domingo, 10 de novembro de 2013

P.E.C. Nº 234: Rali «Casino Solverde», 1997


Há três aspetos essenciais para um bom Rali: carros potentes, pilotos de qualidade e troços exigentes em termos de condução. 

Em 1997, um ótimo exemplo da reunião de tais predicados podia-se encontrar no saudoso Rali Solverde, colocado na estrada pelo Estrela e Vigorosa Sport e disputado nas classificativas desenhadas no eixo Arouca/Vale de Cambra. 

A prova, antepenúltima etapa do campeonato de Ralis daquele ano, assumia um caráter decisivo nas contas do título. 

Peres, motivadíssimo, procurava no Solverde um bom resultado com vista ao quarto título consecutivo, igualando dessa forma o feito de Carlos Bica

Por seu lado Adruzilo, já completamente moldado ao saudoso 306 Maxi da Peugeot Portugal, guiava como nunca para coroar os seus atributos com um primeiro título de campeão absoluto. 

Havia, porém, muito mais. 

Nas hostes da Renault coexistia a tempestade e a bonança, que é como quem diz, Macedo e Azeredo nos empolgantes Mégane Maxi

Da Madeira vinha Américo Campos para fazer evoluir um segundo 306 nos troços continentais. 

Miguel Campos prometia o habitual espetáculo com o seu Evo de grupo ‘N’. 

Francisco Costa sentava-se num exemplar dos sempre arrebatadores Clio Kit Car ex-oficiais. 

Pedro Meireles, a dar os primeiros passos na modalidade, munia-se de um bem preparado Golf GTi para se apresentar à partida da prova do E.V.S. 

No agrupamento de produção havia muitos e bons carros, dos Ford aos Subaru, dos Mitsubishi ao Toyota de Paulo Freire, entre diversos outros. 

O interessantíssimo troféu Seat era construído por gente tão insuspeita quanto Pedro Leal, Vítor Pascoal, José Pedro Fontes (a ensaiar os primeiros passos na modalidade), Vítor Lopes, Rodrigo Ferreira ou Luís Ramalho

Se tudo o que citámos não fosse por si só suficiente, relembrar ainda que no C.N.R ao tempo evoluíam projetos de relevo como os levados a cabo por José Araújo no Nissan Micra 16v, ou Armando Oliveira num bem preparado Citroen ZX

Com a base de operações situada na cidade de Espinho em função dos interesses comerciais do principal patrocinador da prova, a caravana infletia depois ao interior do país para disputar catorze provas especiais de classificação, muito concentradas entre si, num total de 126,20 quilómetros cronometrados. 

Rezam as crónicas que o Rali Solverde disputado há 16 anos seria fértil em peripécias desde início até final. 

Incólume à hecatombe de desistências que tomaria de assalto os principais adversários, Adruzilo Lopes carimbaria em Vale de Cambra o primeiro de três títulos nacionais, num Rali que parecia desenhado à medida das suas ambições e das caraterísticas do saudoso bólide que pilotava como ninguém. 

A prova, não obstante um contratempo na ligação até à primeira especial que atrasaria irremediavelmente a caravana, iniciar-se-ia sob o signo do equilíbrio, com ‘Zilo’ e Peres a concluírem ‘Agras’ empatados, e McCedo (como o AutoSport de forma tão certeira e bem-humorada escreveu recentemente) empatado com Azeredo logo atrás, a escassos dois segundos. 

Na classificativa seguinte, ‘Santo António’, o piloto do Ford Escort WRC a andar absolutamente nos limites veria o automóvel pegar fogo (imagens da viatura já na oficina podem-se encontrar neste trabalho, não tendo sido possível apurarmos as causas do incêndio), praticamente entregando de mão beijada o cetro de campeão ao homem de Regilde. 

Mas o Rali ainda estava no início. 

Anulado ‘Santo António’ pelo facto de diversos concorrentes terem parado para auxiliar nos trabalhos de combate ao fogo do Ford azul e amarelo, a especial seguinte, disputada nas magníficas estradas da Serra da Freita, levaria a nova interrupção no normal fluir do Rali, desta feita na sequência de um violentíssimo acidente do Renault Clio n.º 26 tripulado por Jorge Rodrigues e Miguel Ramalho

Até ao final da segunda secção, Adruzilo Lopes asseguraria uma curta vantagem sobre o sempre esforçado José Carlos Macedo, não obstante se ter visto a braços com uma súbita perda de rendimento no motor do 306 Maxi, no decurso do troço de 'Macieira de Cambra'

A hora de almoço seria profícua para os comandados de Carlos Barros

Debelados os problemas mecânicos do automóvel, a parte da tarde não seria mais que a expressão de um domínio quase avassalador da dupla Lopes/Lisboa, ampliando decisivamente a vantagem sobre os pilotos dos Renault Mégane Maxi

Quando as posições do pódio se presumiam estabilizadas, na última especial da prova (‘Função 2’), ‘Nini’ Macedo cometeria um pequeno excesso, suficiente, porém, para arrancar uma das rodas do bólide da marca do losango, levando o bracarense à desistência. 

