempo a quatro décadas ininterruptas nestas andanças, o seu palmarés está repleto de triunfos, quer no campeonato de Ralis do seu país onde ostenta sete títulos de campeão (1983; 1984; 1985; 1988; 1991; 1993 e 1994), quer no campeonato da Europa onde conheceu glória suprema em 1994, numa altura em que a competição reunia muito prestígio e pilotos de grande craveira.

As participações do belga no campeonato do mundo tiveram sempre um caráter mais esporádico que regular.

Basta atentar no pormenor de, numa carreira tão vasta, nunca ter visto o seu nome constar da lista de inscritos ao Rali de Portugal.

Porém, Snijers tem seguramente boas memórias do nosso país.

No ano em que se sagrou campeão belga pela primeira vez (1983), o ensaio de um primeiro périplo internacional fê-lo deslocar-se à Madeira onde, em estreia, averbaria um sensacional segundo lugar final (superado apenas pelo campeão europeu desse ano, um tal de… Massimo Biasion), para em final de época levar o seu Porsche às exigentes classificativas do Rali do Algarve, aí brilhando ao ter vencido a classificativa de abertura, averbado o impressionante número de treze vitórias nas vinte e oito especiais da prova, obtendo um meritório quarto lugar final, que, não fora uma penalização de sete minutos, o teria levado inclusive ao lugar mais alto do pódio.

Snijers parecia dar-se bem com os ares portugueses, e em 1984 regressaria à Pérola do Atlântico repetindo o lugar intermédio do pódio, desta feita batido por outro vulto de apelido… Toivonen, o mesmo se verificando dois anos depois às mãos de Fabrizio Tabaton, aquele que viria nos anos seguintes, afinal, a transformar-se num dos principais rivais nos animados Ralis do campeonato europeu.

Em 1988, após três segundos lugares, aos comandos do espetacular BMW M3 decorado com o vermelho e branco dos tabacos ‘Bastos’ (sponsorização que o acompanharia ao longo dos anos de ouro do seu percurso desportivo), obtinha a primeira de duas vitórias na Madeira (a outra, em 1993), espalhando talento pelas exigentes especiais da ilha, ocupando o lugar mais baixo do pódio em 1992, e de novo a segunda posição final dois anos depois.

Significa isto, em resumo, que nas primeiras sete participações no Vinho da Madeira, entre 1983 e 1994, o piloto belga tem o impressionante registo de ter subido sempre ao pódio, com as restantes visitas à Serra d’Água, Boaventura e outros pontos clássicos da prova a saldar-se por um registo mais modesto (quarto classificado em 1996; desistência em 2003 por problemas no turbo do Subaru Impreza WRC).

Em trinta e oito temporadas ininterruptas a disputar Ralis, é tremendo o número de duzentas e setenta e seis participações em provas que constam na folha de serviços de Snijers.

Se tal não fosse por si só impressionante, que dizer então das noventa e sete vitórias absolutas (a somar a dezoito triunfos à classe) que o belga já averbou entre provas nacionais e internacionais, indexando o seu nome à lista de vencedores de Ralis de tanto prestígio como a Madeira (já citada), Condroz, Valais, Chipre, São Marino, Manx, Alemanha, Barum, Ypres ou Polónia?

Como qualificar a regularidade a roçar a perfeição, quando em três épocas completas (entre 1993 e 1995 considerando etapas do campeonato belga e Ralis disputados fora de portas) o piloto disputa vinte e uma provas, terminando todas elas em primeiro (por catorze ocasiões) ou segundo classificado?

Haverá um outro piloto que em toda a sua carreira tenha em vinte e seis temporadas seguidas (entre 1978 e 2003) ganho sempre pelo menos um Rali à geral em cada ano, ou que ao longo de toda a carreira de trinta e oito épocas apenas em três delas (1976, 1977 e 2012) não logrou saborear (à geral ou à classe) o doce champanhe da vitória?

Com um currículo desportivo ímpar, será difícil perceber as motivações de alguém como Patrick Snijers para continuar a viver com tanta intensidade as competições de estrada.

A profunda devoção por este desporto será certamente uma delas.

Aos 55 anos de idade, quando podia estar a gozar as delícias de uma reforma dourada, o veterano continua a desafiar com rara mestria as manhas de bólides potentes nas traiçoeiras classificativas do seu país natal.

O que (ainda) move, afinal, Snijers?

Já sem o fulgor ou predisposição para arriscar dos seus melhores anos, talvez o belga conduza agora em classificativa por puro deleite, sem a pressão que tempos e classificações por vezes impõem.

Se na fase ascensional da carreira fica indelevelmente ligado aos Porsche, passados todos estes anos voltam a ser os espetaculares desportivos alemães a sua imagem de marca nos Ralis belgas, agora sob a égide da Logi-Technic Racing, estrutura por si criada com Johan Gitsels (seu navegador) para competir.

Sem nada a provar, o campeão europeu de 1994, tal como, aliás, vários outros grandes campeões numa fase adiantada das respetivas carreiras, conduzirá hoje virado para o espetáculo, com as notas que o navegador dita a terem (também) a preocupação de conter um cunho artístico.

Talvez Snijers hoje já não ‘escreva’ tão depressa em troço quanto alguns dos seus adversários diretos.

Compensa isso com uma ‘caligrafia’ bonita e redondinha em curva, como só um Porsche de tração posterior o pode permitir…













A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.bfo-brc.be/files/282201122423-1985%20Snijers%20Champion%20BRC%20%20(L.P.R)%2001.JPG

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