Desta forma, Adruzilo Lopes e Luís Lisboa chegavam virtualmente aquele que seria o primeiro de três títulos nacionais absolutos, e a equipa Peugeot Portugal dava início a um longo ciclo vitorioso nos Ralis portugueses até 2009, só interrompido pelo bicampeonato de Pedro Matos Chaves/Sérgio Paiva, conseguido em 1999 e 2000, e o tetra de Armindo Araújo e Miguel Ramalho obtido entre 2003 e 2006. 

À chegada a Espinho, Lopes obteria a quinta vitória absoluta da carreira (no seu pecúlio estão registados para já vinte e um triunfos), relegando para os lugares mais baixos do pódio Pedro Azeredo e Américo Campos

Miguel Campos, quarto na classificação geral e primeiro do agrupamento de produção, começava a dar mostras do enorme talento e determinação que seriam o seu cartão-de-visita nos anos seguintes. 

Como atrás desenvolvemos, o participado troféu colocado na estrada pelo importador nacional da Seat com base nos irrequietos Ibiza, veria Pedro Leal ser o vencedor incontestado da competição neste Rali Solverde (triunfando em todas as especiais), espalhando categoria a granel em cada curva dos doze troços da prova, secundado por Vítor Pascoal, Rodrigo Ferreira, Manuel Rolo e Armando Parente, por esta ordem. 

Nos clássicos, Fernando Silva imporia a potência do seu Porsche 911 nos troços ao redor da Serra da Freita para chegar ao quarto título na categoria, na frente de Rui Azevedo aos comandos do Ford Escort RS 2000 e de Francisco Couceiro tripulando o Opel 1904 SR, que na fase final do Rali levaria a melhor sobre Jorge Areia em carro idêntico, pela escassa margem de sete segundos. 

Há dezasseis anos eram assim as provas do campeonato nacional de Ralis. 

Maior quilometragem do que atualmente. 

Um número de classificativas (catorze) que se pode considerar expressivo se o comprarmos com o normal paradigma dos dias de hoje, tendencialmente mas compacto. 

Havia construtores a olhar para o campeonato como forma privilegiada de promover os seus produtos, investindo convictamente nos Ralis. 

As televisões olhavam para as competições de estrada com uma atenção que está nos antípodas daquilo que se verifica nos dias de hoje. 

Eram tempos diferentes, num contexto diferente. 

O Rali Solverde de 1997 (um exemplo entre vários outros que poderíamos citar), posto na estrada numa zona por sinal interessantíssima e com pergaminhos na modalidade, é uma boa expressão dessa diferença.

Nota:
- Os mapas interativos que abaixo se reproduzem são da nossa autoria. Foram elaborados de acordo com a informação que para o efeito conseguimos reunir relativamente às classificativas que integraram o Rali Solverde em 1997. Admitimos que possa haver algumas imprecisões nos mapas em questão, ainda que não alterem substancialmente o trabalho final. Nessa medida, toda e qualquer informação que os nossos visitantes possam fornecer de molde a otimizar estes troços virtuais, adequando-os com o maior rigor possível ao que efetivamente se verificou em 1997, é bem-vinda e merecerá desde já o nosso mais sincero agradecimento.


'AGRAS'  ||  4,00 quilómetros
(P.E.C. N.º 1)

Ver AGRAS, 1997 num mapa maior

'SANTO ANTÓNIO'  ||  8,70 quilómetros
(P.E.C. N.º 2 e N.º 4)

Ver SANTO ANTÓNIO, 97 num mapa maior

'FIGUEIREDO/FREITA'  ||  12,00 quilómetros
(P.E.C. N.º 3 e N.º 5)

Ver FIGUEIREDO/FREITA, 97 num mapa maior

'MACIEIRA DE CAMBRA'  ||  6,20 quilómetros
(P.E.C. N.º 6)

Ver MACIEIRA DE CAMBRA, 97 num mapa maior

'SÃO PEDRO DE CASTELÕES'  ||  14,20 quilómetros
(P.E.C. N.º 7 e N.º 11)

Ver SÃO PEDRO DE CASTELÕES, 97 num mapa maior

'PAREDES'  ||  6,40 quilómetros
(P.E.C. N.º 8 e N.º 12)


Ver PAREDES, 1997 num mapa maior

'MOUTA VELHA'  ||  8,80 quilómetros
(P.E.C. N.º 9 e N.º 13)


Ver MOUTA VELHA, 97 num mapa maior

'FUNÇÃO'  ||  7,90 quilómetros
(P.E.C. N.º 10 e N.º 14)


Ver FUNÇÃO, 97 num mapa maior

 MAPA GERAL DA PROVA 



AS FOTOS PUBLICADAS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://members.tripod.com/~rali_solverde/cartaz1.JPG
- https://www.facebook.com/photo.php?fbid=109456529103095&set=a.114700628578685.7020.100001162463119&type=1&theater

A BASE DE INFORMAÇÃO PARA A PRODUÇÃO DO TEXTO CONTIDO NESTE TRABALHO FOI RECOLHIDA EM:
- http://members.tripod.com/~rali_solverde/classif.htm

1 comentário:

  1. O site que serviu de base para este trabalho foi só a minha primeira tentativa a fazer um website :) 16 anos depois continuo nessa vida e revisitando a "obra-prima" verifico que ainda bem que evoluí na "arte" desde esse tempo :P

    ResponderEliminar